Sexta-feira, Abril 30, 2010

Notícias do Caminho - de Hontanas a Boadilla del Camino

30 de abril de 2010, sexta-feira. Já passamos da metade do Caminho de Santiago.


Acordo cedo, estiro os músculos e vou ao minúsculo bar-supermercado Asun, anexo do albergue privado que ocupa um casarao imenso que vai da igreja até a esquina. Cuida dele um cubano de La Habana, com inconfundível sotaque habanero, cheio de gingas, compadres, putamadres e coños. O dono do albergue e do bar-supermercado é um antigo peregrino que resolveu investir 350 mil euros para atender os caminhantes. Meu compadre diz que a ordem aqui é satisfazer os peregrinos para que todos se sintam bem. Passo no anexo do albergue municipal para deixar bananas - uma raçao diaria ajuda a repor o potássio perdido - e acertar a partida e o reencontro em Boadilla del Camino. Uma lua cheia se espreme entre nuvens e dois casaroes. A luz já dá para caminhar com segurança, mas aqui nao tem o que errar. Atravessamos o rio e caminhamos pela estradinha de terra margenando-o em meio a trigais. Logo passo pelas ruinas de San Miguel, quase um obelisco. O sol nasce meio escondido entre nuvens escuras. Os moinhos de vento giram lentamente e nao parecem brancos. O Caminho agora coincide com uma estradinha asfaltada, entre choupos e trigais, que me leva diretamente às ruínas do Convento de Santo Antón. A estradinha passa pelas arcadas. Este convento fez fama no Século XI porque os antonianos tinham fama de cuidar do fuego de San Antón, uma doença parecida com a hanseníase. E também porque cuidavam bem dos peregrinos. Hoje funciona aqui um albergue. Antes das oito da manha já estou a caminho de Castrojériz.
Caminho entre trigais e logo chegou a Castrojériz.
Entro no bar de Toñi, amigo de Guy Veloso que já esteve em Belém. Ele me serve a melhor tortilla do Caminho. Mostra um livro de peregrinos brasileiros onde isso é dito. Concordo. Oferece-me queijo de ovelha curado com azeite espanhol de verdade. Quase verde. Nada parecido com os que compramos no Brasil. Faço uma foto com ele na frente do bar e me marcho para Boadilla. Uma dura caminhada até o Alto de Mostelares mostra para nós, homens, nosso verdadeiro tamanho diante da natureza.
Desço em direçao a Boadilla del Camino. No caminho avisto peregrinos ao longe. Em um alto encontro um grupo nutrido de peregrinos e um ônibus que parece esperá-los. E uma raridade: duas monjas peregrinando. Outra raridade: uma mae peregrina com o filhinho em um carrinho de bebe. Anda rápido. Fotografo a Puente Fitero. Ela fala rapidamente com os passageiros de um automóvel, atravessa ponte e para na área de descando. Caminho até Itero de la Vega, onde estiro os músculos e aperto o passo mara Boadilla.
Antes de uma e meia da tarde estou no fantástico albergue de Dudu Merino, ontro amigo de Guy Veloso. Ele lembrou de mim e de Araceli. Sem maiores perguntas levou-me ao alojamento, onde guardei camas para meus amigos e me instalei. Almocei enquanto a mae de Dudu cuidava de minhas roupas. A credencial foi selada depois.
Agora estou esperando meus amigos e reprogramando as etapas, pois temos que chegar a Santiago dia 15 de maio de 2010.
Vai dar.

Quinta-feira, Abril 29, 2010

Notícias do Caminho - de Burgos a Hontanas

29 de abril de 2010, quinta-feira. Lá se vao quinze dias caminhando dos Pirineus ao Atlântico, primeiro em direçao ao Sul e logo em direçao ao Oeste, mais ou menos o caminho da Via Láctea.
Cedinho abandonamos o excelente albergue de Burgos, que ano passado recebeu 27 mil peregrinos e este ano deverá receber mais de 30 mil. A silhueta da catedral com suas ponteagudas torres góticas se destaca contra um céu nublado. Nao teremos uma alvorada como a de ontem. Saimos devagarinho, passamos pela porta do Hospital del Rey e pela Universidade. No caminho uma escultura de bronze é homenagem aos peregrinos. Logo atravessamos o rio Alarzon e vamos encontrando peregrinos e caminhantes. Um casal de peregrinos italianos passa correndo. Suponho que terminam etapa aqui, como fizeram muitos europeus, que percorrem o Caminho em muitas etapas. A portuguesa Olinda e seus amigos franceses terminaram etapa aqui também.
Agora, depois de passar pela rotatória de Villalbilla, estamos imersos nas planuras sem fim da meseta burgalesa, percorrendo caminhos de terra entre trigais e desviando de rodovias e ferrovias. Um desses desvio nos leva para baixo de uma ponte que é na verdade um viaduto sobre o Alarzon. Logo tem um túnel. No pilar um pedido de desculpas aos peregrinos pelo desvio que agora fazem para transpor outra vez o rio. É a segunda vez que vejo este pedido de desculpas, que agora consta de alguns guias.
Antes das nove da manha estou em Tardajos. Na entrada da cidadezinha, uma cruz de pedra. Aperto os passos e logo venço um pequeno alto. Agora estou em Rabé de Las Calzadas, onde se uniam duas antigas vias (calzadas) romanas. Paro no bar La Pena, do José Maria. O bar é novo, nao existia em 2007. Meu xará distribuiu ano passao 4.500 medalhinhas de Nossa Senhora das Graças, a Santa protetora de minha mae e de meu pai. Agora é mais conhecida como a Virgem da Medalha Milagrosa. Ganho uma medalinha que amarro na concha que me deu Pablito de Las Varas, em Ázqueta. Conversamos e recebo informaçoes que agora Hontanas está bem servida com um albergue municipal e mais dois privados. Neste trecho do Caminho tem uma prova da sua vitalidade cultural, um museu privado. Agora vou baixando suavemente entre trigais perto das dez da manha estou em Hornillos del Camino, onde já estao outros peregrinos. Descanso um pouco e estiro os músculos. Por telefone aviso meus amigos que vou partir para Hontanas onde chegarei em duas horas mais ou menos.
O Caminho continua pela meseta e seus trigais. De uma visada parece que também foram plantados moinhos de vento, estranhamente parados. Estas turbinas eólicas - a fábrica delas é em Ponferrada - nos acompanham sempre e a cada vez que vejo uma delas fico sem entender como o Brasil ainda nao incluiu a energia eólica na sua matriz energética. Em 2007 caminhamos - eu e Araceli - horas por aqui, esperando por San Bol, que nao chegava nunca. Agora o albergue está mais notório e, dizem, melhor. Logo depois de uma quebrada vejo o alberque. Parece que melhorou mesmo. Mas para quem passa na estrada ele continua escondido na beira do arroio. Agora é mais uma esticada entre trigais e chegarei em Hontanas, que aparece bruscamente, em um pequeno alto onde o Caminho faz uma curva.
É mesmo impressionante como o Caminho revitalizou esta cidadezinha. O albergue municipal fica no antigo hospital de peregrinos de San Juan. Quando cheguei - fui o segundo a chegar - a hospitalera nao estava e havia deixado um aviso para alojar-se e aguardá-la, como é a regra em alguns albergues. Já estava bem alojado quando ela chegou e me atendeu com a reconfortante calma das hospitaleras e hospitaleros do Caminho.
Vou almoçar no El Puntido, mistura de bar, restaurante, albergue e hostal onde fiquei em 2007. O menu do peregrino é lentilha, carne guisada, pao, vinho, água e arroz com leite (arroz doce). O vinho nao vem em uma garrafa qualquer, mas em uma que parece uma galheta, daquelas que se usa nas missas. Faz sentido, pois com o apetite de peregrino é o caso de se comer rezando.
Os peregrinos vao chegando, o albergue e a cidadezinha vai ficando alvoroçada.
A Internet é disputada e um tanto quanto precária.
Agora vou aproveitar o que resta de sol para aguardar meus amigos que caminham em um ritmo próprio.

Quarta-feira, Abril 28, 2010

Notícias do Caminho - de San Juan de Ortega a Burgos

Quarta-feira, 28 de abril de 2010. Cedinho estamos todos prontos para iniciar a caminhada de quase 28 km até Burgos. Nas máquinas que vendem tudo dá para tirar um paozinho e um capuccino. Na fonte em frente ao monastério abasteço o cantil. Ainda está escuro, mas já dá para ver as setas amarelas. Optamos todos por caminhar pelas trilhas e o mais longe possível da rodovia, que já ruge à distância. Logo passamos por Agés e nas nossas costas uma alvorada fantástica tinge o céu de vermelho e dourado. As gotículas douradas de orvalho continuam marcando o prolongamento de minha sombra no trigal. Logo passamos por Atapuerca, onde passei a noite em 2007 com Araceli. Por aqui passaram nossos antepassados ibéricos. Aqui foi encontrado o Hombre de Atapuerca, de quem descendemos todos nós que temos ascendência ibérica. Agora o lugar está melhor ainda. As ovelhas que encontrei no pasto agora estao no curral, vigiadas por dois imensos caes pastores. Um restaurante novo tem nome apropriado Comosapiens. A subida até o alto continua difícil, mas agora pele menos tenho como me orientar direito. Em 2007 tinha que ficar catando as setas. No alto a cruz de madeira tornou-se um similar da Cruz de Fierro, com milladoiros que terminarao por se tornar uma pequena lixeira de ex-votos. E logo uma vista maravilhosa com Burgos ao fundo. É para lá que vou.
Chego rápido a Cardeñuela-Riopico e como o bar está lotado de peregrinos dou uma esticada a Orbaneja, onde uma senhora se vira para atender a leva de peregrinos. A tortilla está quentinha e ela me explica com muito gosto a receita: frita a batata e a cebola em uma frigideira, com azeite de oliva (isso faz toda a diferença). Em outra frigideira, frita meia dúzia de ovos batidos (em azeito de oliva, por supuesto). Quando estiver no ponto, passa as batatas e as cebolas para esta segunda frigideira. Fora esses ingredientes, apenas o sal e a tradiçao imemorial deste prato simples, substancioso e inesquecível. Um café com leite e uma banana (para repor o potássio) me garantem a pernada até Burgos.
Opto pela trilha que leva a Castañares, costeando o alambrado do aeroporto de Burgos, que estava sem movimento algum. De repente, uma sequência de cinco ou seis avioes aterrisam, passando sobre nossas cabeças. Uma nuvem que presumo seja de poluiçao cobre Burgos. Nao é agradável esta chegada a Burgos. Mas em 2007 foi pior, pois caminhei entre escombros. O barulho da rodovia, do aeroporto e da cidade desagradam os ouvidos sensíveis dos peregrinos. Antes do meio-dia estou caminhando pelas ruas de Burgos, rumo ao alberque municipal, que fica atrás da belíssima catedral. Em 2007 preferi ficar no albergue Santiago y Santa Catalina, mas agora vou para o municipal esperar meus amigos.
O albergue foi reinaugurado em 2008, com recursos públicos e privados. É quase um hotel três estrelas. Três voluntários - dois de idade e um jovem - atendem os peregrinos. O donativo é de escassos 3 euros. Me acomodo já na rotina e divido a máquina de secar com Isabel (uma catala de Barcelona) e um casal espanhol. Saio rapidamente para recarregar o celular e volto para recuperar a roupa seca.
Volto à rua para almoçar na Taverna del Tenorio, na entrada da rua, para que possa ver meus amigos chegarem. A pedida foi um puchero de mejillones e uma perdiz escabechada, com pao e vinho tinto (PradoRey Roble 2008, um Denominaçao de Origem Controlada da Ribera del Duero (em Portugal é o nosso conhecido Douro, que produz bons vinhos dos dois lados da fronteira). A conta é salgada (36 euros com gorjeta), mas vale a pena. Mas a verdade é que o menu del peregrino custaria um terço disso e seria também satisfatório. E esta é outra liçao do Caminho: para comer bem basta acertar a mao em um bom menu do peregrino, e deixar que cada lugar faça sua própria escolha. Os menus sao as coisas de cada lugar e essa gastronomia do Caminho está cada vez mais importante também.
Agora estou no albergue esperando meus amigos e deles vou tendo notícias. Sei que agora estao a uma hora daqui.
Vou esperá-los para dar-lhes boas vindas, ajudar na acolhida depois desta dura etapa e sair para visitar a catedral, que é sempre muito impressionante, pelo seu belíssimo gótico de Juan de Colonia e seu filho Simon. Ela é do Século XIII, quase trezentos anos antes do descobrimento do Brasil.
Aqui é a terra de Rodrigo Diaz de Vivar, que nós conhecemos mais como Cid, El Campeador.
É uma das maiores cidades do Caminho. E das mais encantadoras, pois estreitamente vinculada a ele.

