Segunda-feira, Novembro 30, 2009

Notícias da Trilha Inca (2)

Sábado, 28 de novembro de 2009.
Desperto antes das seis, com o alarme do celular e o canto do galo da vizinhança.
Meço a pressao. Está alta, como previa. Mesmo descontada a precaridade do aparelho portátil, sei que a altitude aumentou a pressao arterial. Trouxe os remédios contados para a hipertensao e para o mal de altitude, o soroche. A pílula contra o soroche pode até ser um placebo, mas funciona. Pelo menos comigo.
Nao dormi bem, mas estou descansado.
No desjejum o cozinheiro nos ofereceu mingau de quínua com aveia e leite, pao, margarina, geléia de morango, omelete, chocolate, café solúvel e chás (inclusive de coca, claro). A partir desse dia resolvi usar uma mistura de chocolate com folhas de coca. Preciso de calorias e da coca para melhorar a respiraçao.
Ao partir vejo que o nome do lugar é Los Nogales.
Começamos a caminhada montanha acima. Agora a trilha fica dura. As pedras sao resvaladiças. Os efeitos da altitude se fazem sentir. Ofego. Resfolego. Um pequeno descanso já permite recuperar. Significa dizer que um ano de musculaçao e de exercícios cardiorrespiratórios valeram a pena. E tem mais é que valer mesmo, pois nao tenho como voltar agora. Os porteadores passam correndo com seus passos miúdos e suas cargas imensas. Sao uns hércules encurvados. Eles correm porque isso ajuda manter o equilíbrio, pela força da inércia.
Eu subo devagar, respirando com dificuldades e sabendo que nao posso parar, pois tenho que manter alta a produçao de enforfinas. Nao sinto dores nem mal estar (soroche). Valeram as sessoes de RPG e Pilates, além das pílulas contra soroche (aspirina e cafeína, basicamente).
Por volta de oito e meia da manha estamos em Ayapata (3.360 m sobre o nível do mar), onde mulheres e crianças quéchuas vendem água, bebidas isotônicas e bolachas. Compro Powerade, um clone de Gatorade com mais potássio.
Pouco depois das 10 h estamos em Llullucha, para mais um descanso de meia hora antes do ataque final ao paso, a passagem entre os dois vales, o ponto culminante da Trilha.
A trilha fica mais difícil, subindo sempre e mais. Faço meu próprio ritmo, sem parada para descanso, para manter sempre alta a produçao de endorfinas. Esta é uma prova de resistência que decidi vencer. Nao contra ninguém, mas experimentando meus próprios limites.
Ao meio-dia, com alegria próxima da euforia, chego ao paso, a 4.215 m sobre o nível do mar. Todos que chegam aqui chegam assim, quase eufóricos. Uns grupos mais alegres que outros. Duas jovens conseguem energia para saltar juntas em busca de uma boa foto. Cada um que chega é aplaudido por todos. A vista dos vales é deslumbrante, estonteante, vertiginosa. Nem palavras, nem fotos, podem descrever esta visao. Para ver e sentir tem que chegar aqui. O vento cortante e frio poe a prova minhas roupas, que resistem bem. Pelos companheiros do grupo que chegaram antes - o adolescente australiano e seu tio peruano - soube que minutos antes chegaram duas senhoras, uma de 64 e outra de 70 anos, que já haviam seguido caminho com seu guia. Fiquei impressionado e decidi fazer o mesmo daqui a catorze anos. É um bom motivo para cuidar bem da saúde até lá. A vista dos vales abaixo e dos picos acima, a verticalidade, mostram a superioridade da natureza e a capacidade dos homens. E a necessidade deste respeitar aquela e viver em harmonia. O nome deste lugar é Warmiwanuska, um páramo muy húmedo subalpine subtropical, conforme a placa.
Descansamos por uma hora e iniciamos a baixada, quando a gravidade ajuda e bastao tem que ser usado em sua extensao máxima. Cada passo é calculado, escolhendo a melhor posiçao para os pés e para bastao, que funciona como uma terceira perna.
Cerca de vinte minutos antes das 14 h chegamos a Pacaymayo, a 3.600 m sobre o nível do mar, onde somos recebidos com laranjada. O acampamento já está armado. Estamos acima das nuvens, que cobrem os vales. O criativo cozinheiro preparou um almoço excelente: sopa de semola com legumes, salada, causa rellena de presunto (um prato típico feito de purê de batata recheado), frango à milanesa, arroz com aletria, mazamora de pêssego e chás (de coca inclusive).
Descanso o resto da tarde na barraca. Perdi a hora e simplesmente dormi.
Sou acordado depois das sete horas da noite por um porteador que convida para jantar. A lua continua crescendo e está quase cheia. O jantar foi simples: sopa de espaguete cabelo de anjo, couve flor no vapor, cubos de carne com legumes e chás. A chaleira passa de mao em mao. Eu passo batido, para nao prejudicar o sono.
A precauçao e o cansaço ajudaram a dormir melhor, apesar do calor amazônico dentro do saco de dormir.
Durmo com a sensaçao de que cumprimos a promessa: sim, nós podemos.

Notícias da Trilha Inca

27 de novembro de 2009, sexta-feira.
Acordo cedo e vou para a recepçao do Hotel Royal Inca II, em Cuzco, acerto os últimos detalhes com a representante da operatora local (Inka Travel, excelente) e tomo o microonibus que está recolhendo os passageiros, os porteadores (carregadores), o cozinheiro e o guia, que depois nos deu as informaçoes para prosseguirmos a viagem até o km 82 da ferrovia Cuzco-Águas Calientes (PeruRail).
Em Urubamba, onde o Vilcanota muda de nome, o tempo nublado nao era nada animador. Passamos por Ollantaytambo, que já visitara na véspera. O microonibus pára na Plaza de Armas, compro água, umas barras de kiwicha (amaranto) e um palo, o bastao que vai me ajudar nessa travessia pelo mundo inca. É mais parecido com um cabo de vassoura com empunhadura bordada e uma alça. Gerson, o guia, me explica que é aproveitamento de sobras de madeira que é torneada e vendida aos trilheiros. Pelo menos um do lote que me oferece uma quechua vestida a caráter já tinha toda a pinta de ter feito a Trilha umas duas vezes ou mais.
No km 82, depois de passar por um belíssimo trecho do vale do Urubamba, descemos todos em um local com pequenas áreas cobertas para os porteadores prepararem os mochiloes com nossas bagagens e a tralha de acampar. Cada um pode carregar com facilidade 40 kg e faziam isso até que as autoridades impuseram o limite de 25 kg para cada porteador.
Nossso grupo é formado por seis trilheiros: eu, dois australianos (pai e filho, de 60 e 16 anos respectivamente), um peruano (cunhado do australiano, 25 anos), uma canadense (25 anos) e uma irlandesa (25 anos).
O guia é o líder de todos, mas o cozinheiro é o líder dos porteadores, escolhidos por ele, quase todos de uma mesma cidade (Urcos), soube depois, durante um ritual de apresentaçao. Eles pesam as bagagens e empacotam até o limite de 25 kg. Chovisca e todos os trilheiros - quinhentos mais ou menos - se dirigem ao posto de controle, ainda na margem direita do Urubamba. Na dúvida, ponho o anorak - da The North Face, último modelo, 80 gramas - e o poncho, da brasileiríssima Trilhas & Rumos, já testado nos 860 km do Caminho de Santiago. Passamos pelo controle , carimbei meu passaporte - é um costume local que resolvi respeitar - me juntei aos demais, nos abraçamos em círculo e gritamos o slogan de Obama: We can! Vamos ver se podemos mesmo. Confesso uma certa ansiedade, pois começar a Trilha Inca com chuva nao estava propriamente nos meus planos, embora soubesse ser essa uma possibilidade forte.
Os porteadores passar por um controle a parte, em que as autoridades pesam cada carga. Gerson nos orienta: durante toda a Trilha o lado da montanha fica para os trilheiros e a borda para os porteadores, que estao sempre com pressa e tem prioridade no caminho.
Faço alongamento e começo a caminhar lentamente. Estamos a 2.750 m sobre o nível do mar. Sao quase 11 horas da manha. Logo somos ultrapassados pelos porteadores de todos os grupos. É impressionante a força e a habilidade deles. A carga é quase do tamanho deles, que via de regra usam umas sandálias feitas de tiras de pneus. Alguns usam tenis. Tem desde jovens, quase adolescentes, até um que me disse ter 64 anos. Eles nao andam, correm, com um passo miudinho que ajuda a manter o equilíbrio, pela força da inércia.
A chuva passou, a caminhada fez subir a temperatura corporal e logo tirei o poncho, o anorak e o fleece (de outro tecido de última geraçao da The North Face que protege contra o frio).
Pouco depois de 13 h, em Kanabamba, topamos com o acampamento já montado pelos porteadores e pelo cozinheiro e uma hora depois já estávamos experimentando o talento dele, que caprichou no almoço: sopa, pao de alho, salada, hamburguer de frango, arroz, batata frita, molho de tomate, banana e chá de coca. Nao fez feio.
Retomamos a caminhada e lá pelas três da tarde topamos com a primeira das muitas ruínas da Trilha, a de Llactapata (2.650 m sobre o nível do mar), ainda no vale do Urubamba (na verdade na confluencia do Cusichaca com o Urubamba). Como a Trilha é pelo alto, temos uma visao panorâmica. Gerson nos dá explicaçoes em inglês e espanhol. Pelo binóculo acompanho o movimento dos operários e especialistas que estao restaurando as ruínas. No caminho encontramos carregadores de argila em sacos e agora vejo uma fila deles chegando nas ruínas.
Antes das seis da tarde já tínhamos subido até Hatunchaca (2.930 m sobre o nível do mar), nosso primeiro acampanento. Desse lugar avistamos um nevado sobre as nuvens, um espetáculo lindíssimo. Nestas primeiras horas de Camino Inca começo a me acostumar com outra dimensao dominada pela verticalidade. Na planície nao temos essa noçao de verticalidade. E se tem uma palavra que pode descrever a paisagem andina é esta: vertiginosa. Eu, acrofóbico assumido, começo a me acostumar com a altura. Percebo logo que meu cérebro é enganado, pois a Trilha escarpada é coberta de arbustos, capim alto e bambus, e como ele nao percebe isso, nao tenho vertigens que me afligem em lugares altos, mesmo que bem protegidos com guarda-corpos.
O lugar do acampamento é plano e nele vivem pelo menos duas famílias, com cachorros, um gato e umas vacas. Em uma barraca circular coberta de paja brava (palha brava) o cozinheiro nos serve chá (de coca, por supuesto), chocolate, pipocas e bolachas. Uma lua quase cheia aparece no anoitecer. É sob ela que somos apresentados ao cozinheiro e aos porteadores, cumprimentando a cada um deles, posando para fotos. Nos mostram a flâmula que vai identificar nossos acampamentos.
Pouco depois jantamos no mesmo lugar. Outra vez o cozinheiro caprichou.
Vou para a barraca - carpa, como dizem aqui - e me enfio no saco de dormir, que enfrenta temperaturas abaixo de zero. O excesso de chá de coca e o calor me tiram o sono. Dormi mais ou menos como durmo em aviao.
Nessa primeira noite aprendi que já temos tecnologia para dispensar a calefaçao e reduzir o consumo de energia, poupando recursos cada vez mais escassos. Falta só convencer europeus, americanos, australianos, neozelandeses, brasileiros do sul, argentinos etc. disso.
Tenho esperanças de que aprendamos isso, pois esta Trilha é uma babel com gentes de todo mundo.
Todos eles saem daqui sabendo que a Terra é nossa mae, a Pachamama.