Notícias do Caminho - de Belorado a San Juan de Ortega

Terça-feira, 27 de abril de 2010. Antes das sete da manha o café comunitário no refeitório multinacional do albergue Cuatro Cantones tem a animaçao e a algaravia de sempre. Todas as línguas sao faladas e todas sao compreendidas, mesmo por monoglotas. Um fenômeno. Pouco a pouco os peregrinos vao dando o último gole de café e logo o toc-toc dos cajados se faz ouvir na rua medieval que estrutura a cidadezinha desde tempos antigos, muito antigos. Faz frio, o que é bom para caminhar. Agora cada um tem seu ritmo. Eu preciso caminhar rápido, pois sinto frio e tenho que me aquecer logo. Preciso produzir endorfinas que garantem a alegria do Caminho. Cada um com sua adiçao. A minha é essa. A de minha amiga ainda é a nicotina. Passamos pelo rio Tirón e nos internamos nas planuras de Castilla, com seus trigais verdes. Outra vez as gotículas de orvalho na pontinha das folhas de trigo e de feno acompanham minha comprida sombra, fazendo um prolongamento suavemente dourado neste oceano verde ondulado a perder de vista. Uma hora mais ou menos de caminhada e passo por Tosantos. O albergue é uma casona antiga com dois canteiros de tulipas vermelhas de cada lado da porta. Quase dois quilômetros mais adiante passo por Villambistia e a manha vai chegando perto de nove horas, encurtando minha sombra, ora na frente, ora no lado esquerdo, mas sempre apontando como uma bússula para o Oeste. A subida é suave, imperceptível. Antes de Espinosa del Camino topo com as ruínas do monastério de San Felices, na beira da estrada de terra, no meio de um trigal. No meio da encosta está Villafranca Montes de Oca, cuja história se confunde com a do Caminho e das lutas contra os mouros (no último quartel do Século XI, quatrocentos anos antes de Colombo chegar ao Caribe e Cabral ao Brasil). Guias medievais já citavam este lugar. Mas o que me lembro bem mesmo é do restauralte El Pájaro, um reduto de caminhoneiros justo no cruzamento que o imenso cartaz diz que é um lugar de muitos acidentes. Eu e Araceli paramos aqui em 2007, em uma manha cinzenta e fria, ameaçando chuva. Os mesmos atendentes, o mesmo café com leite, a mesma tortilla. Recompostas as forças, encaro a encosta que vai me levar ao Alto de La Pedraja, cerca de 1.150 m acima do nível do mar. Do lado esquerdo da trilha oferendas florais indicam que ali tombou um peregrino. Como os soldados, desconhecido. Lá no alto, no meio do pinhal, um monumento aos caídos de 1936. Um simples menir de granito, com uma pomba estilizada e o ano de 1936 em aço inoxidável. Lembro da luta de agora, entre o juiz Baltasar Garzón e os franquistas. As cicatrizes do fascismo franquista nao fecharao tao cedo nesta Espanha feita de uniao e divisao. Agora tenho doze quilômetros no meio de pinhais até chegar a San Juan de Ortega, por onde passei direto em 2007, com tempo apenas para um a foto e um dedo de prosa com o hospitalero brasileiro que curava angústias existenciais nessa atividade.

Estou caminhando há muito tempo ouvindo barulho de motosserra, da autopista e de um trator ao longe. Encontro, no mesmo lugar de 2007, um grupo de peregrinos franceses. Com crachás e lenços. O destino, agora sei, é o monastério.

De repente, emoldurado por dois pinheiros e um trigal, aparece o monastério. Este é meu destino hoje.

San Juan de Ortega nasceu aqui perto. Ele ajudou Santo Domingo de La Calzada a construir estradas (calzadas), pontes, igrejas e hospitais para peregrinos. Quando morreu em 1163 foi enterrado aqui, justo no lugar para onde ele se recolhera depois de peregrinar a Terra Santa. Ficou anos aqui acolhendo peregrinos. Trezentos anos depois a rainha Izabel, a Católica, peregrinou por aqui, em busca da fertilidade perdida (San Juan tinha boa fama nesse tema). Parece que deu certo, pois a raínha, agradecida, mandou construir este monastério fantástico, ampliando a igreja românica que hoje é monumento nacional e destino de peregrinos e visitantes. Hoje, por exemplo, estao por aqui os peregrinos franceses, um grupo que chegou de ônibus e outro grupo de estudantes. O albergue ainda está fechado. Ao lado do banco, tomando sol, uma mochila deixada pelo transportador. Coloco a minha bem do lado. E constado que o Caminho tem outra ética, que permite essas confianças. Sabemos todos que ninguém tocará nessas mochilas, a nao ser o próprio dono ou o hospitalero quando abrir o albergue. Encontro alegre e feliz Alexandre Bitar, o peregrino brasileiro que com nossos amigos portugueses seguem para Atapuerca. Na taverna da Marcela a pedida é a morcella de Burgos com salada e o vinho El Castilejo. Como este lugar melhorou. Tem até Internet (para azar meu, a barraquinha estava fechada). Nas quadro mesas da taverna a babel de sempre. Ciclistas alemaes consultam o guia próprios dessa tribo.

O albergue agora está aberto. O hospitalero voluntário é espanhol. Deixo as botas embaixo do banco corrido e vou para o monastério, que agora é o albergue. O clima é acolhedor e o espírito do padre José Maria preside este lugar. Em 2007 ele ainda estava vivo. Agora, uma emocionante carta de um peregrino japonês nos diz que seu legado é para sempre. Ele servia uma sopa de alho que fazia a fama deste lugar. Seus sucessores continuam servindo a mesma sopa. O albergue agora é administrado pela Fundaçao DIPER (Dignidad de la Persona). Tem calefaçao e água quente. Nao tem lavadora e secadora. Mas tenho tempo para lavar roupa na mao mesmo e secar ao sol no patio central do monastério. Bem no centro um vaso com hortênsias.

Agora posso visitar com calma a Igreja. Aqui tem duas jóias da arquitetura religiosa. A primeira é o mausoléu do santo, talhado em pedra. Gótico isabelino de uma delicadeza que me lembra a Sainte Chapelle. Outra jóia é uma descoberta recente: nos equinócios um raio de sol entra pela janela e ilumina o capitel onde uma talha em pedra representa a anunciaçao. É fenômenos que atrai cada vez mais interessados em arte. O dia claro faz deste lugar, perdido nestes ermos, algo mágico, que transcende ao religioso. E pensar que tudo isto já estava aqui anos antes do tal descobrimento do Brasil. É este um lugar para terminar uma etapa.

No final da tarde chegam meus amigos, bem a tempo de assistirem a missa dos peregrinos.

Depois da missa, a sopa de alho que alimenta o corpo e, sobretudo, o espírito. Outro hospitalero, francês de Montpellier, dá as boas vindas aos peregrinos de seis nacionalidades ou mais. Um senhor vestido de negro, barbas brancas, parecido com um rabino, vem tomar a sopa conosco e trazer o saco com os alhos da sopa do dia seguinte. É um ritual de comunhao, quase um sacramento. Cada um lava sua tijela e vamos completar o jantar com um prato de aspargos com vinagre e azeite de oliva na taverna da Marcela. Nas mesas apertadas a babel de sempre. Na nossa dois brasileiros, um empresário canadense e uma sueca.
Enquanto a noite chega conversamos, brasileiros e um casal amigo (um catalao de Barcelona e uma italiana).
Antes das dez da noite, segundo as regras do monastério, estamos todos dormindo o sono dos justos.
Sob as bençaos do padre e do Santo.

Segunda-feira, Abril 26, 2010

Notícias do Caminho - de Santo Domingo de La Calzada a Belorado

A segunda-feira, 26 de abril de 2010, amanhece em Santo Domingo de La Calzada com cara de domingo.
O albergue novo - tinindo de novo, diriam os antigos - vai se agitando e logo mochilas estao prontas. Na cozinha multinacional todos compartilham o café da manha com o que foi comprado na véspera ou nas máquinas. As máquinas vendem tudo.
Pouco depois das sete ponho o pé no Caminho, marcando encontro com meus amigos em Belorado.
Atravesso Santo Domingo de La Calçada pela mesma rua empedrada que o Santo traçou e milhares de peregrino palmilharam. A batida cadenciada dos cajados tem efeito quase hipnótico. Atravesso a ponte construída pelo Santo, que merecidamente é o padroeiro dos engenheiros. Metade dela foi feita por ele, outra metade por engenheiros modernos. A ermida é mais nova. A primitiva enchentes levaram.
Os vinhedos da Rioja vao sendo pouco a pouco substituídos pelos trigais. As gotas de orvalho na ponta das folhas do verde trigo acompanham minha sombra. A belìssima paisagem da manha muda a cada passo. Caminhar subverte a lógica do homem automobilizado. O homem de quatro rodas precisa parar para ver uma paisagem linda como esta. Um caminhante, um peregrino, caminha contemplando uma paisagem mutante, mutante a cada passo. A sombra encurta devagarinho. No céu azul avioes deixam rastros brancos.
Antes das nove da manha passo por Grañon e como as padarias ainda nao estao abertas passo direto, sem oportunidade de experimentar os bollos de Grañón (tortas de manteiga), madalenas e españolas (umas bolachinhas típicas do lugar).
Mais ou menos nove e meia da manha, em um alto, um imenso painel marca a divisa de Rioja. Agora vou ingressar em terras de Castilla y Leon. Um passo e estou nos domínios de Burgos, deixando Rioja e seus vinhos para trás. Minutos depois estou em Redecilla del Camino. Agora todas as cidadezinhas tem um mapa na entrada e uma área de acolhimento, com fontes e bancos. Os bares já estao abertos, mas resolvo continuar caminhando. A paisagem continua deslumbrante. Trigais verdes a perder de vista e, de repente, no meio deles, desponta a torre de uma igreja e o casario de um burgo medieval, que despertou da letargia graças ao Caminho e aos peregrinos. Hoje avisto de quinze a vinte peregrinos em cada olhada para diante a para trás. Alguns já identifico à distância.
Logo estou em Castildelgado e algum tempo depois entro em Viloria de Rioja, berço de Santo Domingo de La Calzada. O lugar está sendo revitalizado graças aos esforços de um brasileiro, Acácio - de família paraense, Castro Mota - e de uma italiana, sua esposa Orietta. É cedo, mas faço tilintar a campainha e ele, pessoalmente, vem me receber. Gentilmente diz que o albergue ainda está fechado, mas em seguida, ao saber que sou brasileiro, acolhe-me com um generoso abraço. Enquanto eu alongo vamos conversando. Ele lembra de Guy Veloso, o fotógrafo paraense (filho de Zeno Veloso) que participou de uma exposiçao fotografica recentemente sobre o Caminho, em Sao Paulo. Ele me diz que a casa onde agora vive tem 250 anos. O telhado foi refeito ano passado. Um bom investimento. Orietta aparece e logo se despede, pois tem que ir de carro cuidar de seus afazeres. Despeço-me de Acacio com um forte abraço e continuo rumo a Villamayor del Rio, onde chego por volta de onze e meia.
Por volta do meio-dia estou nos arredores de Belorado. O Caminho deu um sopro de vida a Belorado. Na entrada, um hotel, albergue e restauranta dá as boas-vindas com suas bandeiras de diversos países.
Logo estou na frente do albergue paroquial. No campanário da Igreja as mesmas cegonhas de três anos atrás já estao com os ninhos prontos e em plena atividade. A cidade está em obras e o Caminho está cheio de desvios. O alberque Cuatro Cantones ainda está fechado e vou para a Plaza Mayor aguardar que ele abra. Hoje é dia de feira na Plaza Mayor. Espero o restaurante Bulevar abrir. Já conheço de 2007. No bar sou atendido por uma portuguesa. O menu do peregrino é alubias con chorizo, lomo adobado con pimientos y patatas, pao, vinho (Robledo, fraquinho, com rolha reaproveitada de um Rioja com Denominaçao de Origen Calificada) e arroz con leche. De bom mesmo, só as alubias e o arroz con leche. Onze euros com a gorjeta. Nao vale e nao recomendo.
Volto para o albergue onde tenho a alegria de encontrar Alexandre Bitar, um peregrino brasileiro que fez uma lista dos peregrinos para o grupo do Yahoo (Caminho de Santiago). Ele está encangalhado com dois portugueses que seguem uma planilha feita pelo Manoel Brasília e caminham com boa velocidade. Ele está acompanhando o blog, pela lista.
Dou uma voltinha pela cidade, que está em plena siesta (no Caminho tem disso). Depois das cinco da tarde o comércio reabre. A Plaza Mayor está sendo limpa, agora que a feira terminou.
Volto para o albergue onde acabam de chegar meus amigos.
Bienvenidos.

Domingo, Abril 25, 2010

Noticias do Caminho - de Nájera a Santo Domingo de La Calzada

Este domingo, 25 de abril de 2010, promete.
Ao escovar os desntes reencontro Fred, o peregrino checo. Acordo meus amigos no Hotel San Fernando. Divido o café da manha com Olinda e vou para o hotel. Ajudo minha amiga a despachar sua mochila para Santo Domingo de La Calzada.
Resiliente, ajusto minha caminhada de hoje. Vou direto para Santo Domingo e aguardo meus amigos lá. É um esforço para incentivar minha amiga que caminhou dois quilômetros por hora ontem.
Saio de Nájera margeado o Najerilla e atravessando o casco histórico. Reencontro Jan, o golden retriever, que acompanha fielmente seu dono. Eles passaram a noite em um camping, pois sao raros os albergues que aceitam animais (cavalos e burros, quase sempre). O dia está lindo. Sol. Céu azul. Temperatura amena. Meu destino inicial é Azofra, onde chego atravessando verdes trigais e vinhedos sem fim. Em um deles uma solitária picota - algo como um pelourinho - mostra o poder que já existiu nestas terras. As flores amarelas margeiam a estrada de cascalho por muitos quilômetros. Os peregrinos sao pontinhos que se movem na trilha que se perde no infinito. Consigo idenfificar os grupos agora já conhecidos: espanhóis, alemaes, italianos e Jan com seu dono madrilenho. Passo logo por Azofra e em seguida estou em Rioja Alta, um campo de golf que três anos atrás estava em construçao e agora é um símbolo da borbuja inmobiliária espanhola. Três anos atrás havia um frenesi de construçoes aqui. Agora encontro alguns aficcionados no campo de golfe, o restaurante e o supermercado com poucos frequentadores - alguns peregrinos - e muitas casas desocupadas. A crise espanhola é visível. Logo passo por Cirueña, em meio a trigais e cultivos de colza, já com as flores de um amarelo intenso que faz uma bela e inesquecível paisagem dominical. Estamos passando aqui no dia certo e na hora certa. Nos céu azul os avioes deixam rastros brancos. Uma cruz no caminho lembra um peregrino de Málaga que morreu no Caminho.
Em uma quebrada, no meio de um trigal, bem na linha do horizonte, aparece Santo Domingo de La Calzada e nela destacada a impressionante torre da catedral. Os peregrinos estao adiante e atrás, todos com vontade de chegar nesta emblemática cidade. Jan passa por mim calmamente, acompanhando seu dono. Logo estou na Calle Mayor e no albergue.
O albergue - Casa da Cofradia - foi refeito em duas casas ao lado do antigo. Está simplesmente excelente. Os hospitaleros sao alemaes. Guardo as botas e o cajado e confirmo a chegada da mochila de minha amiga. A da portuguesa Olinda também chegou. Aviso minha amiga por telefone. Ela resolveu assistir a missa em Azofra. Pior para ela, pois perdeu a primeira comunhao das crianças na Catedral. O burburinho mistura meninas vestidas de branco imaculado, meninos de ternos brancos e uniformes de marinheiro, pais, maes, avós e tios de terno e com as melhores roupas. O céu azul emoldura uma catedral belíssima. O Parador de 1928 está como sempre esteve. Charmosíssimo.
Resolvo almoçar no Los Arcos, o mesmo onde estive em 2007. Me atende Fred, o equatoriano que me atendeu três anos atrás. A pedida nao poderia ser melhor: chaparrones rojos a riojana, chuletitas de cordero, pao, vinho tinto (o mesmo Senorio de Unuela, mas da safra de 2008, que fez bonito), a 13 euros, gorjeja incluída.
Volto para o albergue para cuidar de lavar as roupas - tem máquinas bem na frente - e aguardar meus amigos, que chegaram cinco e meia da tarde.
Uma bela tarde de domingo em Santo Domingo de La Calzada, onde o galo cantou depois de assado (já contei essa estória três anos atrás aqui mesmo).
Um belo domingo no Caminho.