Nomes

Agora a retificaçao de nomes de pessoas que foram registradas com erros evidentes pode ser feita extrajudicialmente.

Duro vai ser retificar certos nomes próprios.

Por exemplo, Odivan, jogador da seleçao brasileira, se tornaria O Diva (com til, que nao tem no teclado deste computador de Águas Calientes), uma homenagem da mae para Roberto Carlos, que tem uma música com esse título.

Meu primo Rusivéu, se vivo fosse, poderia retificar seu nome para Roosvelt, uma homenagem de seu pai ao Presidente norte-americano.

Para os interessados, segue o número da nova lei: 12.100. Pode ser consultada no http://www.planalto.gov.br/.

Ferrovia EF-334

No final da ferrovia Cuzco-Águas Calientes (PeruRail), depois de caminhar quatro dias pela Trilha Inca, passar em Machu Picchu e descer para este cosmopolito pueblo, fiquei sabendo que havia cantado no Diário Oficial da Uniao decreto presidencial conforme o qual ficam declarados de utilidade pública, para fins de desapropriação, total ou parcial, ou de instituição de servidão de passagem, em favor da VALEC - Engenharia, Construções e Ferrovias S.A., os imóveis constituídos de terras, benfeitorias, acessões e outros bens de propriedade particular, bem como o domínio útil dos terrenos, porventura, foreiros, situados nos Municípios de Figueirópolis, Alvorada, Sucupira, Peixe, Paranã, Arraias, Conceição do Tocantins, Taipas do Tocantins, Ponte Alta do Bom Jesus, Taguatinga, Aurora do Tocantins, Lavandeira e Combinado, no Estado do Tocantins; Campos Belos, no Estado de Goiás; e São Desidério, Barreiras, Santa Maria da Vitória, Correntina, Jaborandi, Coribe, São Félix do Coribe, Serra do Ramalho, Bom Jesus da Lapa, Riacho de Santana, Palmas de Monte Alto, Guanambi, Caetité, Ibiassucê, Rio do Antônio, Lagoa Real, Livramento de Nossa Senhora, Brumado, Aracatu, Tanhaçu, Manoel Vitorino, Jequié, Itagi, Aiquara, Itagibá, Gongogi, Ubaitaba, Aurelino Leal, Uruçuca e Ilhéus, no estado da Bahia, necessários à execução das obras de construção da Ferrovia EF - 334, abrangidos e delimitados pelas coordenadas geográficas correspondente ao projeto ferroviário descritas no Anexo a este Decreto.

Isto significa que a Ferrovia Norte-Sul é cada vez mais Sul e menos Norte.

Na nova rede ferroviária que está sendo montada no país Belém nao conta.

E o Pará só conta para fornecer minério de Carajás.

Mas o pior é a nossa apatia, pois vemos tudo isso acontecer sob nossos olhos e nao nos tocamos nem um pouco.

Belém vai continuar decadente até perder sua condiçao de capital.

Afinal, capital vem de caput, capitis, isto é, cabeça. E Belém está ficando uma cidade descabeçada, desmiolada, que nao consegue perceber o que está acontecendo no resto do Estado e nas relaçoes dele com o restante do país. Quem nao tem cabeça é porque perdeu a cabeça. Quem nao tem cabeça deixa de ser capital.

Sexta-feira, Novembro 27, 2009

Notícias de Cuzco (3)

Hoje tomei uma overdose de imersao no mundo inca. Passei o dia inteiro entre mercados e ruínas.
Em Ccorao comprei artesanato diretamente dos artesaos (chullos e chompas), fugindo um pouco do mercado bastante comercial de Pisac.
Em Ccohahuassi visitei um zoológico diferente, mantido por jovens veterinários com doaçoes dos visitantes e venda de artesanato. Pela primeira vez na vida pude tocar em um condor, recolhido por eles para recuperaçao e reintroduçao na natureza, o que vai ser difícil porque eles foram envenenados (provavelmente comeram carniça envenenada por estricnina e isso pode ter afetado o sistema nervoso das aves). É uma ave impressionante e vista assim de perto é mais impressionante ainda. A envergadura das asas chega a três metros. É parecido com um imenso urubu-rei, pesando cerca de 13 quilogramas. Comprei mais chullos sem regatear, como manda a tradiçao. Aqui a compra valeu também pela boa causa.
Pisac está em restauraçao, mas o mercado de artesanato expandiu-se muito e tornou-se muito comercial. Nao sao mais artesaos que vendem. Agora sao comerciantes, alguns até atacadistas. Mas o pueblo melhorou muito, graças ao turismo.
Almocei em Urubamba, onde o Vilcanota muda de nome. O Vilcanota/Urubamba é um dos subafluentes do Rio Amazonas. Urubamba também melhorou uma barbaridade. O restaurante serve um buffet de comida andina de respeito, inclusive um excelente ceviche de truta e uma nao menos excelente papa a huancayna.
Ollantaytambo também está melhor e as escavaçoes prosseguem. O volume de informaçoes sobre o sítio arquelógico aumentou bastante, o que torna mais fascinante ainda esse mundo inca que foi destruído por uma civilizaçao supostamente mais avançada.
Chinchero é um sítio arqueológico que começa a ser restaurado e explorado e já atrai visitantes em volume bastante para melhorar o pueblo.
De volta a Cuzco fui ver um espetáculo de danças folclóricas excelente (o ingresso é o boleto turístico). Lembrou-me o Ballet Folklórico Nacional do México. A propósito, em Belém falta algo parecido.
Amanha ingresso na Trilha Inca, continuando esta imersao na América profunda. Chegarei domingo a Machu Picchu. Segunda-feira reingresso para uma visita com mais calma. Se tiver pique, voltarei a atualizar o blog segunda-feira.
Hasta la vista.

Quinta-feira, Novembro 26, 2009

Notícias de Cuzco (2)

A caminho de Cuzco ontem, para abrir o apetite, visitei Pukara (3.810 m sobre o nível do mar), La Raya (4.335 m sobre o nível do mar, marca o fim do altiplano e o início do vale do Vilcanota/Urubamba, afluente do Rio Amazonas), Raqchi (3.475 m sobre o nível do mar, com seu impressionante templo de Vilcanota) e Andahualillas (onde a Igreja de Sao Pedro está sendo meticulosamente restaurada). No final da tarde cheguei a Cuzco.
Cuzco mudou muito nos últimos vinte anos. Para melhor. Muito melhor.
Vinte anos atrás cheguei aqui por via aérea, no dia de um paro armado determinado pelo Sendero Luminoso. No caminho para o hotel o motorista teve que fazer uma imensa volta para se livrar das áreas mais conflagradas. Aqui o Sendero Luminoso nao deixou saudades, pelo que me dizem as pessoas com quem falei ontem e hoje. Dizem que o terrorismo afugentava os turistas.
Cuzco tornou-se cosmopolita, uma esquina do mundo, como Veneza, Paris, Rio de Janeiro, Cartagena, San Miguel de Allende e La Habana, respeitadas as devidas proporçoes, claro).
O turismo fez bem à cidade. Hotéis excelentes e uma boa oferta de hostais e albergues classudos atendem do turista endinheirado ao mochileiro. Todas as melhores grifes, preferidas dos trilheiros, ciclistas e andinistas, estao aqui. Trilheiro de primeira viagem, fui surpreendido com marcas desconhecidas no Brasil (Marmot, Mamut e outros bichos), todas excelentes.
Lugares onde antes ficavam simpáticas espeluncas agora sao charmosos e bem cuidados restaurantes. Ao lado da excelente gastronomia autóctone, surgiu uma cozinha neoandina que faz bonito (e gostoso). E a cozinha internacional nao faz feio também (italiana, francesa, indiana, tailandesa, coreana, mexicana e por aí afora). Todos os lugares visitados pelos turistas passaram por restauraçoes e a infraestrutura melhorou muito, mas muito mesmo. Em Sacsayhuaman tem ate serviço médico para os visitantes. Os guias agora sao profissionais com nivel superior que gostam do que fazem. O curso de turismo forma profissionais para toda a indçustria hoteleira, do guia ao gerente de hotel.
Cuzco é dessas cidades que vale a pena se perder só para descobrir aqueles cantos escondidos que nao estao nos guias e depois se reencontrar. É uma cidade para flanar que com certeza faria a delícia de nossos flaneuses do Flanar.
O boleto turístico que dá acesso a todas as principais atraçoes controladas pelo estado financia a manutençao e a restauraçao delas. É um preço bem pago. Nas igrejas o papo é outro, e o dinheiro dos ingressos vai todo para a Santa Madre que, a bem da verdade, está cuidando do patrimonio. Minha guia, Gabriela, com cuidado para ver onde pisava, soltou a língua para dizer que abandonou o catolicismo e passou a praticar a religiao andina, que já tem bastante adeptos. Disse também que o arcebispo de Cuzco é ligado a Opus Dei. Pelas contas dela o Arcebispado de Cuzco arrecada 4 milhoes de dolares por ano com os ingressos da Catedral, que também está bem cuidada, justiça se lhe faça.
Depois de visitar a Igreja de Santo Domingo, construída sobre o Qoricancha, o imponente templo inca, visitei a Catedral e os sítios de Sacsayhuaman, Tambomachay, Puka Pukara e Qenko, o aperitivo de todos que passam por aqui a caminho do Vale Sagrado e de Machu Picchu.
Se Belém quiser se tornar mesmo um destino turístico, vai ter que aprender umas liçoes com Cuzco.

Quarta-feira, Novembro 25, 2009

Notícias de Cuzco

Saí ao amanhecer de ontem de Puno para visitar as ruínas de Sillustani, basicamente chulpas, torres sepulcrais circulares construídas pelos collas para sepultar seus nobres. Os collas eram muito habilidosos para lavrar as pedras, que transportavam sobre toras desde uma pedreira perto, na margem do Lago Titicaca. O sítio arqueológico fica entre a laguna Umayo e o Titicaca. A laguna é ponto de encontro de aves migratórias e residentes. Ontem dava para avistar flamingos e patos andinos. O lago estava mais uma vez lindísssimo, o azul tranquilo infundindo calma e uma sensaçao de paz (fui o primeiro visitante do dia, mas logo chegaram estudantes que nesta época do ano inundam os museus e sítios arqueológicos, uma boa prática que merece ser copiada pelas escolas do Pará e de Belém em particular). Em frente ao sítio existe uma ilha que é uma reserva de vicunhas, o animal símbolo nacional, protegido pelo Estado, que tem o monopólio da extraçao e comercializacao da la, que é muito cara e rara.
Passei em seguida na casa de um quechua (Conceiçao é o nome dele) que graças ao turismo melhorou seus ingressos, embora continue praticando a agricultura. Ele me apresentou seus filhinhos e sua esposa, que mostrou-me suas comidas (batatas, cereais, queijo andino e... argila salgada). Experimentei todos, inclusive batata com argila salgada. Gostei. Por enquanto nao senti nada de errado com essa dieta esquisita (no sentido português do termo). Mostrou-me sua criaçao de cuys - preás ou porquinhos da Índia - que aqui nesta regiao fica fora da casa, em umas casinhas de adobe de dois andares. Mostrou-me também seus fornos, suas ferramentas agrícolas - um ferro de cova e um enxadao - e como lavra a terra com elas.
De volta à rodovia tomei o ônibus turístico rumo a Cuzco. Os ônibus turísticos já nao sao mais majoritariamente brasileiros, como vinte anos atrás. Agora o mercado peruano é dominado por uma empresa espanhola, a Irizar, que é controlada por uma megacooperativa basca, a Mondragon, segundo me informa Jon, o basco que reencontrei no ônibus. A propósito, a televisao noticiou hoje que o caos do transporte público de Lima chegou a um ponto tal que vai ser enfrentado pelo Ministério de Transporte. O ministro entrou ao vivo para explicar como vai funcionar um consórcio formado por mais de uma centena de pequenas empresas de transporte, em regime de concessao. Esse consórcio vai receber financiamento bancário para renovar a frota e já começa com um sistema novo, pré-pago, com base em um cartao magnético que vai dispensar cobrador. Essa mudança coincide com uma manifestaçao de perueiros aí em Belém. Antes de ceder a pressao dos perueiros, é bom que as autoridades municipais de Belém se informem do que aconteceu aqui sob o neoliberalismo tosco de Fujimori que, aplicando tais preceitos no transporte público de Lima, simplesmente destroçou o sistema até entao existente, que agora vai ser retomado, com concessoes de dez anos.
Outra liçao para aprender com peruanos é como destruir um sistema de transporte público de passageiros universalizando a peruagem.
E também como obrigar mototaxista a usar triciclos cobertos para duas pessoas e com um lugar para pequenas cargas na trazeira.

Notícias da Ilha Taquile

Depois de umas duas horas de navegaçao pelo Titicaca levemente encrespado, chegamos a um dos portos da Ilha Taquiles, propriedade comunal dos seus moradores (que compraram a propriedade pedacinho por pedacinho de um latifundiário amigo do rei). Cada pessoa que ingressa na Ilha paga cinco soles, algo como R$3,50. Cada barco que ancora paga dois soles. Com esse dinheiro a comunidade melhora a infra-estrutura da ilha.
Subo lentamente pela trilha, calçada de pedras pelos próprios moradores (o alcaide daqui è mais nominal que real, pois vive em Puno embora tenha casa aqui). Já nao cansei tanto para chegar na comunidade encarapitada no topo da ilha, mais de 4.000 m sobre o nìvel do mar. No caminho encontrei um dos líderes da Ilha com seus símbolos de poder: a roupa, o gorro, a faixa e a bolsa onde leva folhas de coca. Aqui os homens nao se cumprimentam apertando as maos, mas sim oferecendo folha de coca tiradas dessa bolsa, um ritual ancestral que ajuda a manter a coesao social. Por essas e por outras é que acho uma estupidez criminalizar o porte e uso da folha de coca. Para mim é algo tao absurdo quanto, por exemplo, criminalizar o porte e uso do... açaí.
Os moradores de Taquile vivem do turismo, da agricultura e da pecuária tradicional (principalmente ovelhas). O turismo deixou marcas, positivas e negativas, mais aquelas que estas. Positivas: o resgate das tradiçoes e a melhoria das condiçoes de vida dos taquilenhos. Negativas: um certo artificialismo que torna algo fake muito do que agora existe aqui. O saldo é positivo, pelo que percebi, pois até a Unesco reconheceu isso e incentiva o turismo como fonte de preservaçao da cultura dos ilhéus, principalmente a tecelagem (reconhecido como patrimônio imaterial pela Unesco), que aqui é trabalho dos homens (eles usam cinco agulhas com uma habilidade impressionante). Sentado na pracinha em frente da alcaidia, distribuí escovas e creme dental para algumas crianças. O sorriso escancarado no rostinho rechonchudo de uma delas já pagou a viagem inteira. Mas gentilmente recusei comprar o artesanato de outra mais grandinha, que levou também o seu kit.
A paisagem é lindíssima, indescritível. O azul do lago emenda com o azul do céu. O sol a pino torna óbvio porque ele era - e continua sendo - adorado por estes povos daqui: sem o sol simplesmente a vida seria impossìvel aqui, mais de 4.000 m sobre o nìvel do mar. Mas também nao seria possìvel em lugar nenhum, o que nos esquecemos na nossa civilizaçao, pelo estilo de vida que levamos. Para os povos tradicionais o sol (Inti) tem mesmo que ser adorado, pois dele tudo depende. Os painéis solares dos ilhéus nao deixam dúvidas disso, porque sao o perfeito enlace entre esse passado mítico e o presente. Afinal, de acordo com a cosmogonia inca o Inca (o imperador) era o filho de Inti feito homem. Essa ligaçao cosmogônica nao vai acabar nunca, enquanto existir gente nesta ilha, que para um observador marxista bem que poderia ser vista como praticante de uma espécie de socialismo andino. O poder é compartilhado e os líderes sao escolhidos pelos moradores fora do esquema eleitoral institucional. Os dois sistemas convivem e dialogam bem, mas a verdade é que a Ilha tornou-se independente do poder polìtico institucional, graças aos ingressos do turismo. E os ilhéus tomam decisoes que podem satisfazer socialistas e capitalistas. Por exemplo, os quarenta e oito restaurante da ilha oferecem o mesmo cardápio (a base de quinua, batatas, trutas e chá de ervas locais, inclusive coca) a preço igual, para que a competiçao nao afete o equilíbrio social dos ilhéus.
Aqui valem os mesmos preceitos que valem na Ilha Amantaní: nao roubar, nao ser indolente, nao mentir. O resultado é o mesmo: criminalidade zero.
Depois do almoço descemos para um porto do outro lado da ilha. O lago agora estava tranquilo e refletia um céu azul decorado com nuvens de formas caprichosas. Foi quase uma epifania.
Menos de três horas de navegaçao e estamos de volta a Puno, onde chego com a certeza de ter aprendido em dois dias com uros e ilhéus de Amantaní e Taquiles mais do que muitos anos de estudo e leitura. Estou agora convencido que os requerimentos de nossa civilizaçao e do nosso estilo de vida, que consome muito mais do que a Terra pode nos oferecer a todos, vai nos obrigar, mais dia, menos dia, a repensar essa nossa civilizaçao e esse nosso estilo de vida. Nao sei bem qual vai ser o caminho para o encontro desse ponto intermediário entre nós e os ilhéus do Titicaca, mas sei que teremos que encontrá-lo, enquanto podemos.