Notícias do Caminho - de Logroño a Nájera

- Para que no tragues polvo!
Esta frase, gritada por um jipeiro que cruzou comigo hoje - 24 de abril de 2010, sábado - entre Logroño e Nájera resume o espírito que une os que fazem o Caminho, a pé, de bicicleta, a cavalo ou de jipe. Os jovens jipeiros - sábado e domingo é dia de cruzar com jipeiros e ciclistas no Caminho - reduziram a velocidade ao mínimo antes de cruzarem comigo e responderam a minha saudaçao com esse grito: Para que nao comas poeira!
Lembrarei disso para sempre. Um gesto de delicadeza inesperado para quem está acostumado a rudeza do trânsito urbano, que nao dispensa uma espargida de lama empoçada em dia de chuva. E como chove em Belém. Mas no Caminho tudo muda. O mundo visto a pé é outro mundo. Outra sensibilidade. Agradecerei a esses dois jovens jipeiros para o resto de minha vida o gesto de fidalguia e de polidez. Polidez, relembremos, é a virtude primeira, pela qual chegamos às outras.
Saímos de Logroño por volta de sete da manha. A vela ponte de pedra refletida no rio fazia uma agradável e inesquicível simetria. Lembrei de Puente La Reina. Passamos em frente al albergue e logo pela fonte de peregrinos. As ruas estao sendo lavadas (isso mesmo, lavadas). Atravessamos a cidade inteira e ingressamos no seu belo parque, qeu tem seu ponto culminante no Alto da Grajera (550 m sobre o nível do mar), uma represa onde já encontro pescadores. É a segunda vez que passo aqui e ainda nao consegui ver nenhum deles com um peixe no anzol. Combinei com meus amigos aguardá-los em Navarrete. Um bondoso senhor me acompanha por alguns minutos e me orienta detalhadamente, entre uma baforada e outra do charuto matutino. No final da represa encontro patos selvagens, lindos e nem tao ariscos assim. Os vinhedos da Rioja deixam claro que estamos em terra de bons vinhos.
Reencontro o touro negro que é a marca registrada do jerez Osborne. Araceli e eu nos lembramos sempre dele desde que passamos por aqui em 2007. No alambrado as cruzes feitas com pedaços de madeira estao como há três anos. Passa por mim Manfred, um checo que me acompanha trocando dedos de prosa daqui por diante e reclamando dos preços de Praga (ele vive nos arredores). Uma figura.
Os ateliês cerâmicos nos indicam que estamos chegando a Navarrete, famosa por suas cerâmicas. Reencontro os tinajones, iguais aos que existem até hoje nas províncias orientais de Cuba, e que no passado transportaram vinho e azeite de oliva da Espanha para a ilha. Na entrada de Navarrete encontro as fundaçoes do hospital de peregrinos de San Juan de Acre. Logo estou na cidadezinha e no bar Los Arcos aguardo meus amigos, que caminham devagar. Crianças em uma sacada lembram minhas netas. Atualizo o correio eletrônico e o blog. Nos reencontramos depois de uma da tarde. Caminham muito devagar. Confisco a carteira de cigarros de minha amiga e parto para Ventosa, oito quilômetros mais adiante. Uma escultura homenageia os ceramistas. Uma chaminé tem um ninho de cegonha, certamente o mesmo casal que encontrei em 2007 (cegonhas sao fiéis). Na saída de Navarrete a porta do cemitério é a porta do antigo hospital de peregrinos.
A meio caminho topo com a Cooperativa Vinícola de Sotés, cercada de vinhedos, a marca da paisagem nesta regiao. Em um túnel por baixo da rodovia palavras de ânimo. Aqui o Caminho obrigou as rodovias a construir túneis para os peregrinos, despertando a ira dos ambientalistas que nao aceitam esses arranjos. Antes das três da tarde chego a Ventosa e espero meus amigos. No Ayuntamiento uma pichaçao esculacha o Conselho Regulador local (aqui é terra de vinhos e o Conselho Regulardor decide quem tem ou deixa de ter denominaçao de origem controlada ou qualificada). Fico horas descansando em um albergue privado administrado por voluntárias alemas, com uma bela fonte de água fria na frente.
Cinco da tarde parto para Nájera onde vou esperar meus amigos. A idéia é reencontrá-los no albergue municipal.
Vinte minutos depois das seis passo por Alesón, três quilômetros antes de Nájera. Pouco depois das sete da noite - o sol ainda está alto nesta belíssima primavera - chegou às margens do Rio Najerilla. Com todo respeito, um igarapé. Mas que é respeitado pelos moradores da cidade, que cuidam bem dele. A tarde é belíssima e, como três anos passados, as pessoas estao esparramadas nas suas margens gramadas. Os bares estao lotados neste sábado e chego no albergue a tempo de encontrar cama. Mas a previsao é que meus amigos cheguem por volta de dez da noite e terao que ir para o Hotel San Fernando. Os hospitaleros sao alemaes. Este albergue de Nájera é dos que mais aprecio, pelo seu legítimo espírito jacobeo. A disciplina obriga-me a deixar o cajado e as botas no local apropriado. Arrumo a cama e tomo uma ducha fria (a quantidade de peregrinos faz a áqua quente acabar logo). Miguel (de Barcelona) e Olinda (de Portugal) já chegaram e perguntam por meus amigos. Por telefone oriento meus amigos a procurarem o Hotel San Fernando e vou para o asador El Buen Yantar, o preferido dos peregrinos, merecidamente. Reencontro os amigos que fui fazendo nestes últimos dias e que ainda encontrarei nos próximos. O menu do peregrino do asador é da melhor qualidade: pochas (favas) a la riojana, costilla de cordero a la brasa, pan, vino (Señorio de Uñuela 2009, Temparañillo, Denominación de Origen Calificada Rioja Alta) e tarta de San Marco. Sai por 9,50 euros, com a gorjeta. Valeu a pena. Por telefone meus amigos avisam que estao na entrada da cidade, mas é tarde demais para chegarem ao albergue e terao mesmo que ir ao hotel.
Caminho de volta para o albergue e, disciplinadamente, dez da noite estou no beliche, feliz da vida, para amanha cedo reencontrar os amigos e partir para Santo Domingo de La Calzada.

Sábado, Abril 24, 2010

notícias do Caminho - de Los Arcos a Logroño

Dia 23 de abril de 2010, sexta-feira, pouco depois das sete da manha deixamos Los Arcos, cidade que sempre me deixa boa impressao, pela Iglesia de Santa Maria e seu belo claustro, com sua impressionante torre renascentista. Agora tenho mais uma boa lembrança para levar: seu centro cultural, com biblioteca, internet e um jardim de esculturas modernas dialogando com a igreja do outro lado do rio. O jantar no La Gargantua também já é uma boa lembrança (salada ou lentilha de entrada, bacalhau a romana de prato principal, pao, vinho e água, por 12 euros, gorjeta incluída).
A quantidade de peregrinos que se avista sinaliza que o Ano Jacobeo começa a encher o Caminho. A caminho de Sansol contei mais de vinte só olhando rapidamente para diante e para trás. Em Sansol esperei meus amigos em um bar anunciado em um cartaz abaixo de uma marca registrada: Cafés Brasilia. O símbolo é uma mulata que lembra muito Carmen Miranda.
Menos de um quilômetro depois reencontro a Igreja do Santo Sepulcro de Torres del Rio, uma das minhas preferidas do Caminho. Passei aqui em 2007 com Araceli, que fez suas oraçoes matutinas nesta igrejinha octogonal inspirada no Templo de Jerusalém. Fico impressionado com o rendilhado de pedra das lanternas. Nesta igrejinha há o sincretismo do que tem de melhor na engenharia crista com o que há de melhor na engenharia muçulmana. O efeito é deslumbrante. Ela lembra muito a de Santa Maria de Eunate.
Partimos para Viana. No Caminho topo com um trator e uns quatro automóveis. Seus proprietários sao os trabalhadores de um vinhedo que está sendo preparado. Tem muitos vinhedos sendo renovados por aqui. E alguns já foram renovados, pois as parreiras estao fininhas. As parreiras erradicadas formam montes de lenha para o próximo inverno (dizem que é a melhor lenha para lareira). Nos bares estao servindo a safra de 2008, vinhos jovens e agradáveis.
Mas o que quero mesmo é chegar a Viana, a encantadora cidade de Cesar Bórgia. Na entrada encontro um peregrino madrilenho com seu golden retriever Jan, que peregrinam até Santiago. Jan carrega sua raçao em duas pequenas mochilas encangalhadas e nao faz feio. Seu dono inspeciona as patas dele e artem alegremente para Logroño.
Em 2007 passei aqui exatamente na semana em que se celebrava o quinto centenário da morte do fascinante César Bórgia, cardeal, príncipe, guerreiro, libertino e - se nao fosse pouco - filho de Papa (Alexandre VI). Um típico homem do Renascimento. Ele chegou aqui em 1506, fugindo da prisao em Nápoles. O estrépito de sua passagem por aqui - tao perto do Caminho e tao longe do Vaticano... - faz-se ouvir até hoje. Ele está sepultado na Iglesia de Santa Maria, em frente da qual fica o Ayuntamiento, um edifício barroco impressionante. Do quinto centenário de sua morte sobrou um cartaz em uma arcada na entrada do centro histórico. Cesar Bórgia é o personagem histórico mais conhecido de Viana e exemplo bem marcado dessa algaravia cultural que fez do Caminho de Santiago um Itinerário Cultural Europeu por excelência. Nesta cidade medieval cercada de conjuntos habitacionais modernos - a bolha imobiliária daqui nao era só de papel... - a vontade é ficar, mas prefiro passear e acompanhar um grupo de turistas com uma guia e seu megafone. Eles me olham com curiosidade e pedem para fazer fotos. Senhoras e senhores muito simpáticos que vao passar o dia zanzando por aqui e deixando seus euros nesta cidadezinha encantadora e com nome português. Temos muito, mas muito que aprender com os espanhóis em matéria de turismo, religioso inclusive.
Reencontro meus amigos na sidreria Armendáriz, onde resolvemos almoçar. Peço sortido de fritos, chuleta com batatas fritas, pao, vinho tinto (Homenaje, uma denominaçao de origem controlada da Navarra, feito com uvas Tempranillo e Cabernet Sauvignon da safra de 2008 que caiu bem) e pera cozida no vinho, a 12 euros, com gorjeta. Boa relaçao custo/beneficio. É final de dia e marcamos reencontro em Logroño, no albergue municipal.
No caminho vou encontrando cartazes convidando para uma manifestaçao de viticultores em Logroño (Queremos vivir de las uvas!). Saio de Viana por um dos novos conjuntos habitacionais de classe média. O Caminho agora está atapetado de painas que voam como se fossem flocos neve ou plumas de samaúma.
Por volta das seis da tarde cruzo a divisa de Navarra com Rioja e agora estou definitivamente na terra do bom vinho.
Decido nao seguir a variante pelo Observatório de Aves e apresso o passo na trilha que margeia a rodovia barulhenta - pelo menos para os sensíveis ouvidos de um peregrino - atravesso o distrito industrial e perto das sete da noite passo pela casa da Senhora Felisa, cuja filha continua carimbando credenciais e dando informaçoes aos peregrinos. Na frente da casa encontro uma talha sobre o Caminho do Sol, no Brasil. Encantadora Felisa, personagem emblemático do Caminho, que deixou de herança essa missao para sua filha. Logo entro em Logroño por um belo passeio ladeado de ciprestes. Atravesso a velha ponte de pedra quando o sol já se aproxima do horizonte e vou reencontrando os peregrinos. Chego no albergue municipal e os dois últimos lugares foram ocupados naquele instante. Solícita, a hospitalera me indica o albergue particular Puerta de Revellin, da Blanca, e me dá o mapa. Dez minutos mais de caminhada e chego ao albergue, instalado no térreo de um edifìcio novo, construído em torno da antiga Plaza de Toro - a nova, modernosa e coberta, multiuso, fica a esquerda de quem chega pela ponte - e é muito agradável e limpo (Plaza Martinez Flamarique, 4 bajo). Blanca me atende a pede que eu escolha logo as camas e depois volte para carimbar a credencial e pagar (10 euros), no melhor espírito destes albergues que batem com nosso santo. Aviso por telefone meus amigos e vou ao supermercado comprar o lanche e o café da manha seguinte.
Desta vez nao tive tempo de passear na cidade, que é a capital da regiao. Mas amanha cedo vou percorrer a Rua Vieja - onde fica o excelente albergue municipal - e rever a fonte barroca dos peregrinos. Por enquanto me contento em avistar as torres da Iglesia de Santa Maria del Palacio e da catedral de Santa Maria la Redonda.
Às dez e meia da noite Blanca apaga a luz e vamos dormir para amanha encarar o estirao de 30 km até Nájera, se as pernas de minha amiga aguentarem o tranco.