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

Notícias da Ilha Amantaní

Navegando desde a Ilha dos Uros por aproximadamente duas horas chegamos a Ilha Amantaní.
Somos recebidos no cais pelo Presidente da comunidade que vai nos receber. Depois das boas-vindas em quechua, somos apresentados às representantes das famílias que vao nos hospedar. A mim e a um basco chamado Jon - em euskera, antes era Juan - coube a família de Mari, uma simpática e tímida quechua de 17 anos, vestida a caráter para nos receber. O pai de Mari é Antonio, a mae é Luisa e o irmao é Juan Carlos. A família vive da agricultura e do turismo. Com os ingressos do turismo ampliaram sua casa de adobe, que agora tem dois pisos e quartos confortàveis para receber até seis hóspedes. Nos andenes (terraços herdados dos incas) cultivam batata, oca (um tubérculo adocicado), milho, quínua e habas (favas).
Depois de um passeio pelos andenes, fui ver Mari preparar nosso almoço, já sem as roupas tradicionais, na cozinha de uns quatro ou cinco metros quadrados. O fogao de cerâmica tem três bocas, onde ela prepara com muita calma - slow food é isso aí - uma sopa de quínua com papa (batata), oca e cenoura e frita uma rodela de queijo andino. No final, um digestivo chá de muña, uma erva nativa que cresce entre as pedras dos andenes e parece com arruda.
Depois nos reunimos no campo de futebol da comunidade - no porto de Puno encontrei um barco com nome Rey Pelé -para iniciar uma caminhada até o topo da ilha, pouco acima de 4.000 m.
No muro do campo de futebol estao escritos os três preceitos que estruram a vida social desta ilha: ama suwa, ama q´ella, ama llullav. Nao, roubar, nao ser indolente, nao mentir. Esses sao os fundamentos filosóficos imemoriais desta civilizaçao antiga e desta ilha em particular. O resultado é criminalidade zero. Nao existem cercas ou caes de guarda. Os problemas da comunidade sao resolvidas em reunioes domingueiras. Perguntei para Antonio sobre crimes (homicídios, roubos etc) e ele teve dificuldade para entender a pergunta, respondendo que aqui as pessoas morrem de morte natural.
Começamos a subida até o topo. Uma canseira chegar lá. O ar rarefeito obriga a parar umas quantas vezes. Inicio assim minha aclimataçao para fazer a Trilha Inca na sexta-feira. No topo, pouco acima de 4.000 m -o Titicaca está a 3.800 m e baixando cada vez mais - ficam as ruínas do templo a http://www.flickr.com/photos/fotolobo/411490744/ (Pai Terra). Conforme a tradiçao, dei três voltas em torno dele, dedicando-as a três desejos de Araceli (nao pode ser para o próprio caminhante, depois ela escolhe). O pôr do sol é fantástico nessa altitude e dá para distinguir na linha do horizonte nevados que ficam na Bolívia.
Volto para a casa de Antonio já de noite. Somos apresentados - eu, Jon e meu guia Adrian - a Antonio e Luisa, que agora prepara nosso jantar com a calma ancestral que transmitiu para Mari. O jantar é sopa de quínua, batata cozida com um delicado tempero, arroz e chá de muña.
Depois do jantar fui - devidamente paramentado com um poncho emprestado por Antonio - para uma fiesta no centro comunitário. Revendo agora as fotos, sinceramente, nao convenci ninguem da minha origem quechua, nem sentado, nem dançando com Mari. Nao podendo pagar mais mico do que o assim já bem pago, voltei para dormir o sono dos justos.
Acordei cedo - o sol nasce cinco horas da manha - com o som da chuva, das ondas do Titicaca, do cantar distante de um galo e o zurrar de um jumento.
Fui contemplar o Titicaca e caminhar por outros andenes onde já brotam o milho, a batata e a quínua. A agricultura ainda é praticada como nos tempos dos incas. Nao usam arado, mas apenas enxada para fazer as leiras. Sao hábeis no uso da água de aproveitam bem o terreno inclinado. Mas esta é uma característica destas Ilhas (Amantaní e Taquiles). No restante do Peru os andenes estao sendo abandonados, o que nao acontecia vinte anos atràs, quando estive aqui.
O desayuno preparado por Luisa foi panqueca com geléia de morango, sopa de quínua com macarrao, chuño (batata desidratada), batata e cenoura e chá de muña.
Nos despedimos de Luisa e Antonio e Mari nos acompanhou até o porto, para um ritual coletivo de gratidao e despedidas. Mais que um ritual, é mesmo uma imersao profunda nesta América profunda.
Viver bem - e calmamente - com pouco, construindo, aceitando e praticando preceitos claros e sólidos, é a liçao que nossa civilizaçao deve aprender com as famílias dos uros e dos quechuas da Ilha Amantaní.

Notícias da Ilha dos Uros

É impossível nao simpatizar com os uros.
Eles se dizem o povo mais antigo da terra e teriam chegado aqui na beira do Lago Titicaca antes do sol e da lua. Dizem também que graças ao seu sangue nao afundam e nao podem ser atingidos por raios.
Eles já viviam nas margens do Titicaca quando foram alcançados pela expansao do império inca, a qual resistiram abandonando a terra firme e construindo ilhas flutuantes de totora (junco). O sólido império inca foi desmanchado, mas os uros estao até hoje nas suas ilhas e vao muito bem obrigado. É verdade que o último uro puro morreu nos anos cinquenta do século passado e os atuais uros na verdade se miscigenaram com aimaras, de quem adotaram a língua.
Passei parte da manha de ontem em uma dessas ilhas com um grupo de turistas europeus e canadenses. O encantamento já começa na chegada, com a visao de um arco de totora e as cabanas onde vivem. Sentados em um semicírculo - em um banco de totora, por supuesto - com a ajuda do guia Richard - um legítimo quechua simpático como todos - nos mostram a totora, da qual aproveitam tudo, inclusive um palmito que nao pude experimentar. No passado eles cortavam os blocos flutuantes de raiz totora com uma corda mas agora usam serrotes. Rebocam os pedaços para o local escolhido, amarram uns aos outros e ancoram com poitas e varas. Depois lançam sucessivas camadas de totora, formando as ilhas sobre as quais constroem suas cabanas de seis metros quadrados mais ou menos, feitas com esteiras de... totora, claro. Nos mostram em seguida seu artesanato de totora (mobiles) e tecidos de la (de ovelha e alpaca) e o produto de sua pesca (carachi, do tamanho de uma sardinha). Por um furo no centro da ilha no mostram com um fio de prumo a profundidade do lugar: dez metros contados. Nos levam para conhecer suas casas e suas famílias, quase todas com painéis solares (para iluminaçao, rádio e TV). Na verdade cada ilha pertence a uma familia. Na cabana que visitei viviam seis pessoas, inclusive o bebê de cinco meses da jovem Norma. As crianças uros sao lindamente rechonchudas. Dela comprei um chullo (aquele gorro típico dos Andes) e uma chompa (camisa de manga comprida) para bebê e mostrando interesse nas chompas dos adultos ela me conseguiu uma com um vizinho. Mais uma para minha coleçao de roupas étnicas.
Nos convidam para navegar até outras ilhas em uma balsa (de totora, óbviamente) parecida com a famosa Kontiki (melhor dizendo, a Kontiki é que se parece com as balsas dos uros, com aquele jeitao viking). Nos despedem perfilados no cais cantando cançoes em aimara, ingles e frances. Navegamos calmamente pelo canal até chegar em outra ilha com posto de observaçao, restaurante e uma jaula onde criam trutas arco-iris. Nos mostram suas escolas, onde professores e alunos chegam de balsa.
Os uros resistem bem a uma nova invasao, a dos turistas. Na verdade o turismo ajuda a manter seus costumes e sua cultura e fica claro que sem o turismo os mais jovens abandonariam seu estilo de vida tradicional.
Com os uros aprendemos que a vida pode ser vivida com pouco.
Na metade do caminho entre a civilizaçao dos uros e a nossa deve estar a virtude necessária para viver sem destruir o planeta. Essa é a liçao que aprendemos nessa manha com os uros.