Quinta-feira, Abril 22, 2010

Notícias do Caminho - de Estella a Los Arcos

Acordamos cedo e nos arrumamos com a pressurosa calma dos peregrinos.
O café da manha é dado pelo albergue, no melhor espírito jacobeo. Uma pequena multidao lota a cozinha. Mas o temido excesso de peregrinos ainda nao deu as caras neste trecho do Caminho.
Caminhamos pela simpática Estella, de quem me despeço com a saudade de quem tem certeza de voltar um dia.
Loco passamos por Ayegui, dois quilômetros adiante.
Nos mantemos no Caminho que passa por Irache e logo aparece a bodega e o monastério. Desta vez a famoça Fuente del Vino tinha vinho mesmo e todos os peregrinos tomam um pouco, alguns levam garrafinhas e todos tomam fotos. Esta fonte é, com certeza, a mais famosa do Caminho. O monastério parece o Escorial e testemunha o poder da Igreja naqueles tempos medievais. Subimos suavemente com o Montejurra no horizonte, rumo a Ázqueta e seu morador mais famoso, Pablito de Las Varas. Reencontro as peregrinas paranaenses, que passam por nós, agora aliviadas do excesso de peso que despacharam pela Jacotrans para Logroño. Ajudo a ajustar a mochila de uma delas, que ainda nao está, digamos, afinada. Ela já começava a sentir incômodos e ficou aliviada. Marcamos para nos encontrar em Ázqueta, onde chegamos quase juntos. A casa de Pablito já tem peregrinos, em busca de carimbo e de cajados. Foi uma enorme emoçao para mim rever Pablito, de quem ganhei um cajado em 2007 e que está hoje na sala de visitas de minha casa em Belém. Nos abraçamos, nos apresentamos e ele nos mostra orgulhoso as bandeiras brasileiras e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida deixada por brasileiros. Depois das fotos ele nos leva para mostrar a árvore que parece um elefante e uma estela fúnebre que ele recolheu nos arredores. E começa a preparar os cajados de avelano - este ano o estoque dele é de varas finas - de acordo com a altura de cada um, lixando a empunhadora. Depois nos ensina a usar e ajusta nossas mochilas. Nos despedimos com alegria para enfrentar o Caminho até Los Arcos.
Os cajados de Pablito fazem o milagre de nao notarmos a forte subida até Villamayor de Monjardín, onde encontro meu amigo peregrino no albergue paroquial. A irma dele está um pouco atrás. Ele se adianta e marcamos para nos encontrar em Los Arcos. O alberque paroquial é atendido por duas voluntárias alemas, Marta e Elizabeth. Tomamos café com bolacha maria e deixamos donativos.
Na saída terminamos nos afastando do Caminho tradicional e pegando uma variante que nos leva a Urbiola, o que nos aumentou em um ou dois quilômetros o percurso. A prometida chuva começa fininha e vai engrossando, obrigando o uso de poncho. O caminho fica pesado e minha amiga peregrina tem dificuldades para caminhar. Os doze quilômetros até Los Arcos parecem nao acabar nunca. Adiantei-e e encontrei o irmao dela no primeiro albergue de Los Arcos, com os tickets do albergue municipal, por volta das três da tarde. Foram oito horas de caminhada para vencer apenas 20 km.
Nos alojamos e nao encontramos mais restaurantes abertos. Mas em compensaçao reencontro a tortilla que é uma das comidas que mais gosto do Caminho. Coisa simples e boa: batata, ovos e azeite de oliva. Um espetinho e um copo de vinho aplacam a fome até a hora do jantar, que vai ser aqui mesmo no La Gargantúa, na Calle Santa Maria, ao lado da Igreja.
Volto ao albergue e atualizo as mensagens.
Quando a biblioteca do Centro Cultural de Los Arcos abre, uso gratuitamente o computador para fazer este post. Peregrino tem preferência. Mas os jovens dominam as máquinas.
Nao é a toa que o Caminho de Santiago é Itinerário Cultural Europeu.

Notícias do Caminho de Santiago - de Puente La Reina a Estella

Dia 20 de abril de 2010 caiu em uma terça-feira, mas para mim foi feriado, pois fiquei o dia inteiro descansando em Puente La Reina e esperando meus amigos que finalmente chegaram, depois de pernoitarem em Zariquiegui e vencerem o Alto del Perdón.
No dia 21 de abril de 2010, quarta-feira, tomamos nosso café da manha cedinho na cozinha do albergue Jakue e caminhamos pela Calle Mayor e pela puente, que estava lindíssima, refletida nas águas do Rio Arga.
Subimos - agora estou em um ritmo suave, para acompanhar meus amigos - até perto de 500 m de altitude e a torrente de peregrinos faz a diferença da Rota Francesa nesta retomada até Mañeru, entre trigais verdes e vinhedos em rebrota. Os tufos de tomilho e romero (alecrim) começam a aparecer com mais frequência. Passam por nós duas crianças de quase dez anos, acompanhdas da mae e da avó, que estimo está perto ou passando dos setenta. Seguem animados todos. A mae veste uma camiseta do Rio de Janeiro, daquelas que vendem nas praias. Percebe que falamos português e pergunta de onde somos. Voltamos a cruzar com essa família mais umas duas ou três vezes. A presença de jovens e crianças no Caminho dao a certeza que ele vai continuar crescendo neste novo século.
No topo de um cerro divisamos Cirauqui, onde chegamos por volta de 10:00 h. Paramos no mesmo bar onde estive em 2007, El Portal, e experimentei o yogurte da regiao, o Señorio de Sarria, fabricado perto de Puente La Reina. Logo depois de Cirauqui caminhamos sobre trechos da milenar calzada (via) romana. Os engenheiros romanos continuam fazendo inveja aos nossos.
Sobre uma ponte medieval vencemos o Rio Salado, onde - segundo Aymeric Picaud - os navarros deixavam os peregrinos dar água aos animais para que eles morressem e fossem por eles (navarros) estripados. Picaud nao tinha os navarros em boa conta. Mas hoje em dia os navarros tratam os peregrinos muito bem. Era quase uma hora da tarde quando passamos por Lorca. Caminhamos até agora 13 km.
Quase 5 km mais adiante passamos por Villatuerta.
O frenesi de construçoes que encontrei três anos passados arrefeceu e agora muitas casas estao desabitadas e à venda. A bolha imobiliária daqui fez estragos nestas cidades. E um de seus principais personagens, Enrique Bañuelos, agora é candidato a milionário no... Brasil! Soube por aqui que ele comprou a Agre, associou-se com a Accor para construir cerca de 5.000 apartamentos de hoteis para atender as Olimpíadas, vai comprar Sauípe e investir pesado em hidrelétricas e créditos de carbono. Aqui na Espanha ele é, para dizer o mínimo, um personagem controvertido. Mas graças ao seu sucesso no Brasil ele já é um dos dez mais ricos da Espanha.
Mais quatro quilômetros de caminhada e nos aproximamos do Rio Ega e de Estella, uma das cidades mais encantadoras do Caminho. Gosto muito dela, inclusive porque lembra minha neta que tem o mesmo nome, sem o primeiro E.
Desta vez conseguimos ficar na instalaçao principal do albergue, que é muito bom e acolhedor.
Chegamos por volta de 5 h da tarde, com tempo ainda suficiente para fazer compras e jantar no Casanova (Calle Fray Wenceslao de Oñate, perto da Plaza de Los Fueros). O menu do dia nos ofereceu salada, sopa de cozido, coelho com champignons, pimentoes recheados, frutas, sorvete, pao, vinho e água (€25,00 para duas pessoas). Na mesa ao lado um casal coreano, que meus amigos conheceram em Roncesvalles.
No albergue os italianos e franceses, como sempre, haviam dominado a cozinha e faziam a festa de sempre, com suas saladas e massas.
Regressamos rapidamente para o albergue antes das dez da noite. Pelas regras da casa, quem chegar depois desse horário vai ficar do lado de fora.
Amanha partimos para Los Arcos e a meteorologia promete chuva.

Terça-feira, Abril 20, 2010

Notícias do Caminho de Santiago - de Izco a Puente La Reina

Acordo mais cedo ainda e me preparo para tomar o taxi, que chega na hora certa do dia 19 de abril de 2010, segunda-feira, ainda escuro. Jorge me deixa no ponto exato onde chegara na véspera e me indica a próxima seta. Uso pouco a lanterna, pois o dia já clareia. Agora vai ser uma sucessao de pequenas aldeias ao lado do Canal de Navarra e da rodovia que ruge a minha direita. Pamplona se vê ao longe. Uma imensa construçao parece uma indústria, mas pode ser também um presídio. Logo passo por Abinzano e estou de volta a Monreal. Preocupado, falo com uma moradora que afixava um cartaz no albergue e dela indago se tem o telefone atual do albergue de Zubiri. Nao tinha. Resolvi ligar para 112, o telefone de Emergencias. A atendente me acalma e diz para volta a ligar para o albergue mais tarde.
As cidadezinhas e os trigais vao se sucedendo e o contraste entre a grande cidade, o canal, a rodovia e as culturas atenuam a preocupaçao. Resolvo voltar a ligar para 112 e agora a atendente pede mais detalhes e promete dar um retorno. Continuo caminhar. Yarnoz, Otano, Ezperun, Gerendiain e Tiebas, onde paro para cuidar dos pés e apreciar a paisagem. Nestas horas estas cidades parecem fantasmas, pois nao encontramos quase ninguém. Em Tiebas é feriado, por alguma razao. Sem tempo para parar para comer, vou mastigando os sanduíches enquanto caminho. Recebo uma ligaçao da Emergência tranquilizando-me, pois nao há registro de desaparecidos no Caminho. Fico mais calmo e resolvo mandar mensagens para minha família. MInha esposa me telefona para dar notícias. Peço-lhe para obter notícias de meus amigos com a família deles.
Agora, depois de Muruarte de Reta, os lugares vao ficando mais perto uns dos outros: Olcoz, Enériz e Eunate. Na Igreja de Santa Maria de Eunate encontro uma excursao de jovens estudantes. Esta bela igreja românica do Século XII é surpreendente. Está intacta, no meio do campo. Junto dela tem um pequeno albergue. Recuso a gentil oferta de uma senhora a quem pergunto se a cidade adiante é Puente. Era Óbanos, onde passo por baixo de chuva. Os vinhedos estao sendo cuidados. Passo aí e logo avisto Puente La Reina, onde o Caminho me leva diretamente para a recepçao do albergue Jakue. Meus amigos nao chegaram, mas a recepcionista me diz com tranquilidade que eles chegarao. A afliçao agora é mínima. Este alberque é um dos melhores do Caminho. Me acomodo e logo recebo uma mensagem da minha esposa dando conta que está tudo bem com meus amigos. Agora, enfim, fico em paz.
O jantar no Jakue é um Menu do Peregrino diferente, porque é um buffet de saladas, uma entrada quente, um prato principal (escolhi atum), sobremesa (arroz doce), pao, vinho e água (11 euros). O vinho é Pago de Óbanos, uma denominaçao de origem controlada da cidade vizinha, que faz bonito.
Vou para a Internet atualizar estes posts e meus correios.
Agora posso dormir em paz.
No dia seguinte saio para visitar a cidade e fotografar com calma. Aproveito para encurtar minha calça com Juana (Plaza Luis Morondo, 3 - 1º B - tel. 948 34 02 27, em um conjunto habitacional três quadras a direita antes da ponte). Compro o lanche e volto para o Jakue.
Estou aqui na Internet quando meus amigos chegam, finalmente.
Nos abraçamos com a certeza de que agora nossos Caminhos seguem juntos.
Almoçamos na Sidreria Ilzarbe, ao lado do Jakue. A garçonete nos atende em português: é a baiana Sueli, que chegou aqui em 2007. Sua irma vive em Óbanos com o marido e cinco filhos, e vive de cuidar de um anciao. Suely caminhava todos os dias 2,2 km para vir trabalhar, mas agora tem seu próprio carro.
Todos os dias aprendemos liçoes no Caminho. A deste pedaço, com certeza, foi a necessidade de sermos resilientes, sempre, adaptando-nos constantemente.
Caminhei 110 km em três dias na esperança de reencontrar amigos. Nao sendo isso possível, descansei e agora vamos juntos amanha para Estella.
Nao somente para Estella, mas para Santiago.
Nao somente para Santiago, mas para Finisterre.
Nao somente para Finisterre, mas para a vida.
O Caminho nos ensina a viver.

Notícias do Caminho de Santiago - de Ruestas a Izco

Acordei mais cedo que o normal neste 18 de abril de 2010, um domingo que aqui é atemporal.

Para os Applemaníacos: o IPhone pode ser o melhor amigo de um peregrino. Serve para tudo, inclusive para telefonar. Graças a ele foi fácil reprogramar as etapas.

O café da manha estava na cozinha, como prometido. Basicamente, sanduíche e suco.

Alongo e saio ainda no escuro, com a lanterna me ajudando a encontrar as setas. Baixo pelo camping e logo ultrapasso um riacho que vai para a represa mais adiante.

De Ruesta até Undués de Lerda é um estirao de pouco mais de 11 km. Por volta de 8:20 h chego a um dos altos mais difíceis desta etapa. A paisagem paga o preço, que nao é tao alto assim. Pouco antes de Undués de Lerda, em uma baixada, topo com uns metros milagrosamente intactos de uma via (calzada) romana, que faz inveja aos nossos modernos empreiteiros (afinal, quantas das nossas rodovias sobreviverao mais de mil anos?).
Em Undués me oriento em mais um detalhado cartaz, semelhante ao que venho encontrando desde Somport. Esta parte do Caminho integra o Gran Recurrido (GR) e em alguns pontos há enlaces para Pequeños Recurridos, que formam o intrincado sistema de trilhas europeus. Neste trecho o Caminho é parte do grande circuito europeu que começa nos bosques da Boêmia, na República Chega, e terminam no Atlântico. Sábado e domingo é dia de encontrar ciclistas no Caminho. Um pouco depois chego ao limite com Navarra, que dá as boas vindas com um cartaz, um marco e as setas amarelas sobre fundo azul, além dos marcos com uma concha estilizada em azulejo e uma seta embaixo. A mesma seta que recebe os que fazem a Rota Francesa.
Perto de meio-dia chego a Sangüesa, que no domingo está mais ou menos parada. Tomo café e compro um pao na primeira cafeteria que encontro, depois de alongar. A cidade é encantadora e nao consigo dela sair no horário programado. Aqui sobrou um pedaço da porta romana. No bem cuidado centro histórico há algum movimento, com crianças e pessoas de idade frequentando as poucas coisas que estao abertas. Compro créditos para o celular Movistar e um sabonete líquido. Tento falar com meus amigos de Belém que estao na Rota Francesa e nao consigo. Mando uma mensagem e com muito esforço desgrudo da cidade, transpondo o Rio Irati por uma ponte metálica e caminhando em direçao a Rocaforte, uma aldeia encarapitada no topo de uma rocha em frente a uma malcheirosa papeleira. Logo depois encontro uma fonte que teria sido construída por Sao Francisco quando passou aqui e fundou o primeiro convento em Espanha.
Começam a aparecer os primeiros vinhedos, onde já se notam os primeiros brotos nas parreiras. Os trigais se sucedem. Topo com um bebedouro para animais - Fuente La Padul - uma tradiçao muito antiga do Caminho, e nele mergulho as maos para reduzir o inchaço. Estou caminhando sem cajado, pois quero receber um de Pablito de Las Varas, em Ázqueta, e por isso as maos estao inchando mais que o normal. Me perco e me reencontro, passo por baixo da rodovia e inicio a subida ao Alto de Aibar. Encontro mais uma fila de lagartas, maior ainda que as outras. O caminho agora passa por um pinhal imenso e, distraído, me perco. Ao perceber que estou perdido, quase no topo da montanha, quando já dava para ouvir o zumbido das turbinas eólicas, a sensaçao de perigo descarrega adrenalina e os passos de volta sao rápidos até reencontrar a seta perdida. No Caminho e na vida é assim mesmo: perdido, volte sempre a última seta e reencontre o Caminho.
Neste trecho o Caminho está mal sinalizado e pensei que outra vez estava perdido. Voltei, agora só para confirmar que estava no rumo certo. Agora caminho com o guia na mao, mas os sinais sao equivocos, pois foram feitas modificaçoes recentes pelo fazendeiro que cria vacas por aqui e ainda nao está sinalizado. Cansado, chego ao Alto e inicio a descida, sabendo que meu destino está na metade da encosta. O rugir da rodovia diz que estou no rumo certo e assim consigo chegar ao Alto de Loiti, a poucos quilômetros de Izco, que avisto à distância, aliviado, pois ainda é dia.
Encontrei outra fila de lagartas, de quase um metro. Felizmente, nao machuquei mais nenhuma delas.
Finalmente, chego a Izco e procuro pelo albergue. Encontro, mas está fechado. A dona só vai abrir a partir de segunda-feira. Havia no local uma reuniao de famílias, pais, filhos e netos. Hospitaleiros, tentam me ajudar, ligando para a hospitalera, que está para Pamplona. Um casal que vai para Pamplona se oferece para me levar a Monreal. Aceito e viajo com Raúl e Suzana e seu filhinho. Eles me deixam ao lado da Igreja de Monreal.
O albergue de Monreal tem um cartaz dizendo para empurrar a porta. Havia ligado para a hospitalera e confirmado que havia lugar. Havia uma mochila e na saída encontrei seu dono, um alemao - Fritz, por supuesto - que saíra para comprar o lanche na tienda. Um bilhede de um peregrino agradecido recomendava o Menu do Peregrino do Centro Paroquial. La encontro a hospitalera, que me serve um Aquarius e diz que posso tomar conta do pedaço. Prometo voltar em seguida para pagar e carimbar a credencial, o que faço depois de zanzar pela cidade em busta da tienda, onde compro provisoes (bananas, polvo a galega em conserva, pao, salsichao, suco de laranja e água) para o jantar, para o café da manha e para levar, pois no dia seguinte terei que regressar a Izco e caminhar mais 40 km até Puente La Reina. De volta ao Centro Paroquial - na verdade um bar muito animado naquele domingo - pago o albergue e pego o carimbo. Tomo banho, janto, preparo o desdejum do dia seguinte e cuido dos pés. Combino por telefone com Jorge, o taxista de Pamplona, para me apanhar 6:30 h e me levar de volta a Izco.
E começo a me preocupar com a falta de notícias dos amigos que estao na Rota Francesa. Ligo para os albergues de Zubiri e Pamplona e nao consigo falar. Pelo celular também nao.
Vou dormir com essa preocupaçao.

Notícias do Caminho de Santiago - de Arrés a Ruesta

O desjejum no albergue de Arrés no sábado, 17 de abril de 2010, reuniu os hospitaleros franceses Jorge e Jean, os irmaos zaragozanos Miguel e Luis, o inglês John, a dinamarquesa Jane e eu. Um pouco mais apressado saíra antes um peregrino que vi de relance. Jorge caprichava no cuidado com os peregrinos. A magia do lugar e os cuidados dos hospitaleros - eles sao da Federaçao espanhola - levou-me a aumentar o donativo, consciente que assim ajudo a manter este antigo hospital de peregrinos. Deixei uma mensagem no livro de peregrinos e despedi-me.

Como tenho o cuidado de alongar-me antes de iniciar a caminhada, fui o último a sair.

Mal iniciada a caminhada recebo uma chamada telefônica de minha amiga que cruzara na noite anterior os Pirineus vindo de Saint-Jean. Fiquei feliz, claro, mas preocupado com os riscos que correram o casal de irmaos e amigos. Claro que esse risco nao se deve correr nunca, mas eles correram e venceram e, agora, isso é o que importa. Acertamos para nos encontrar em Puente La Reina.

Mas fiquei tao preocupado que errei o caminho e tive que retornar para reencontrar a última seta. No Caminho - e na vida - sempre que ficamos sem indicaçoes segura devemos regressar até a última e retomar a rota certa. Poderia ter atalhado por um verde trigal, pois do alto avistava Jane caminhando pela estrada de terra, mas isso também nao é recomendável, pois se destrói as plantaçoes e as cercas. Caminho se faz pelo Caminho.

Diante da nova situaçao passei a cogitar de refazer meu planejamento para antecipar minha chegada a Puente La Reina. Planejava pernoitar em Artieda, mas resolvi chegar até Ruesta para adiantar 10 km.

Caminhava olhando para trás e vendo Arrés dissolver-se nas brumas matutinas até desaparecer completamente. Os trigais verdes convidam à solidao, à introspecçao. As flores amarelas da colza animam o caminhante e produzem um efeito de beleza indescritível, que nao se capta com fotografias, só com a retina.

O Caminho agora é uma suave subida até cruzar com as estradas para Martes e Mianos, que se avista ao longe.

Pouco antes de meio-dia estou em Artieda e agora sei que posso seguir adiante até Ruesta. Junto do cemitério encontro John descansando e planejando também caminhar até Ruesta. Já temos companhia, pois sei que os irmaos zaragozanos vao ficar por aqui. Inspeciono os pés, massageio com alcool de romero e passo o Compeed. Ao reiniciar a caminhada vejo que um cartaz me convida a levar pedras azuis até Santiago, contribuindo para a luta contra o aumento da represa de Yesa, que vai inundar 5 km do Caminho e algumas ruínas. As pedras que sobraram sao grandes demais e desisto de fazer isso, mas as que levo na mochila, trazidas de Belém, agora terao também esse signo.

Daqui em diante o Caminho vai ser todo ao lado da represa construída nos anos cinquenta e sessenta do século passado. Neste horário a água está verde azulada.

O Caminho a pé altera nossa sensibilidade e, admitamos, o mundo visto a pé é outro mundo. Os caracóis que sao esmagados pelos automóveis sao vistos e cuidados pelo caminhante. Fotografo mais um amarelo, parecido com as polimitas cubanas. Neste horário eles estao muito ativos e correm riscos. Vou encontrar depois muitos que foram apanhados por aves de rapina.

No Caminho essa sensibilidade nos faz prestar atençao na beleza das pequenas flores brancas, amarelas ou violetas e delas nos desviamos instintivamente. Algumas temos que fotografar para tentar guardar esses momentos mágicos. Mas a verdade é que as fotografias sao sempre decepcionantes, pois nao guardam o sentido e a emoçao de ver essas flores com os próprios olhos. Essas flores só os caminhantes veem.

As ruínas de uma ermida me indicam que estou chegando a Ruestas, que pouco depois aparece em uma encosta. A fortaleza é a primeira que aparece. O cenário me lembra o filme O Nome da Rosa. Ao caminhar a aldeia medieval abandonada quando foi construída a represa vai aparecendo e as ruínas impressionam.

Na entrada um mural indica que ali tem albergue, bar e camping. Um cartaz a meia altura indica que a CGT, a central sindical comunista, é dona da aldeia. Explico. Nos anos sessenta as terras foram inundadas e os moradores de Ruesta abandonaram a aldeia. Em 1988 o governo doou as ruínas para a CGT que reabilitou três solares. Dois sao albergues e um é um centro de convençoes. Os albergues e o camping sao explorados por um germe de cooperativa (basicamente um argentino, dois espanhóis e uma etíope). A vista da represa é lindíssima e as instalaçoes sao ótimas. Casa Valentin é o nome deste albergue
Do bar vem o barulho de peregrinos ciclistas. Depois de pagar o pernoite (23 euros com jantar e café da manha) e receber o carimbo, peço um Aquarius, a bebida isotônica que resultou de uma Olimpíada que é o ponto certo para repor as perdas de sais minerais. Como é tarde prefiro comer apenas um sanduíche de presunto e queijo com suco de laranja (5 euros). Tomo banho no albergue do lado, pois tem problemas com a água quente no que estou hospedado. Depois de mim chegam John e um espanhol que vira de relance em Arrés.
Como fiz a primeira bolha vou cuidar dela, costurando-a, como manda a tradiçao, e arrematando com umas gotas de Betadine. Deu certo.
Depois vou zanzar pela aldeia e a sensaçao de volta ao passado medieval é contagiante. Estou fora do meu tempo, de volta ao medievo. Com o sol se pondo, a aldeia é algo que nao sei bem como descrever. Só sei que nao é deste tempo. Como disse-me o zaragozano Luis, estas aldeias tem muita história e pouco futuro. A CGT promete fazer desta aldeia uma aldeia de futuro. E no que depender dos peregrinos, vai fazer mesmo, pois o sopro de vida que os peregrinos espalham é impressionante. Na biblioteca leio o material de divulgaçao e nao posso deixar de compreender porque o turismo dá tao certo aqui na Espanha e pouco certo no Pará. Temos muito o que aprender e caminhar, para chegar perto. Um perto que é muito longe.
O por do sol foi perto das oito da noite e no jantar sentamos juntos eu e o espanhol que agora sei ser um xará galego que vive em Barcelona. Dividimos uma garrafa de um vinho da Rioja (16 euros bem pagos) e aprendemos muito um com o outro. José, por exemplo, estava crente que a corrupçao diminuira no Brasil. E eu fiquei sabendo que há uma bolha imobiliária espanhola. Mais adiante - em Puente La Reina, onde estou agora - fiquei sabendo que um espanhol que se tornou notório - negativamente notório, esclareça-se - quando a bolha estourou agora está fazendo muito sucesso no Brasil, onde promete comprar Sauípe e investir em hidrelétricas.
Fui dormir logo em seguida, pois no dia seguinte teria que partir cedo para caminhar 40 km até Izco.
Dormir em meio a ruínas de uma aldeia medieval é, admito, uma experiência que nao tenho certeza se algum dia terei outra vez.