Celso Furtado

Federação Nacional dos Economistas Fundada em 23 de setembro de 1955SCS - Qd. 02, Ed. Anhangüera, Salas 717/718, Brasília-DFCEP: 70.315-900 - Tel. (61) 3225-0690 e Telefax: (61) 3224-7381 - www.fenecon.org.br

CINCO ANOS SEM CELSO FURTADO

Há cinco anos os brasileiros, sobretudo os Economistas e Estudantes de Economia, sofreram, uma perda irreparável.Partia o nosso Grande CELSO FURTADO, deixando-nos, como referências inesquecíveis, os seus impares e magnânimos exemplos de cidadania, como homem público, intelectual brilhante, professor abnegado, administrador público responsável e íntegro, além do seu profundo comprometimento com o desafio do desenvolvimento regional, hoje, no Brasil, reduzido a um simples e poderoso esquema de liberação de verbas públicas federais, destinadas a adubar interesses paroquiais e fisiológicos. Foram gerações de Economistas, no Brasil, nas Américas, na Europa, na África e na Ásia, que o tiveram como grande Mestre, em aulas ministradas no Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, EUA, na Universidade de Sorbone em Paris, na Universidade de Cambridge na Inglaterra, sempre acolhido com muito carinho e respeito, sobretudo depois que, brutalmente, lhe cassaram os direitos políticos. Mas suas dezenas de obras serviram e servem também de farol, a iluminar os caminhos dos que queriam e queiram entender melhor a questão do subdesenvolvimento, e a busca de sua superação.Nascido em Pombal, na Paraíba, desde cedo demonstrou sua paixão pela Economia e seu compromisso com a Democracia. Pela primeira trocou seu diploma de Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Pela segunda, ainda bem jovem, como Tenente de Infantaria R/2, formado pelo CPOR, seguiu para os campos de batalha da Itália, como voluntário na II Guerra, para lutar contra o Fascismo. Uma aula de coerência para todos os brasileiros, sobretudo para aqueles que se dizem Democratas de longas datas. Ao longo desses anos da perda irreparável, os Economistas brasileiros, assim como vários setores da sociedade civil organizada, continuam a reverenciar sua memória.Hoje, mais do que nunca, a melhor forma de render-lhe homenagem, será sempre tê-lo como fonte de inspiração, paradigma de vida, pelos múltiplos e imorredouros exemplos de estadista, intelectual e cidadão do Mundo que nos legou. Assim fazendo, nós Economistas estaremos eternizando seus ensinamentos de Mestre.
Brasília(DF), 20 de novembro de 2009.
Econ. Edson Roffé BorgesPresidente

Sábado, Novembro 21, 2009

Notícias de Lima (4)

Se no passado a violência no Peru era atribuída ao Sendero Luminoso, no presente ela segue o padrao de Nuestra América. A de ontem ficou por conta de um entrevero entre manifestantes e policiais. No pânico que se seguiu cinquenta pessoas foram pisoteadas e algumas ficaram politraumatizadas. Tem também coisas horrorosas, como uma quadrilha que supostamente matava pessoas para extrair gordura humana e exportar para a Europa.
Mas o assunto do dia - da semana, na verdade - é um caso curioso de espionagem.
Peruanos e chilenos vivem às turras desde a Guerra del Pacífico (1879-1883), quando a Bolívia perdeu a saída para o mar e o Peru perdeu parte de suas terras para o Chile. Pois agora os chilenos subornaram um suboficial da Força Aérea do Peru para obter informaçoes sobre a manutençao dos caças russos que os peruanos compraram. O traidor tinha três mulheres e se tornou presa fácil dos chilenos. Descontado o ridículo da coisa, o assunto está rendendo na mídia dos dois países e deixou Bachelet em uma saia justa, às vésperas de uma eleiçao que pode ser vencida pela direita pinochetista. A turma do deixa disso dos dois lados bota panos quentes. Do lado do Peru, principalmente os empresários, interessados mais em negócios que em guerra.
O assunto, descontado o ridículo da coisa, nao vai produzir uma nova Guerra do Pacífico. A nao ser uma guerra de sorrisos amarelos, que tem tudo para terminar empatada.

Notícias de Puno

Estou em Puno, às margens do Lago Titicaca, mais 3.800 m acima do nível do mar. Desci no aeroporto de Juliaca, a 44 km daqui. Estou me aclimatando para encarar a Trilha Inca Longa. Por via das dúvidas tomei um chá de coca ao chegar no hotel e já tomei uma soroche pills, uma novidade farmacêutica que promete acabar com o mal da altitude. Fui ver a composiçao: basicamente aspirina e cafeína. Pouco mais que um placebo, mas parece que funciona, pois nao estou sentindo nada de muito diferente. Mal nao faz. Mas estou seguindo as regras básicas: comida leve, chá de coca e muita água.
Dei sorte nesta chegada em dia de sábado pois exatamente hoje começaram os preparativos para a fiesta da Mamita Candelária, a padroeira de Puno, que vai acontecer em fevereiro, e assim pude assistir a primeira apresentaçao da Morenada Central, uma fraternidade que reúne os moradores da regiao para homenagear a padroeira carregando um andor, vestindo suas melhores roupas típicas - algumas bem européias - e dançando ao som de bandas de metais e percussao. No You Tube tem a coreografia e aqui uma acusaçao de suborno na competiçao deste ano. É, aqui em disso também.
Como aconteceu no México com Nossa Senhora de Guadalupe, o culto à Mamita Candelária é, na verdade, o prosseguimento dos cultos pré-hispânicos sob a capa dos ritos católicos, impostos pelos colonizadores espanhóis. As danças mal disfarçam isso. Claro que a Igreja sempre soube disso mas aceita o jogo, bem jogado pelos dois lados, aliás. O resultado é a sobreviência dos ritos herdados dos aimarás e dos incas sob essa capa católica. Até as representaçoes de Nossa Senhora foram ajustadas para absorver as formas anteriores, basicamente um triângulo cheio de significado para as populaçoes locais e muito bem apropriado pelos pintores da escola cuzquenha. O resultado é bonito de se ver. A dança lembra algumas de Nova Orleans e a das nossas baianas no Carnaval e na festa do Senhor do Bomfin, em Salvador. Aliás, como diria Isidoro Alves, isto aqui é também um carnaval devoto. E como acontece com nosso Círio e com a fiesta de Nossa Senhora de Guadalupe, sua perpetuaçao está garantida pela presença das crianças e dos jovens.
Fui jantar no La Casona, um restaurante que é também um museu. Peguei leve, para nao desafiar o soroche: torreja de quinua, sopa de quinua e panqueca de quinua. A quinua foi descoberta pelo mundo e agora está nos melhores cardápios. Já é encontrada até mesmo nos supermercados de Belém. Vinte anos atrás só quem passava por aqui era apresentado a ela, geralmente depois de ser alcançado pelo soroche, ocasiao em que a receita básica era descansar e tomar sopa de quinua. A quinua foi domesticada pelos incas, como a batata, o que aconteceu exatamente aqui em Puno. É cultivada e preparada até hoje como faziam os incas: tem que ser lavada quatro vezes em muita água para retirar uma toxina chamada saponina e só depois dessa preparaçao fica pronta para o consumo. A quinua caiu no gosto dos chefes do mundo inteiro e já se encontra nos cardápios dos restaurante até mesmo um prato chamado quinoto, que é o risoto de quinua. Essa combinaçao que fiz aqui em Puno é muito delicada e agrada os paladares mais exigentes.
Amanha vou passar o dia com os uros, povo andino que se diz o mais antigo do mundo, e vou pernoitar em uma casa de moradores da Isla Amantaní, no Lago Titicaca.
Comecei meu mergulho na América profunda.

Notícias de Lima (3)

Huaca Pucllana é uma pirâmide de adobe encravada no coraçao de Miraflores.
Vinte anos atrás nao era uma grande atraçao e estava um pouco abandonada.
Agora está cercada com elementos vazados de concreto armado, o que afeta negativamente a paisagem, de resto já prejudicada pelos edifìcios e casas. Os peruanos cometeram o erro de deixar a urbanizaçao chegar muito perto da pirâmide. Esse erro os mexicanos ainda nao cometeram com Teotihuacan, onde um projeto de um hipermercado na linha do horizonte ouriça os preservacionistas e intelectuais.
Huaca Pucllana está sendo restaurada e os trabalhos arquelógicos prosseguem, o que faz presumir melhorias. Espero que bastante e suficientes para no futuro retirar o cercado de concreto.
Como nao deu para entrar e visitar de verdade a pirâmide, espero voltar antes de ir para Iquitos.

Notìcias de Lima (2)

Estou em Miraflores, o bairro granfino de Lima. O restaurante do hotel fica na casa em que vivia o ex-Presidente Belaunde Terry. É uma casona colonial. No ladrilho junto do bar ainda tem a marca de um atentado a bomba do Sendero Luminoso. E nas paredes muitos quadros da escola cusquenha. A uma quadra daqui fica a Embaixada do Brasil, que ocupa quase metade de um quarteirao, na Av. José Pardo. É um prédio um tanto quanto soturno.

Nos tempos bravos - anos oitenta - Miraflores ficou um tanto quanto decadente. Nao era incomum encontrar dejetos humanos nas calcadas e o cheiro de urina incomava o caminhante. Mais ou menos como em algumas ruas de Belém (sim, há disso em Belém, mas só quem caminha pela cidade percebe).

Agora Miraflores volta a fazer jus ao nome. Os jardins e parques estao bem cuidados e tem mesmo muitas flores para ver. A Municipalid mantém um bom policiamento (ciudadano, por supuesto). A coleta do lixo é razoável (pelo menos nao tem aqueles monturos de lixo que conhecemos bem). A Praca Kennedy, a alma de Miraflores, foi revitalizada. No anfiteatro ontem a noite tinha musica mecanica e casais de todas as idades dancando salsa. Os restaurante e bares estao lotados (parece que nao tem crise). O eixo Praca Kennedy-Larco está se tornando uma espécie de Zona Rosa limenha, com restaurantes, danceterias e bares temáticos (inclusive um cubano) e barulhentos. No El Parquetito tem comida peruana de boa qualidade (experimentei ontem o chupe de pescado, um caldo de peixe bem temperado, e humitas rellenas de manjar blanco, uma pamonhazinha com doce de leite, e gostei).
Hoje de manha cedo fui visitar Huaca Pucllana, a piramide de adobe que fica aqui em Miraflores, bem perto do hotel.
Mas esse já é tema para outro post, porque está na hora de ir para Juliaca e daí para Puno.