Segunda-feira, Abril 19, 2010

Notícias do Caminho de Santiago - de Jaca a Arrés

Passar a noite em uma cidade medieval com todos os atributos de uma cidade moderna, em um albergue de peregrinos, é mesmo uma experiência única. Muita gente conhece Toledo e gosta dela. O que ficamos sabendo no Caminho é que existem muitas outras cidades parecidas, algumas pouco mais que aldeias, que receberam um sopro de vida com o Caminho. Jaca é uma dessas.
Cedinho, depois de terminar o post anterior, saio do albergue para a jornada até Arrés. O café da manha foi no albergue mesmo, na melhor tradiçao jacobea. O leite foi dividido com um peregrino de 74 anos.
Alguns metros adiante, um senhor me ajuda a encontrar as setas para sair da cidade. Preferi caminhar pelo parque, muito charmoso e florido. Encontro o primeiro canteiro de romero, o nosso alecrim, que com o tomilho e o erva doce, vao me acompanhar estes dias todos.
A caminhada nesta etapa continua de descida dos Pirineos. Na saída, mas já na trilha, recebo uma ligaçao de meus amigos que saíram ontem de Saint-Jean e deslumbrados com a beleza dos bosques pirenaicos resolveram passar direto por Orisson e ir para Roncesvalles, onde chegaram onze horas da noite, caminhando mais ou menos três horas sem luz natural, se orientando com lanternas. Foi, reconheço, uma loucura que nao recomendo e eu mesmo nao faria. Mas estavam felizes e um deles aniversariava. Fiquei feliz com eles.
De Jaca a Santa Cilia de Jaca é um estirao muito bonito, com os Pirineus nevados ao fundo. Fui o primeiro a chegar a Santa Cilia, um encantador pueblo. O albergue estava fechado e o bar também. Só a padaria estava aberta, mas nao tinha mais paes pequenos. Cuidei dos pés e assisti a chegada de um peregrino espanhol de 74 anos, que encontrada em Jaca na noite anterior. Ele chamou a hospitalera. Logo chegaram dois irmaos zaragozanos, Miguel e Luis. Compraram um pao imenso e dividiram comigo na pracinha. Agora sei o que é ser companheiro de compartir o pao.
Sigo adiante e 4 km depois passo por um camping que tem um bom restaurante, com Menu do Peregrino. Tem boa cara, mas preferi passar batido.
Logo depois passei triscando por Puente La Reina de Jaca. A velha ponte serve até hoje ao pesado tráfego moderno, fazendo inveja para nossos empreiteiros.
No final da tarde chego a Arrés, uma aldeia medieval com um hospital de peregrinos que nestes dias tem dois franceses - Jean e Jorge - como hospitaleros. Fica em um casa reabilitada e se mantém com donativos. Deixei 10 euros. O espírito jacobeo preside o albergue, que pede apenas um sorriso de retribuiçao. Lá encontrei Jane, uma peregrina dinamarquesa. Logo depois chegaram os irmaos zaragozanos Miguel e Luis. Durante o jantar chegou o inglês John. E depois vi que chegara um peregrino de fala espanhola.
A aldeia está sendo reabilitada e tem um bar que também ó pousada. Quem mora aqui, mora bem e fica perto de Puente La Reina. Nao tem Internet e sinal de celular.
Seis da tarde Jorje nos leva para visitar a igrejinha com um acervo surpreendente de pinturas e retábulos. Jorge faz-nos rezar uma oraçao de S. Francisco, cada um na sua língua. Em seguida nos leva para contemplar o horizonte em frente a uma mesa de orientaçao, que sao comuns no Caminho. Nos indica o Caminho para sair pela manha. Quando o sol se poe, pede que nos voltemos para ele e façamos um minuto de silêncio.
Na passagem de volta par ao albergue e para o jantar, compro um bom vinho da Rioja e os zaragozanos compram cervejas no bar.
Ajudamos a preparar o jantar. Salada, salsichao e um gratinado de beringelas que é simplesmente espetacular. A gastronomia do Caminho quando fica a cargo de franceses é sem erro. Nesse caso um prato simples: uma camada de beringela, uma camada de tomate, uma camada de massa parecida com penne e uma camada de cebola (tudo frito ou cozido) gratinado. Sai do forno para a mesa. A cebola - por cima - fica crocante e o restante bem macio. Combinou com o pao e o vinho. Fantástico. A sobremesa é uma compota caseira de maça. Um dedo de prosa e o sono dos justos.
Buen Camino é isso.
O café da manha foi simples e adequado para quem vai começar uma empreitada dura, pois resolvi antecipar minha chegada a Puente La Reina e para isso resolvi caminhar até Ruesta.
Ao sair aumentei o donativo, completando 15 euros, pois o Hospital de Peregrinos de Arrés merece esse apoio.
Afasto-me e vou vendo a silhueta de Arrés se diluir no horizonte.

Sexta-feira, Abril 16, 2010

Notícias do Caminho de Santiago - de Somport a Jaca

Alegria!
Esta é a palavra síntese do que sinto ao vencer a primeira etapa de 30 km da rota aragonesa do Caminho de Santiago, ao qual voltei ontem, três anos depois de tê-lo feito pela primeira vez.
Após 34 horas entre Belém e Pamplona, onde pernoitei dia 14 de abril (Hostel Hemingway) e mais duas horas de taxi até Somport (obrigado, Jorge, pela força), dei o primeiro passo junto ao marco inicial em Somport às 9:15 h, em companhia de um casal de peregrinos de Zaragoza, Fernando e Cristina, que poucos minutos antes avistara em Villanúa (um peregrino identifica o outro a quilômetros de distância). Eles chegaram no ônibus que traz alpinistas até Somport. Começo a meia altura, como recomenda Nietzche, em Gaia Ciência.
Eles se adiantaram um pouco enquanto eu alongava e enchia o cantil (camel bag). Logo, depois de caminhar alguns minutos sobre a neve apreciando a paisagem belíssima dos Pirineus nevados - a temporada de esqui termina esta semana e os ascensores já estavam funcionando - os sentidos aguçados - no Caminho todos os sentidos se aguçam, e até o olfato que havia perdido tempos atrás voltou milagrosamente - permitem ver da gransiosidade branca dos Pirineus nevados à delicadeza de um floco de neve perdido no meio da grama.
Logo encontro Fernando e Cristina e caminhamos juntos alguns minutos. Eles, como eu, vamos até Villanua, onde está seu carro. Eles vao dormir em Jaca e reiniciar em Villanua. Caminharao só até os limites de Aragón, em San Juan de la Peña. Percebendo que eu caminhava mais rápido, Fernando sugere que eu me adiante e deles me despeço com a saudaçao universal dos peregrinos e a promessa de reencontrar em Villanúa.
Caminho pela trilha bem sinalizada, agradecendo a cada seta, a cada marco de madeira, a cada milladoiro - montículos de pedras deixados pelos peregrinos que antecederam na rota - as maos anônimas e solidárias que vao me guiar até Santiado de Compostela e depois até Finisterre.
Às 10:55 h chego à imponente e decadente estaçao de Canfranc, esse mistério que impressiona todos que passam por aqui e ficam sem compreender como nesta paragem remota se construiu algo tao grandioso, agora abandonado e em arruinamento. Ela foi inaugurada em 1928 por Alfonso XIII e deveria ser um marco das comunicaçoes terrestres entre França e Espanha, mas está abandonada desde 1970, quando o descarrilamento de um trem destruiu uma ponte do lado francês e a linha foi interrompida, para sempre, ao que tudo indica. Só o rei e o empreiteiro que construiu saberiam explicar porque construir esta estaçao. No gradil da estaçao fitas revelam uma manifestaçao recente em favor da reativaçao da ferrovia. No escritório turístico peço informaçoes sobre a próxima seta a uma jovem e outra se adianta e me oferece um mapa com onde me indica a retomada da trilha dois quilometros mais adiante, depois do túnel. Competiam para ver quem me atendia melhor. Turismo levado a sério é isso aí. Agradeço e ao sair vejo que está chuviscando. Ponho o anorak e a capa de chuva. O dia está ótimo para caminhar. Temperatura agradável, sem sol e sem vento. O tempo nublado nao aumenta a beleza dos maciços pirenaicos. Até agora foram 7,2 km.
Retomo a trilha - belíssima - passo ao lado e abaixo de uma microhidrelétrica no Rio Aragón e caminho mais 4,4 km até Canfranc (pueblo). No caminho presto atençao nas flores delicadas que começam a nascer. Algumas já estao caindo quase um mês depois de iniciada a primavera. Outra microhidelétrica e logo avisto a Torre de Fusileros, um forte antigo. Chego a Canfranc precisando de banheiro e café, nao necessariamente nessa ordem. A senhora que me atende fala portunhol e depois de pedir um cafè Bonbon - com leite condensado - pergunto se ela é portuguesa. Surpresa! Ela é brasileira de Belo Horizonte e chegou à Canfranc tem um mês me mostra uma bandeirinha do Brasil e a genuína alegria de reencontrar um patrício. Se espanta em saber que vou caminhar mais ou menos 900 km. Me conta sua história. Ela veio a passeio com a mae a Zaragoza e encontrou Luis Lobato, com quem casou há quinze anos. Nao tem filhos, mas tem um casal de golden retriever que trata como se fossem. Um dia Pancho, o macho, levou um tiro de um pastor de ovelhas e ela gastou 3.000 euros para curá-lo. Para todos os que chegam ela me apresenta. Liga a TV na Record, onde vejo notìcias de enchentes no Rio. Me oferece mais café com bolo de chocholate. Ganhei uma hora conversando com Rosemei. Nao quis receber, de pura alegria. Convenci-a a aceitar uma doaçao de 5 euros para a Igreja local. Ela me deu um envelope para deixar o dinheiro que ela iria entregar par ao cura (cujas missas sao ajudadas por um ateu, que também é, via de regra, o único assistente). Anotou em um papel meu nome e o de Araceli, dizendo que ia pedir oraçoes ao padre para nós. Me ofereceu todos os seus telefones, até o da sogra, e me disse que qualquer coisa que acontecesse comigo, poderia indicar seu nome como responsável por mim. Foi emocionante a solidariedade de Rosemei. Ela será um desses personagens emblemáticos do Caminho de Santiago. Vai ser questao de tempo.
Me despeço dela, que agora tem a companhia do carteiro do lugar, que me indica o Caminho, passando pelo cemitério. Logo passo pela ponte medieval e ingresso na antiga calzada (via) romana, por onde passaram as sandálias (caligas) das legioes imperiais e agora servem aos peregrinos e trilheiros. Sao mais de 4 km de vestígios de calzada até Villanúa. Na trilha pisei em algo que parecia um graveto, mas achei macio demais e fui prestar melhor atençao. Era uma fila de lagartas que seguiam uma lider. Confesso meu constrangimento por maltratá-las. Logo adiante encontro a primeira lesma negra, luzidia, de uns oito centímetros. Encontrarei muitas ao longo do Caminho e elas crescerao bastante a medida que a Primavera avança. Pode ser mais um milagre, se nao de Santiago, mas da natureza com certeza. Chego à Villanua pelos lados, onde o belo casario medieval está sendo restaurado, como acontece ao longo do Caminho, que dá um sopro de vitalidade a estes até agora abandonados sítios. As fontes para peregrinos começam a aparecer, bem cuidadas, algumas com delicadas flores. O Ayuntamiento de Villanúa cuida bem da cidade e a sinalizaçao para os peregrinos é impecável. Os cartazes com informaçoes detalhadas para caminhantes, peregrinos ou nao, mostra o quanto temos que aprender com os espanhóis, em matéria de turismo. A coleta seletiva de lixo aqui é para valer, nao é papo furado. Atravesso o rio - con uns dois palmos de água, pelo degelo destes dias de primavera - por uma ponte nova, ainda sem cabeceira. Mais adiante topo com um caramujo amarelo de pouco mais de um centímetro, parecidíssimo com as polimitas de Cuba. Detalhes que passariam despercebidos fora do Caminho, nele temos tempo e cuidado para notar. Os símbolos do Caminho começam a se tornar constantes: esculturas, conchas, cartazes e as setas amarelas que me acompanham desde o primeiro passo.
Mais sete quilômetros de caminhada e pouco depois das 15 h passo por Castiello de Jaca, no alto de uma penha, ainda com forças para a arrancada final de mais de 8 km até Jaca, onde chego depois de enfrentar a última subida, pouco antes das 17:30 h. Jaca é uma cidade pequena e muito charmosa e agradável. Dois helicópteros aterrisam na Escola Militar. Passo no escritório de turismo e me indicam as conchas de latao no chao, que me levam até o impecável albergue municipal, onde sou recebido com alegria e cuidado. Chguei bem neste final de primeira etapa de 30 km. Recebo a cama 105, em alojamento que vou dividir com mais quatro ou cinco peregrinos, um deles de 74 anos de idade, que caminhou também desde Somport. Saio a procura de lavanderia, mas nao encontro lavanderia rápida. Vou ter que guardar a roupa suja. Compro um adaptador de tomadas e uma serra para fazer um ajusta. A serra vou deixar no albergue, em um cesto abaixo de um cartaz que diz mais ou menos o seguinte: deixa o que te sobra, pega o que precisas. Essa é uma preciosa liçao do Caminho e, pensando bem, deveria ser uma liçao para nossa vida toda. O centro histórico de Jaca está bem cuidado e nele temos de joalherias a ferreterias.
Saio para jantar no restaurante do Hotel La Paz. O menu do peregrino é uma sopa de lentilhas - daquelas que tem gente capaz de trocar a primogenitura - guisado de cordeiro e uma taça de vinho da regiao, que nao faz feio. Um pudim de sobremesa e a conta, gorjeta incluìda, sai por 10 euros. A garçonete - que atende no bar, no caixa e na cozinha - carimba minha credendial e me indica o supermercado, onde compro o café da manha e a água para a provisao do dia seguinte.
Por volta de dez da noite recebo uma ligacao de meus companheiros peregrinos de Belém que estao em Pamplona se preparando para iniciar sexta-feira a rota francesa, desde Saint-Jean.
Comecei bem o Caminho e agora vou enfrentar a segunda etapa de quase 25 km até Arrés.



INFORMAÇOES PARA PEREGRINOS
Hostel em Pamplona: Hostel Hemingway. Calle Amaya (Amaya Kalea), 26 izquierdo. hostelhemingway@hotmail.com. Javier é quem atende. Pode ser reservado pelo Hostelworld. Funciona direitinho.
Taxista: Jorge. Telefone móvil 609466476.
Bar em Canfranc: La Basilica, de Luis Lobato e Rosemei, mineira de Belo Horizonte.
Restaurante em Jaca: La Paz, Calle Mayor.

Segunda-feira, Abril 12, 2010

Niilismo

NIILISMO - Reflexões filosóficas e expressões literárias

O niilismo é fonte tanto de reflexão filosófica, por autores fundamentais como Nietzsche e Heidegger,
quanto de expressão literária, nas obras de Dostoievsky e Kafka. Partindo das obras desses quatro grandes
autores, o seminário tem como objetivo demonstrar a atualidade e a centralidade da noção de niilismo para
os nossos dias, em suas dimensões filosófico-metafísicas e ético-políticas.

Ministrante
Benedito Nunes
Filósofo e escritor. Professor emérito de Filosofia na Universidade Federal do Pará, ensinou literatura e
filosofia em outras universidades do Brasil, da França e dos Estados Unidos. Autor de vários ensaios
literários e filosóficos, recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura em 1987.

Destinatários
Público em geral

Programa

Módulo I
10 e 11 de abril
24 e 25 de abril
Reflexões filosóficas: Nietzsche e Heidegger

Módulo II
16 e 17 de outubro
30 e 31 de outubro
Expressões literárias: Dostoievsky e Kafka

Das 8h30 às 12h30.

Local: Centro de Cultura e Formação Cristã – CCFC. Br 316, Km 6, Ananindeua - PA

ENTRADA FRANCA

Atenciosamente,

Otacilio Rodrigues Dias (Eventos) – Centro de Cultura e Formação Cristã da Arquidiocese de Belém.

NOTA: Visite o site do CCFC nele você encontrará todas as atividades culturais, de evangelização e formação para 2010: http://www.ccfc.com.br.

Deu no RGE Análise

Na RGE Análise (de Nouriel Roubini) de hoje Bertrand Delgado Lorenzo e Juan Maldonado dizem mais ou menos o seguinte:

Os investidores vão acompanhar de perto o crescimento das vendas no varejo de fevereiro para determinar o ritmo de aceleração da atividade econômica durante o primeiro quadrimestre de 2010 (Q1 2010, em economês). Enquanto isso, o relatório Focus do Banco Central do Brasil poderia mostrar que a inflação está se deteriorando mais rapidamente do que nas últimas semanas. O Presidente Lula se reunirá com o presidente chinês, Hu Jintao, em Brasília, para a cúpula dos Brics e os mercados vão prestar atenção aos comentários.

Domingo, Abril 11, 2010

Abuso

Recebi esta notícia e esta sentença de meu bom amigo Luiz Salvador (veja crédito completo no final).




ABUSO DE DIREITO
10/04/2010 , 16:18 hs

Empresa condenada a indenizar metalúrgicos de Caxias (RGS) por uso desvirtuado do direito de ação.

(*) Luiz Salvador


A Fras-Le S/A foi condenada em sentença a pagar ao Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul indenização por litigância de má-fe no mesmo processo em que demanda contra os metalúrgicos de Caxias, onde pede indenização por dano moral e material decorrente de greve legada a efeito nas dependências da empresa.

Na exordial, a empresa alega abuso do direito ao exercício de greve por parte do sindicato obreiro, sendo que após instruído o processo, no exame das provas concluiu o juiz MAURÍCIO M. MARCA da 4ª Vara do Trabalho de Caxias do Sul (processo n. 00316-2008-404-04-00-3) ter agido com má-fé e deslealdade processual, editando os documentos acostados aos autos, concluindo, com precisão a sentença:

“O processo não pode ser tratado como coisa das partes. O processo tem caráter nitidamente público. O Estado-Juiz ao estabelecer o monopólio da Jurisdição, sancionando a auto-tutela privada, assumiu o dever de dar a cada um o que é seu, para com isso atingir o objetivo de pacificação social. O processo é o único instrumento de que dispõe o Estado-Juiz para cumprir tais finalidades. Por isso, não pode o Juiz permitir que o processo seja utilizado pelas partes não para exercer legítimo direito de ação ou defesa, mas para, em abuso e desvio de finalidade do direito, alegar-se fatos escancaradamente alheios a verdade com o propósito de vendeta ou revanchismo, em evidente desprestígio do Poder Judiciário como um todo” .


Leia a íntegra da sentença

SENTENÇA

Processo: 00316-2008-404-00-3
Reclamante: Fras-Le S/A
Reclamado: Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul


Fras-Le S/A ajuíza reclamação trabalhista contra Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul, qualificados na inicial, afirmando, em síntese, que: a) é empresa do ramo metalúrgico com 2520 colaboradores; b) como comprovam gravação em vídeo, fotografias e futura prova testemunhal, no dia 28/01/2008, por volta das 6h, o réu por seus representantes obstruiu os portões de acesso às dependências da autora em piquetes que impediram o ingresso normal dos trabalhadores; c) abriu o portão principal de acesso e postou um caminhão em rua interna que dá acesso às dependências da autora, permanecendo no local de modo a impedir o acesso dos trabalhadores aos locais de trabalho; d) “o processo produtivo da empresa permaneceu paralisado até o final da tarde do citado dia”; e) em razão destes fatos ingressou com ação possessória e obteve a concessão de liminar; f) os representantes do sindicato “não permitiram a entrada dos trabalhadores que iniciavam as atividades”; f) além disso, “no afã de impedir o trabalho dos empregados da Autora, adentraram nas suas dependências e obrigaram os trabalhadores a saírem de seus postos de trabalho”; g) o sindicato ultrapassou os limites do seu direito ao não se limitar a dirigir-se aos trabalhadores que compõem a categoria; h) além do simples exercício do direito de reunião a todos constitucionalmente assegurado o réu praticou atos que transbordaram os limites da licitude, impedindo o acesso dos trabalhadores aos locais de trabalho; i) somente “desistiram da invasão” por força de mandado judicial expedido pelo Juízo da 4a Vara do Trabalho; j) “a atitude arbitrária do Réu violou os direitos da empresa e lhe causou prejuízos irrecuperáveis, que englobam o valor da produção perdida e os salários e encargos sociais incorridos”; k) transcreve doutrina acerca do abuso do direito de greve; l) “imprescindível afirmar que o dano moral está materializado, em face de pronunciamentos agressivos proferidos por dirigintes do Réu”; m) o ato do réu é reiterado como comprova sentença que acompanha a petição inicial.
Em razão desses fatos postula a “condenação do réu a ressarcir os prejuízos materiais e morais sofridos pela autora, que englobam o valor da produção perdia, os salários e os encargos sociais, a serem apurados através de prova pericial técnica, desde já requerida, mais valor a título de dano moral”, acrescida de custas processuais e honorários de advogado. Atribui à causa o valor de R$ 10.000,00.
A autora altera o valor da causa para R$ 50.000,00.

O reclamado sustenta que ao contrário do que afirma a petição inicial: a) não obstruiu os portões de acesso; b) não impediu ingresso normal do seu quadro funcional; c) não ingressou mediante violência nas dependências da empresa; d) não impediu o acesso de trabalhadores às dependências da empresa e aos respectivos locais de prestação de serviço; e) não obrigou os trabalhadores a saírem de seus postos de trabalho; f) não intimidou os que demonstravam intenção de ingressar no recinto para trabalhar; g) “a manifestação sindical não foi imposta mediante coação, mas foi ato de vontade consciente dos empregados da autora, que sempre estiveram plenamente conscientes das decorrências de seus atos e voluntariamente optaram por manifestar-se”; h) a autora compensou as horas não-trabalhadas o que anula qualquer prejuízo; i) ademais, caso a empresa tenha pago as horas não trabalhadas o fez “por sua conta e risco”; j) se se entender pela obrigação de indenizar a culpa é concorrente na medida em que decorrente do ato patronal de dispensar empregado dirigente sindical com estabilidade no emprego e “rever seu ato arbitrário e por ter inclusive recusado a estabelecer qualquer negociação a respeito desse ponto. Note-se que a proposta conciliatória formulada pelo Juiz do Trabalho foi solenemente afastada pela empresa, o que demonstra seu desprezo pela via conciliatória e sua clara, decidida e planejada opção pelo confronto e cizânia”; k) na colisão de direitos fundamentais não se pode sacrificar completamente um deles.
Produz-se prova documental, perícia contábil e ouvem-se três testemunhas e um informante. Razões finais por escrito. Propostas conciliatórias rejeitadas. É o relatório. Decide-se:
I – Fundamentação
1 – análise das razões finais da autora
A autora afirma em razões finais: 1. a incompetência funcional do Juízo que presidiu a audiência de instrução, sob o fundamento de que havia sido promovido a Juiz Titular da 2a Vara do Trabalho de Uruguaiana, em conformidade com a portaria 4785 de 3 de setembro de 2009. Requer “a pronúncia de nulidade da derradeira audiência, presidida e realizada por Magistrado não designado legalmente para o ato, em face de estar lotado para outra localidade” (fl. 342); 2. afirma a existência de manifestação de prejulgamento do processo do que “resulta a ausência da recomendada isênção de ânimo do Magistrado para o ato realizado, tampouco para sentenciar o feito, em face ao que a Peticionária a sua suspensão (sic) e requer seja reconhecida e pronunciada, para os efeitos de direito, proclamando a nulidade do ato, e determinado a realização de outra audiência por juiz competente, que também deve proferir sentença”; 3. ratifica os demais atos processuais e “registra o seu protesto por cerceamento defensivo, em face da ouvida da testemunha Jorge Antônio Rodrigues”.

Nada mais equivocado.

O Magistrado que dirigiu a audiência realizada em 11/11/2009 não o fez por sua livre escolha sem estar “designado legalmente para o ato”. A direção das audiências realizadas na 4a Vara do Trabalho de Caxias do Sul no dia 11/11/2009 decorreu de determinação expressa do Tribunal Regional do Trabalho por meio do órgão competente para tanto que é a Corregedoria Regional formalizada mediante a portaria n. 6066/2009, em razão do notório excessivo movimento processual existente nas unidades judiciárias de Caxias do Sul.

A autora não ingressa com exceção de suspeição do Juízo na forma prescrita nos art. 304 e 312, do CPC, a ser apresentada em peça em separado e dirimida pelo E. Tribunal quando rejeitada. Sustenta a “suspensão” do Juízo no corpo das razões finais e dirige ao próprio Juízo requerimento de nulidade processual. Diante disso, cumpre ao Juízo decidir, até para que não paire nenhuma dúvida acerca da mais absoluta isenção de ânimo para julgar a causa.
Em absoluto houve qualquer prejulgamento por parte deste Juízo. Única e exclusivamente após encerrada a instrução, em estrita observância aos artigos 764, parágrafo primeiro c/c 850, parte final, da CLT o Juízo renova a proposta de conciliação mediante eventual estabelecimento de procedimentos-padrão nas mais variadas manifestações do réu que conciliassem o direito de manifestação com o respeito ao patrimônio da autora e a liberdade de decisão dos trabalhadores individualmente, ao que a autora recusa-se a negociação por sustentar que o prejuízo está esclarecido no laudo pericial contábil e há precedente jurisprudencial favorável. Como a conciliação pressupõe concessões recíprocas, o único esclarecimento do Juízo às partes foi de que não necessariamente concordava com os fundamentos jurídicos do precedente jurisprudencial a que a autora se referia, além de se tratar de outro processo que pode deter substrato fático e conseqüente decisão absolutamente diversa.
É o que bastou para destes e exclusivamente destes fatos, a autora extrair a necessidade de tentar afastar o Juiz que de modo formal foi designado para presidir a instrução, não deste processo que sequer tinha conhecimento da existência, mas de inúmeros processos presentes nas pautas de audiência durante a atuação em Caxias do Sul. Às escâncaras o que pretende a autora é – ao tentar afastar Juiz cuja decisão desconhece – tentar a sorte mediante a remessa dos autos para outros Juízes com atuação permanente em Caxias do Sul cujo posicionamento é do conhecimento da autora por decisões anteriores, seja em ações de indenização, seja em ações possessórias. No mais, a autora sequer cogita a ocorrência de qualquer das hipóteses numeradas de modo taxativo nos artigos 134 e 135, do CPC.
Por último, a autora protesta por cerceamento de defesa em razão da oitiva da testemunha Jorge Antônio Rodrigues. Ocorre que o Sr. Jorge Antônio Rodrigues foi ouvido na qualidade de informante em razão do deferimento por este Juízo da contradita apresentada pela própria autora porque “foi o pivô dos acontecimentos que deflagaram a ação em tela” e “na condição de secretário do sindicato a que se vincula, é manifesto o seu interesse no resultado da ação. Em consequência, certamente carecerá da isenção recomendada para as declarações que fará” (ata - fl. 336). Os protestos foram lançados pelo réu em audiência.
2 – valor da causa
O valor atribuído à causa tem repercussões notórias e de ordem pública no processo. É relevante para definir o rito processual, se ordinário ou sumaríssimo, conferir acesso ao duplo grau de jurisdição, bem como é a base de incidência das custas processuais e da multa por embargos de declaração protelatórios. Por isso, o valor atribuído à causa deve observar um mínimo de razoabilidade em relação ao efetivo conteúdo econômico dos pedidos.
A jurisprudência é pacífica quanto às repercussões público-processuais da fixação do valor da causa que justificam e exigem a alteração de ofício pelo Juízo quando flagrantemente desproporcional ao conteúdo econômico da pretensão. Vejamos, respectivamente, acórdão do Superior Tribunal de Justiça e do Tribunal Regional do Trabalho da 4a Região:
“RECURSO ESPECIAL. USUCAPIÃO. ARTIGO 261 DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. FIXAÇÃO DO VALOR DA CAUSA DE OFÍCIO PELO MAGISTRADO. QUESTÃO DE ORDEM PÚBLICA. As regras sobre o valor da causa são de ordem pública, podendo o magistrado, de ofício, fixá-lo quando for atribuído à causa valor manifestamente discrepante quanto ao seu real conteúdo econômico. Precedentes. Recurso especial não conhecido” (Rel. Exmo. Min. Castro Filho, REsp 55288/GO, 3a Turma, publicado em 14/10/2002, DJ, pág. 225).
“VALOR ARBITRADO À CAUSA DE OFÍCIO. O juiz retificou, de ofício, o valor atribuído à causa pelo reclamante, de R$ 1.000,00 para R$ 100.000,00, tendo em vista que tal valor deve guardar relação com o pedido deduzido, conforme artigos 258, do CPC. (...) Na fixação do valor da causa a parte autora deve observar os parâmetros estabelecidos no art. 259 do CPC, dentre outros. Em caso de cumulação de pedidos, como ocorre, o valor deverá corresponder à quantia correspondente à soma dos valores de todos eles, ou seja, o valor corresponde a cada pedido formulado, sem se perquirir acerca de eventual sucesso ou não da pretensão. No caso, considerando-se a média remuneratória do autor e o valor estimativo dos pedidos, tem-se que o valor atribuído à causa pelo reclamante não se mostra coerente ou compatível com a importância econômica visada, sendo razoável o valor fixado na sentença” (Rel. Exmo. Des. Fabiano de Castilhos Bertolucci, 4a Turma, RO 00802-1999-001-04-00-8, p. 23/08/2007, disponível no sítio www.trt4.jus.br).
A pretensão da autora é indenização equivalente ao “valor da produção perdida, os salários e os encargos sociais incorridos, a serem apurados através de prova pericial técnica mais valor a título de dano moral” (inicial – item b – fl. 6). Os valores atribuídos à causa na petição inicial e na emenda, respectivamente, em R$ 10.000,00 e R$ 50.000,00 não guardam nenhuma coerência com o conteúdo econômico da pretensão.