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Notícias de Lima

A primeira vez que estive em Lima foi nos anos oitenta do Século passado, depois de passar uns dias em Cuba. Viajei desde La Habana em um daqueles jumbos soviéticos lotado de pescadores russos (os russos tinham acordos de pesca com Cuba e Peru), que tomavam todo o estoque de Havana Club e aprontavam todas durante o voo. O Sendero Luminoso estava no auge. Alan Garcia era o Presidente. O Aeroporto era pouco mais que uma rodoviária melhorada. As pessoas falavam em inglês quando se referiam ao Sendero Luminoso, com medo de serem delatadas. O Sendero Luminoso náo impunha respeito, impunha medo, mesmo para gente de esquerda. Tive que antecipar a saída do hotel para o aeroporto em muitas horas porque o Sendero havia convocado um paro armado. Apesar dessa providência o motorista teve que se desviar de muitos obstáculos pelo caminho. De bom registrei o casco histórico bem cuidado e a excelente gastronomia.
Voltei depois nos anos noventa do Século passado, para um congresso jurídico. O Sendero havia sido destroçado por Fujimori, que entao ja tinha executado mais da metade de suas malfeitorias, mas ainda nao havia caído em desgraça. Nessa segunda vez o que me chamou atençao foi a destruiçao do sistema de transporte coletivo de passageiros, vítima de um neoliberalismo tacanho que permitiu a concorrência predatória dos perueiros (as combis, como se diz aqui) com o sistema convencional. Os dois sistemas foram destruídos e até agora nao foi recuperado o convencional. Para piorar, como a economia melhorou sob Fujimori a classe media teve mais acesso ao automóvel e Lima foi entupida de carros. Um caos urbano para ninguém botar defeito. Para quem reclama do transporte coletivo de Belém precisa experimentar o de Lima. Mas tenhamos por certo que se nao houver combate duro ao transporte dito alternativo, das vans, Belém é forte candidata a virar uma Lima no tucupi.
Mas uma outra coisa é certa: Lima continua tendo o melhor ceviche e o melhor pisco sour do mundo. Um presidente Alan Garcia que parece disposto a nao repetir os erros do primeiro mandato.
E um shopping center - o Larcomar - que tem uma sala de museu. Nada mais nada menos que do Museo del Oro, que é particular. Seria mais ou menos como se o nosso Doca Boulevard tivesse uma sala do Museu Goeldi (taí uma boa idéia).
O Museo del Oro de Lima nao é páreo para o Museo del Oro da Colômbia (este é do Banco Central da Colômbia). Mas a sala dele no Larcomar é excelente, tem poucas mas relevantes peças e um bom audioguia, como nos bons museus europeus.
Amanha vou para Juliaca e daí para Puno, para aclimatar-me a altitude antes de encarar a Trilha Inca Longa.

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

América Profunda

Começo minhas férias hoje e inicio uma viagem à América profunda.
Vou voltar a Puno, Cuzco e Machu Picchu, na ordem inversa da viagem que fiz vinte anos atrás, mais ou menos, de Cuzco a Belém, via Bolívia (por Cochabamba, Santa Cruz de la Sierra e Puerto Suárez/Corumbá), de trem e ônibus.
Sei que a paisagem mudou, pouco, mas mudou. Mas sei que meus olhos mudaram muito.
Desta vez vou para um mergulho na América profunda dos uros, que vivem sobre ilhas artificiais de totora (junco) no Lago Titicaca, algumas delas com mais de 160 anos de idade. Vou viver um dia e uma noite com uma família em uma ilha do Lago Titicaca. Depois passo uns dois dias em Cuzco, me aclimatando para fazer a Trilha Inca Longa. Serão quatro dias de caminhada por um trecho da imensa Estrada Real dos incas, com altitudes que chegam a 4.000 metros sobre o nível do mar. No quarto dia de caminhada chego a Machu Picchu. No dia seguinte reingresso para mais uma vez rever a cidadela e seus mistérios.
Depois, passo uns dois dias em Lima e inicio outro mergulho, agora na Amazônia profunda. Vou passar uns dias em Iquitos, na selva amazônica peruana. E daí vou descer o imenso Rio até Belém, passando por Tabatinga/Letícia, Manaus e Santarém, seguindo mais ou menos o mesmo caminho de um cônsul francês em Callao (que registrou em livro a experiência) e de alguns outros viajantes como Wallace (escolhi o livro dele como companheiro de viagem).
Perto do Natal estarei de volta a Belém.
Sempre que possível registrarei essas etapas aqui.

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Benedito Nunes (2)

Mas se você quer comemorar os oitenta anos de Benedito Nunes em grande estilo, compareça a este outro evento. Este vai ser em Belém, para compensar.

Congresso BENEDITO NUNES, pensador brasileiro

Apresentação
No mês em que se comemoram os 80 anos do filósofo Benedito Nunes, um dos mais importantes intelectuais brasileiros, este congresso visa apresentar e debater a sua obra, tanto no âmbito da crítica literária quanto no da reflexão filosófica, dado que a melhor maneira de se homenagear um pensador é o estudo das suas idéias. Professores de diversas procedências, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belém, são convidados a pensar o fecundo legado do grande crítico paraense.
Três objetivos centrais inspiram a realização deste evento:
1) Provocar o debate em torno da obra de Benedito Nunes, explorando-lhe a densidade intelectual e localizando-a no contexto da cultura letrada brasileira. Este objetivo é almejado, sobretudo, nas cinco palestras do evento.
2) Apresentar criticamente a obra de Benedito Nunes, relacionando as diversas temáticas que aborda e, principalmente, demonstrando de que modo promoveu a aproximação da literatura e filosofia. Este escopo motiva, principalmente, os dois cursos do congresso.
3) Entender como o próprio Benedito Nunes avalia a sua trajetória intelectual, a dimensão de sua obra e a maneira como a desenvolveu.

Destinatários
O evento destina-se a todos os interessados na cultura brasileira, sua literatura, história e intelectualidade, aos estudiosos e apreciadores de literatura, filosofia e ciências humanas em geral, juristas, sociólogos, historiadores, jornalistas, publicitários e artistas.

PROGRAMA

Data

25, 26 e 27 de novembro (quarta, quinta e sexta)

Horário
15h às 18h15 (cursos); 19h às 21h45 (palestras e lançamentos)
Local
Auditório David Muffarej da UNAMA - Universidade da Amazônia (Alcindo Cacela, 287 - Belém, PA. Acesso pela galeria de arte)

ENTRADA FRANCA
Obs: Serão conferidos certificados aos participantes que o requererem.
Valor: R$ 10, 00

Realização
Centro de Cultura e Formação Cristã - CCFC

Coordenação
Victor Sales Pinheiro

Apoio
UNAMA . CCBEU . SEMEC . SALES PINHEIRO ADVOCACIA . RESTAURANTE MANJAR DAS GARÇAS . COLÉGIO ELITE

Benedito Nunes

Os oitenta anos bem vividos de Benedito Nunes merecem muita, mas muita mesmo, comemoração.
Uma forma de comemorar é indo a este evento.
É bom notar que ele vai acontecer em Ananindeua, Região Metropolitana de Belém.
Não por acaso, as coisas boas começam a acontecer cada vez mais fora de Belém.

Filosofia com Benedito Nunes - Romance, drama e filosofia

O renomado filósofo e escritor paraense Bendito Nunes ministrará este curso relacionando o romance, o drama e a filosofia. O objetivo é estabelecer uma profícua conexão entre a Literatura e a Filosofia, colocando-as num diálogo mutuamente enriquecedor. Para tanto, utilizará como eixo central de sua análise reflexiva as obras Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Merleau-Ponty e Machado de Assis.

Programa
28 e 29 de novembro

Horário: Das 08h30 às 12h30

Local: Centro de Cultura e Formação Cristã. BR 316, Km 6, Ananindeua-PA.

Informações
4009-1550

ENTRADA FRANCA

Atenciosamente,

Otacilio Rodrigues Dias (eventos) – Centro de Cultura e Formação Cristã da Arquidiocese de Belém.

NOTA: Visite o site do CCFC nele você encontrará todas as atividades culturais, de evangelização e formação para 2009: http://www.ccfc.com.br

Produtividade (2)

O Congresso Nacional continua produtivo.
Cantou no Diário Oficial:

Lei nº 12.093, de 16.11.2009 - Dispõe sobre a criação de cargos em comissão do Grupo-Direção e Assessoramento Superiores - DAS, destinados ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Lei nº 12.092, de 16.11.2009 - Institui o Dia Nacional do Cerimonialista.

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Curso sobre Orçamento e Gestão

Foi-se o tempo em que juiz do trabalho não se interessava por gestão e orçamento.
Estou participando mais uma vez de um curso sobre orçamento.
O primeiro foi em Belém mesmo, promovido pela associação regional dos juízes do trabalho, a AMATRA, alguns anos atrás. Esse foi ministrado pela economista Oádia Rossy, com quem eu trabalhei na SEPLAN-PA. Agora estou em Brasília para fazer o 3º Curso sobre Orçamento e Gestão, este promovido pela nossa associação nacional, a ANAMATRA.
Veja a notícia completa abaixo.

Começa em Brasília o 3º Curso sobre Orçamento e Gestão

(16/11/2009 - 17:17)


A terceira edição do curso sobre orçamento e gestão promovido pela Anamatra teve início nesta segunda-feira (16/11). A abertura do evento foi feita pelo presidente da Anamatra, Luciano Athayde Chaves, e pelo secretário-geral do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Rubens Curado. Até amanhã, juízes do Trabalho de diversas Regiões estarão reunidos em Brasília, no Centro de Convenções do Brasil XXI, para conhecerem um pouco do funcionamento orçamentário nos três Poderes, com ênfase na elaboração, apreciação e execução orçamentária. O curso está sendo conduzido pelo professor Francisco Glauber Lima Mota (*) e contará também com a presença de convidados que ministrarão palestras sobre orçamento público (confira abaixo programação do curso).

“A nossa história tem demonstrado que a magistratura sempre se encontra um passo atrás na administração. Muitos dizem que não é função dos juízes administrar, mas precisamos mudar esse pensamento, pois nossa luta é pela autonomia do Judiciário”, afirmou o presidente da Anamatra, Luciano Athayde Chaves, ao abrir oficialmente o curso. Para o magistrado, o Judiciário vive um momento importante e é necessário que essa autonomia, conferida pela Constituição Federal, não seja desprezada, mas sim comemorada. “Precisamos nos preparar para isso. Para tornar efetiva a ideia do ‘governo dos juízes’ e, consequentemente, conferir mais qualidade à prestação jurisdicional”, disse.

Luciano Athayde também falou do fato de o cumprimento da Resolução nº 70 do CNJ ser uma das prioridades de sua gestão. “O CNJ abriu uma janela, mas precisamos transformá-la em uma porta e isso vai depender dos juízes. É necessário atuarmos na elaboração de metas, propostas e projetos de nossos tribunais, acompanhando a execução dessas metas e do próprio orçamento”, disse o presidente, ao lembrar que a Resolução garante a participação de magistrados e servidores, indicados por suas entidades de classe, na elaboração do planejamento estratégico dos tribunais, o que inclui as discussões acerca das matérias orçamentárias.

“Este curso não é um encontro burocrático, mas sim de fé em uma mudança paradigmática para a justiça”, completou Luciano Athayde, ressaltando que a Anamatra cumpre o seu papel político de preparar os juízes para exercerem um governo. “Queremos construir pontes entre todos os tribunais, integrando-os em um só propósito que é o de tornar a administração judiciária mais democrática e mais qualificada, permitindo-nos, como novos atores, interferir nesse processo”.

O secretário-geral do CNJ, Rubens Curado, falou da mudança pela qual o Poder Judiciário passa e fez um balanço do Planejamento Estratégico do Poder Judiciário, em curso no Conselho. “Estamos vivendo um momento ímpar de revolução no Judiciário e porque não nas associações. Nosso modelo de associativismo está mudando rapidamente e a Resolução nº 70 toca nisso”, afirmou Rubens Curado, ao lembrar, assim como fez o presidente da Anamatra, que o CNJ preocupou-se em conferir ao movimento associativo participação nas questões de planejamento estratégico, que incluem matérias relativas ao orçamento.

Rubens Curado também falou da necessidade de se compreender o Poder Judiciário com unicidade. “Nós temos o sentimento de que o Judiciário é um só, o que há é uma divisão de competências”, afirmou. Nesse aspecto, o secretário-geral, que também é juiz do Trabalho, expressou sua preocupação quanto ao desnivelamento dos tribunais brasileiros. “Nossa Justiça do Trabalho está anos luz à frente da justiça estadual. Talvez seja importante olharmos para o outro lado e ver se podemos ajudá-los de alguma forma”, disse. Também foi objeto da intervenção de Rubens Curado uma crítica quanto ao aumento de pessoal dentro do Judiciário. “Talvez seja também o momento de pensarmos em uma reengenharia”, afirmou, ao trazer exemplos de distorções da alocação de servidores entre o 1º e 2º graus.

O professor Francisco Glauber Mota também falou da importância do conhecimento do orçamento por parte dos magistrados. “No momento em que a gente faz evento como esse, que chama profissionais que não estão diretamente vinculados a esta área, mas que tem plenas condições de atuar nela, por meio do conhecimento da realidade financeira e orçamentária, a gente dá essa visão que permitirá que eles possam participar mais ativamente”, disse o professor, reassaltando que o orçamento é uma peça fundamental em matéria de finanças em qualquer setor, seja na área pública ou empresarial. “Acho interessante esse vínculo que se cria aqui, entre as decisões do Poder Judiciário e o suporte necessário na área administrativa envolvendo a questão orçamentária, para que as coisas se processem naturalmente”, finalizou.

(*) Francisco Glauber Lima Mota é graduado em Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Ceará e mestre em Contabilidade pela Fundação Universidade de Brasília. Tem especialização nas áreas financeira e operacional e em políticas públicas e gestão governamental. Autor do livro “Contabilidade Aplicada ao Setor Público”.

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Programação - 3° Curso sobre Orçamento e Gestão
Local: Sala Vera Cruz 2 - Centro de Eventos e Convenções Brasil 21 - Brasília/DF

16 de novembro de 2009 (Segunda-feira)

13h00 - Abertura
- Luciano Athayde Chaves (Presidente da Anamatra)
- Rubens Curado (Juiz do Trabalho da 10ª Região e Secretário-Geral do CNJ)

13h30 - Curso com o Prof. Glauber Mota

16h00 - Coffe Break

18h00 - Encerramento das atividades do dia.


17 de novembro de 2009 (Terça-feira)

09h00 às 12h00 - Curso com o Prof. Glauber Mota

Almoço Livre

14h30 - Palestras com
- Deputado Federal João Dado - Comissão Mista de Orçamento da Câmara de Deputados;
- Felipe Daruich Neto - Diretor do Departamento de Programas Especiais da SOF do Ministério do Planejamento;
- Adlei Cristian Carvalho Pereira - Secretário-Geral do CSJT;
- Antônio Carlos S. Rebelo - Diretor do Departamento de Acompanhamento Orçamentário do CNJ.

Eleição e Transição

Cantou no Diário da Justiça:

DIÁRIO DA JUSTIÇA DA UNIÃO, Nº 218, DE 16.11.2009, PÁGS. 2 E 3

CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA

RESOLUÇÃO Nº

95, DE 29 DE OUTUBRO DE 2009.

Dispõe sobre a transição dos cargos de direção nos Órgãos do Poder Judiciário.

O PRESIDENTE DO CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, no uso de suas atribuições constitucionais e regimentais, e

CONSIDERANDO que compete ao Conselho Nacional de Justiça o controle da atuação administrativa e financeira do Poder Judiciário, bem como zelar pela observância do Art. 37 da Carta Constitucional (CF, art. 103-B, § 4º, caput e inciso II);

CONSIDERANDO que a continuidade administrativa é um dos objetivos a serem perseguidos pelo Poder Judiciário, a teor da Resolução nº 70 do Conselho Nacional de Justiça e da Meta Nacional de Nivelamento nº 1;

CONSIDERANDO que a transição das gestões nos tribunais enseja dificuldades no tocante ao acesso às informações essenciais para os planos de ação dos dirigentes eleitos;

CONSIDERANDO a necessidade de atribuir maior eficiência e transparência ao processo de transição das gestões,

CONSIDERANDO que o Supremo Tribunal Federal e Conselho Nacional de Justiça já criaram a regra de transição em suas respectivas Cortes;

CONSIDERANDO o deliberado pelo Plenário do Conselho Nacional de Justiça na sua 93ª Sessão Ordinária, realizada em 27 de outubro de 2009; resolve:

Art. 1º

A transição da direção de todos os tribunais do país fica regulamentada por esta Resolução, com o objetivo de fornecer aos dirigentes eleitos subsídios para a elaboração e implementação do programa de gestão de seus mandatos.

Art. 2º

O processo de transição tem início com a eleição dos dirigentes do tribunal e se encerra com as respectivas posses.

§ 1º. A eleição ocorrerá no mínimo 60 (sessenta) dias antes do término do mandato;

§ 2º. A proposta do Poder Judiciário, enviada para constar da Lei de Diretrizes Orçamentárias no ano da eleição, deverá ser publicada no Diário da Justiça.

Art. 3º

É facultado aos dirigentes eleitos indicar formalmente equipe de transição, com coordenador e membros de todas as áreas do tribunal, que terá acesso integral aos dados e informaçõesreferentes à gestão em curso.

Parágrafo único. Os dirigentes no exercício do mandato designarão interlocutores junto ao Coordenador da equipe de transição indicado pelos dirigentes eleitos, devendo a indicação recair, preferencialmente, nos titulares das unidades responsáveis pelo processamento e execução da gestão administrativa.

Art. 4º

Os dirigentes em exercício deverão entregar aos dirigentes eleitos, em até 10(dez) dias após a eleição, relatório circunstanciado com os seguintes elementos básicos:

I - planejamento estratégico;

II - estatística processual;

III - relatório de trabalho das comissões permanentes e de projetos, se houver;

IV - orçamento com especificação das ações e programas, destacando possíveis pedidos de créditos suplementares em andamento com as devidas justificativas;

V - estrutura organizacional com detalhamento do Quadro de Pessoal, cargos providos, vagos, inativos, pensionistas, cargos em comissão e funções comissionadas, indicando a existência ou não de servidores cedidos para o tribunal, bem como em regime de contrataçãotemporária;

VI - relação dos contratos em vigor e respectivos prazos de vigência;

VII - sindicâncias e processos administrativos disciplinares internos, se houver;

VII - tomadas de contas especiais em andamento, se houver;

VIII - situação atual das contas do tribunal perante o Tribunal de Contas da União ou do Estado, indicando as ações em andamento para cumprimento de diligências expedidas pela respectiva Corte de Contas;

IX - Relatório de Gestão Fiscal do último quadrimestre, nos termos da Lei Complementar nº 101/2000.

Parágrafo único.

Os dirigentes eleitos poderão solicitar dados e informações complementares, se considerarem necessário.

Art. 5º

Os dirigentes no exercício dos cargos disponibilizarão espaço e equipamentos necessários aos trabalhos da equipe de transição.

Art. 6º

As unidades do tribunal deverão fornecer, em tempo hábil e com a necessária precisão, as informações solicitadas pela equipe de transição.

Art. 7º

Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.

Ministro GILMAR MENDES

Eleições na OAB

Recebi mensagem de um advogado pedindo meu apoio para a eleição dele na Ordem dos Advogados do Brasil.
Não tenho direito a voto nas eleições, mas resolvi socorrer o candidato e respondi assim:

Pondero que você melhore seu material de campanha para que não perca preciosos votos.

Por exemplo: Napoleão nunca fechou a OAB. Nem poderia. Afinal, não há contemporaneidade. Também não há territorialidade (presumo que o Napoleão a que você se refere é francês e a OAB a que você se refere seja brasileira).

Outro exemplo: Você diz que Cansei de ser um moro observador bem intencionado. Você não é moro, é mero.

Abraços do





José de Alencar
Belém - Pará - Amazônia - Brasil

Calma, gente.
O candidato é de um outro estado da federação, é do Rio Grande do Sul.
Gentilmente ele já respondeu, corrigindo a mensagem e atribuindo os erros à correria da campanha. Não sei se a tempo de minorar os estragos, pois lá como cá a eleição estava em cima.

Ambiência Laboral

Para quem é do ramo, tem link novo aí do lado direito.
É o blog Ambiência Laboral, do colega João Humberto Cesário, Juiz do Trabalho no TRT da 23ª Região (Mato Grosso) e Professor de Teoria Geral do Processo e Direito Processual do Trabalho na Escola Judicial do TRT da 23ª Região, para quem abro alas transcrevendo o post inicial:


Meus principais temas serão o Meio Ambiente do Trabalho, a Teoria Geral do Processo e o Processo do Trabalho. Na abordagem desses assuntos, vou trazer algumas reflexões, dúvidas e inquietações que afloram quase quotidianamente no meu íntimo. Dentro de um ânimo construtivo, desejo dialogar com o maior número de pessoas, para aprender um pouco mais dessas matérias que tanto gosto de estudar. Quero apresentar, no correr do tempo, algumas decisões interessantes que tomei em quase uma década de magistratura. Claro que os meus alunos terão tratamento especial. Veicularei, nesse contexto, algumas dicas para advogados em início de carreira e para aqueles que desejam se preparar para concursos públicos. Também divulgarei notícias da minha agenda, para que vocês saibam as cidades e locais onde ministrarei aulas, palestras e oficinas. As possibilidades são infinitas. Teremos, com o correr do tempo, uma noção mais exata de como será a nossa interação. Venham e sintam-se livres. A casa é nossa! Grande abraço!

Domingo, Novembro 15, 2009

Deprê

A Folha de S. Paulo publicou este artigo de Nouriel Roubini (tem link para ele aí do lado direito).

São Paulo, domingo, 15 de novembro de 2009,

DEPRESSÃO ECONÔMICA

Economia dos EUA está mais fraca do que parece

Ricos estão se tornando mais ricos com a alta nas Bolsas, mas a maior parte do país enfrenta uma quase depressão

NOURIEL ROUBINI

Embora os Estados Unidos tenham recentemente registrado crescimento de 3,5% para o seu PIB no terceiro trimestre, o que sugere que a mais severa recessão desde a Grande Depressão está encerrada, a economia norte-americana na verdade está muito mais fraca do que os dados oficiais sugerem.
Os indicadores oficiais de Produto Interno Bruto podem superestimar grosseiramente o crescimento econômico, porque não capturam os sentimentos negativos que prevalecem entre as pequenas empresas e a sua severa queda de produção.
O PIB do terceiro trimestre, se corrigido de acordo com esses fatores, pode ter registrado crescimento anualizado de 2%, e não de 3,5%.
A história dos Estados Unidos, de fato, é um conto de duas economias. Existe uma parcela menor que está se recuperando lentamente e uma parcela maior que continua em profunda e persistente desaceleração.
Considere os seguintes fatos: embora o índice oficial de desemprego norte-americano seja de 10,2%, o número salta para chocantes 17,5% se forem incluídos os trabalhadores que perderam o ânimo de procurar emprego e os trabalhadores de tempo parcial. E, enquanto os dados empresariais sugerem perdas de 600 mil empregos nos últimos três meses, pesquisas domiciliares, que incluem os trabalhadores autônomos e as pequenas empresas, sugerem que essas perdas foram superiores a 2 milhões de postos de trabalho.
Além disso, o efeito total da tendência sobre a renda dos trabalhadores -o produto da multiplicação do número de empregos pelas horas trabalhadas e pelo salário médio por hora- foi mais severo do que aquele que os indicadores simples de demissões apontam, porque há empresas reduzindo as jornadas de trabalho de seus funcionários, colocando-os em licença não remunerada ou reduzindo salários como forma de distribuir os prejuízos.
Muitos dos empregos perdidos na construção, nas finanças, na manufatura e nos serviços terceirizados não serão recuperados, e estudos recentes indicam que um quarto dos empregos dos EUA pode ser terceirizado para outros países, com o tempo.

Sem esperança
Assim, proporção crescente da força de trabalho -muitas vezes por sob o radar das estatísticas oficiais- está perdendo a esperança de obter emprego remunerado, enquanto o índice de desemprego (especialmente para os trabalhadores pobres e de baixa capacitação) continuará elevado por período muito mais longo do que em recessões anteriores.
Considere também os mercados de crédito. As empresas e os consumidores com bons históricos de crédito e as companhias classificadas com o grau de investimento não passam por compressão de crédito no momento, porque dispõem de acesso a hipotecas e crédito ao consumidor, para as pessoas físicas, e ao mercado de ações e títulos, para as corporações.
Mas os agentes que não têm históricos de crédito favoráveis, cerca de um terço dos domicílios dos EUA, não desfrutam de muito acesso a hipotecas e cartões de crédito. Têm de viver de salário a salário, e esses salários muitas vezes estão em queda, devido à redução na remuneração por hora e do número de horas trabalhadas. E a compressão de crédito para as empresas que não tenham grau de investimento e para as companhias de menor porte, que ainda dependem mais de empréstimos bancários que dos mercados de capitais, continua severa.
Ou considere os números sobre concordatas e a inadimplência de domicílios e empresas. As companhias de maior porte -mesmo aquelas que enfrentam pesadas dívidas- são capazes de refinanciar seu passivo excedente, na Justiça ou fora dela; mas número sem precedentes de pequenas empresas estão quebrando.
O mesmo se aplica aos domicílios, com milhões de devedores mais pobres ou mais frágeis deixando de pagar hipotecas, cartões de crédito, prestações de automóveis, crédito estudantil e outras formas de crédito ao consumidor.
Considere também o que está acontecendo com o consumo privado e as vendas do varejo.
Recentes números mensais indicam uma recuperação nas vendas do varejo. Mas, porque as estatísticas oficiais capturam principalmente as vendas das grandes empresas de varejo e excluem as quedas nas vendas de milhares de lojas de menor porte e de empresas falidas, o consumo parece melhor do que de fato é.
E, embora os domicílios de maior renda e patrimônio contem com economias que podem atenuar a queda do consumo e a necessidade de poupar mais, a maioria dos domicílios de baixa renda se vê forçada a poupar mais, porque os bancos e outras instituições estão reduzindo os empréstimos garantidos por imóveis e os limites de cartões de crédito.
Como resultado, o índice de poupança domiciliar cresceu de zero para 4% da renda disponível. Mas é preciso que esse índice cresça ainda mais, para 8%, a fim de reduzir o pesado endividamento domiciliar.
É certo que o governo dos EUA está ampliando seus deficit orçamentários a fim de sustentar a demanda. Mas a maioria dos governos estaduais e locais que passaram por um colapso em arrecadação tributária deve reposicionar fortemente os gastos por meio de demissões de policiais, bombeiros e professores ou por cortes nas horas trabalhadas, o que resulta em menor renda para os trabalhadores, enquanto em Wall Street as bonificações absurdas retornaram.
Com a alta nas Bolsas enquanto cai o valor das casas, os ricos estão se tornando mais ricos, enquanto a classe média e os pobres, cujo principal patrimônio é uma residência, e não ações, estão se tornando mais pobres e se veem forçados a arcar dívidas insustentáveis.
Assim, embora os EUA possam ter chegado tecnicamente ao fim de uma severa depressão, a maior parte do país continua a enfrentar uma quase depressão. Pouco admira, portanto, que não muitos norte-americanos acreditem que aquilo que caminha como pato e grasna como pato seja na verdade a fênix da recuperação.


NOURIEL ROUBINI é presidente da RGE
Monitor (www.rgemonitor.com) e professor da Escola Stern de Administração de Empresas, na Universidade de Nova York.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Link:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1511200917.htm


Sábado, Novembro 14, 2009

Raridade

Deu no Espaço Aberto:

sábado, 14 de novembro de 2009

Um advogado retém processos. Não é coisa rara.

A assessoria de Imprensa do Ministério Público do Estado divulga uma informação.
Dá conta de que, em Itupiranga, a Justiça condenou o advogado Erivaldo Santis a prestação de serviços advocatícios à comunidade carente do município, sem a cobrança de honorários, pelo prazo de dois anos, com o mínimo de dez ações processuais por ano, além de multa.
O crime do réu: ter deixado de devolver ao fórum os autos de um processo que retirou na secretaria judicial, prejudicando o direito do Estado de punir e da vítima de obter indenização. O condenado deverá ainda pagar R$ 50 mil à pessoa prejudicada por sua conduta.
Erivaldo Santis não é o único advogado a fazer isso.
Não foi o primeiro.
E nem será.
É claro que a sentença é corretiva.
É claro que a propositura da denúncia pelo MP é corretíssima.
Mas é preciso que se haja com mais rigor.
Porque há advogados – e não são raros, não – que são useiros e vezeiros em fazer isso.
Os juízes que os digam.
E as partes prejudicadas, idem.