A autora afirma na inicial e na emenda que o valor arbitrado à causa é “provisório para efeitos fiscais e de alçada” (fl. 6 e fl. 54) e no pedido que o valor real é o “apurado através de prova pericial técnica” (fl. 6). Na audiência designada para conciliação (fl. 59) o Juiz Guilherme da Rocha Zambrano elabora quesitos “se a autora deixou de ter algum contrato cumprido em virtude do ocorrido” e “se a autora teve alguma multa contratual ou outro custo decorrente da paralisação ocorrida”.
A autora protesta sob o fundamento que “excedem o objeto da lide, que se cinge ao valor da produção perdida e salários encargos sociais incorridos” seguindo protesto “pela aplicação, data venia, equivocada, em favor da parte economicamente mais favorecida, do princípio protetivo do processo do trabalho” (fl. 60). A autora reitera na manifestação sobre o laudo que “de ser ressarcida dos prejuízos materiais e morais sofridos, que englobam o valor da produção perdida, salários e encargos sociais incorridos” (fl. 264).
O laudo pericial constata que a média de peças produzidas por dia é 438.491 (fl. 115) e que no dia 28/01/2008 foram produzidas 220.631, com o que a autora concorda (fl. 264). O laudo pericial apura que “pela planilha de faturamento da empresa o valor médio de venda por peça foi de R$ 4,64” (quesito b – fl. 116; quesito e – fl. 117). A petição inicial afirma que “ficou paralisada por 1 (um) dia inteiro” (fl. 3), do que resultaria pedido equivalente a média integral da produção diária: 438.491 peças. Contudo, na interpretação mais restritiva possível, conclui-se que “o valor da produção perdida (...) apurados através de prova pericial” (pedido – inicial – fl. 6), equivale única e tão-somente à diferença entre a produção média normal e a produção efetiva do dia 28/01/2008.
Portanto o valor do pedido de indenização por dano material deve ser fixado em R$ 1.010.870,40 (438491 – 220.631 = 217860 x 4,64). A petição inicial cumula pedido de dano moral. Os pedidos cumulados devem ser somados (art. 259, II, do CPC). Arbitra-se o pedido de dano moral em R$ 20.000,00.
Por tudo que é exposto, fixa-se o valor da causa em R$ 1.030.870,40.
3 – mérito
3.1 - manifestação sindical – abuso de direito – indenização
A petição inicial afirma:
“De se dizer que se o réu tivesse se restringido a pronunciamentos verbais, o acontecimento teria servido aos seus interesses e teria transcorrido dentro da normalidade, já que estaria exercendo suas funções nos limites de seu direito. Não há dúvidas que um sindicato possa se dirigir aos trabalhadores que compõem a categoria por ele abrangida. Entretanto, não pode ultrapassar os limites do seu direito, como no presente caso” (fl. 3).
Portanto, a controvérsia se resume a investigar se a manifestação do réu excedeu ou não o direito de reunião. Em síntese: se houve ou não abuso do direito. Vejamos a lição de Rui Stoco, com suporte em Caio Mário da Silva Pereira:
“Em uma proposição simples, poder-se-ia dizer que também encontra supedâneo na extensão do seu exercício, ou seja, aquele que exercita o direito de forma anormal ou irregular e, assim, excede o limite do exercício regular desse direito. Também se comporta o abuso na intenção ou no animus nocendi, quando o agente se inspira na intenção de causar mal a outrem. (...)
Sintetizando esse pensamento, o mestre e sempre lembrado Caio Mário da SILVA PEREIRA (1995, p. 430) resumiu, de forma magistral, o sentido da expressão ‘abuso do direito’:
‘Abusa, pois, de seu direito o titular que dele se utiliza levando um malefício a outrem, inspirado na intenção de fazer mal, e sem proveito próprio. O fundamento ético da teoria pode, pois, assentar em que a lei não deve permitir que alguém se siva de seu direito exclusivamente para causar dano a outrem’” (in, Abuso do Direito e Má-Fé Processual, Ed. Revista dos Tribunais, São Paulo, 2002, pág. 58/9).
A autora apresenta gravação em vídeo da manifestação ocorrida no dia 28/01/2008 para comprovar o abuso do direito porque teria o réu: a) aberto o portão principal de acesso ao parque fabril e procedido à invasão; b) “não permitido a entrada dos trabalhadores que iniciavam as atividades”; c) efetuado discursos inflamados ameaçando ingressar nos locais de trabalho se não houvesse cessação da atividade pelo empregados; d) “obrigado os trabalhadores a saírem de seus postos de trabalho”
Ao relato e à análise das imagens:
Antes do turno que inicia às 6h, aos 1min33sg de gravação chega ao portão da autora um veículo Santana do qual saem o presidente do réu e mais uma pessoa; o veículo pára na entrada por alguns instantes, manobra e estaciona na lateral. Em seguida, vê-se um caminhão branco pertencente ao réu que pára em frente ao portão de acesso, com mais duas pessoas.

A petição inicial afirma “o réu, através de seus representantes, em seguida, abriu o portão principal do parque fabril da autora” (fl. 2/3) para sustentar que teria havia uma “invasão”. Aos 7min40sg vê-se clara e nitidamente que são os vigilantes da autora que abrem o portão de acesso da fábrica, sem nenhuma interveniência das pessoas que aguardam do lado externo, exatamente ao contrário da versão da petição inicial. Em nenhum outro momento do vídeo as pessoas que chegaram junto ou logo depois do caminhão branco e que permanecem no lado externo tocam o portão da autora.
Aos 24min de gravação é possível distinguir as pessoas do réu que iniciaram a manifestação porque postadas lado-a-lado de costas para a entrada ao passo que os empregados da autora aguardam o sinal sonoro do início do turno de frente para o portão. Contam-se oito pessoas.

Aos 25min de gravação o vídeo mais uma vez contraria frontal e cabalmente a afirmação da petição inicial de que os membros do sindicato “não permitiram a entrada dos trabalhadores que iniciavam as atividades até o momento da desocupação” (fl. 3). No horário de início do turno as oito pessoas que estavam de costas lado-a-lado no portão liberam por completo o acesso e ingressam na fábrica junto com centenas de empregados da autora. Não houve absolutamente nenhum ato de violência ou hostilidade. Percebe-se que permanecem estacionados ao lado do portão de entrada os 3 veículos que trouxeram as pessoas que iniciaram a manifestação. Enquanto continuam a ingressar os empregados da autora, entram no pátio da fábrica 18 veículos pequenos e dois ônibus a evidenciar com segurança que o caminhão do réu não permaneceu em local que impedisse a circulação, inclusive de veículos de grande porte.
Aos 33 minutos de gravação encerra-se o vídeo relativamente a entrada do turno das 6h às 15h no dia 28/01/2008 e passa-se para gravação que registra o horário das 14h40min, ou seja, 20 minutos antes da troca de turno. Veêm-se 13 ônibus parados no acostamento da RS-122, centenas de trabalhadores desembarcando e ingressando livremente na fábrica da autora após passarem por oito pessoas que não se dirigem à fábrica, mas permanecem na entrada, sendo que destas, três fazem a entrega de panfletos aos empregados. Logo após o ingresso de centenas de trabalhadores, novos ônibus chegam ao local e ingressam no interior da fábrica sendo ao todo 18 ônibus e doze carros. O último ônibus entra no pátio da autora às 14h50min, pelo horário registrado na gravação, ou seja, com dez minutos de antecedência em relação ao início do turno.
Portanto, o vídeo mostra com clareza meridiana que no turno que inicia às 15h o ingresso dos empregados nas dependências da autora também ocorre de modo livre e irrestrito. Não há formação de piquetes e tampouco a prática de qualquer ato pelas oito pessoas que não ingressam na fábrica tendentes a evitar a livre circulação das centenas de empregados da autora. Limitam-se única e tão-somente a entrega de panfletos.
Aos 43min05sg do vídeo passa-se à gravação de discurso do presidente do réu sobre o caminhão branco em rua no interior da autora. O discurso não contém nenhuma ameaça, sequer velada, contra os empregados que optaram por não aderir à paralisação. Bem ao contrário, está em perfeita sintonia com o objetivo declarado do movimento que era protestar em face da dispensa de dirigente sindical detentor de estabilidade no emprego. Ao contrário do que afirma a petição inicial não há no discurso nenhuma “ameaça de ingressar nos locais de trabalho” (fl. 3).
O discurso igualmente não contém palavras de baixo calão e sequer faz referência a pessoa ou pessoas determinadas da direção da autora. Para exemplificar, o presidente do réu afirma que “O Sindicato dos Metalúrgicos, instituição essa de 75 anos, não pode ser afrontada do jeito que está sendo afrontada; e nós vamos sim aos tribunais internacionais, ao congresso nacional, nós vamos dizer quem é o grupo Randon (...) é por isso que acreditamos no nosso trabalho e em cada um de vocês. Obrigado companheirada”. Aos 45min10sg pode-se perceber os empregados aplaudindo o discurso do presidente do réu, em nítido sinal de anuência.
As imagens evidenciam sem a menor sombra de dúvida situação de fato em tudo e por tudo distinta da descrita na petição inicial segundo a qual “os membros do réu (...) no afã de impedir o trabalho dos empregados da autora, adentraram em suas dependências e obrigaram os trabalhadores a saírem de seus postos de trabalho” (fl. 3 – grifo nosso). Obrigar no léxico significa coagir, constranger, compelir, forçar, impor, oprimir, sujeitar. Em hipótese alguma é o que se verifica nas imagens que acompanham a petição inicial.
Aos 45min51sg de gravação observam-se algumas pessoas paradas atrás do caminhão do réu que se encontra estacionado em uma rua lateral com possibilidade de passagem pela principal de veículos de grande porte como ônibus. Não há nenhum sinal de violência ou constrangimento, mas de diálogo entre os trabalhadores. Os trabalhadores permanecem de braços cruzados, mas a toda evidência por livre e espontânea vontade de aderir ao movimento proposto pelo réu, sem nenhum contrangimento de qualquer ordem físico, psicológico ou moral. Aos 50min de gravação o caminhão do réu deixa o pátio interno da autora. Não há na saída resistência e tampouco qualquer espécie de violência, da mesma forma que não houve na entrada.
Aos 51min de gravação há filmagem da RS 122 na qual 14 pessoas tentam obstruir a passagem de um micro-ônibus e o Santana no qual o presidente do réu chegou a autora no dia 28/01/2008 parado sobre a pista de rodagem, enquanto o caminhão está estacionado no acostamento. Como se constata pela ampliação da imagem anterior, estes fatos ocorreram a distância igual ou superior aos cem metros fixados no interdito proibitório (fl. 34). A tentativa de bloqueio da RS 122 dura exatos 1min06seg. Aos 52min06sg os veículos voltam a transitar, inclusive os ônibus trazendo os trabalhadores que ingressam livremente nas dependências da autora. Outros ônibus param no acostamento, os trabalhadores desembarcam, deslocam-se a pé até a entrada da autora e ingressam livremente no local de trabalho.
Aos 58min19sg pode-se observar duas pessoas com panfletos nas mãos e uma carreta ingressando na autora, ouvindo-se ao fundo discurso do presidente do réu no qual afirma que “falaram para nós que ontem a noite foi uma pressão muito grande (...) então é importante que os companheiros peguem o nome do chefe ou do líder que ameaçar voces informa para nós no sindicato para nós poder entrar na Justiça contra a empresa e contra este cidadão”. Enquanto isso, os trabalhadores aparecem ingressando nas dependências da autora.

A 1h01min1sg a gravação é claramente editada com corte posterior a expressão “nós não queremos aqui companheiros (...)” no discurso do presidente do réu, impedindo a verificação da existência de informação expressa pelo presidente do réu acerca da liberdade de adesão dos empregados da autora ao movimento. A 1h02min41sg o veículo do presidente do réu é retirado de uma das pistas de rodagem da RS 122.
As imagens contidas no DVD que acompanha a petição inicial falam por si mesmas.

A filmagem do movimento do réu iniciado no dia 28/01/2008, embora flagrantemente editada em benefício da autora, comprova de modo cabal e irrefutável que simplesmente todos os fatos apontados na petição inicial como exorbitantes ao exercício regular do direito de reunião e manifestação são falsos. O réu não “abriu o portão principal de acesso ao parque fabril” e “invadiu” a autora; não “impediu o acesso dos trabalhadores às dependências da empresa”; não “obrigou” os trabalhadores a saírem dos seus postos e trabalho; não impediu o livre trânsito, inclusive de veículos de grande porte, no interior do pátio da autora; não fez ameaças de qualquer ordem aos trabalhadores; não fez ameças ou dirigiu ofensas pessoais à direção da autora ou a qualquer das pessoas que participavam de reunião do conselho.
Aliás, o diminuto número de pessoas ligadas ao réu que iniciaram o movimento no dia 28/01/2008 em relação à imensa massa de empregados da autora, por si só, conduz a inexorável conclusão de que seria simplesmente impossível praticar os atos descritos na petição inicial. A petição inicial informa que a autora conta com 2520 “colaboradores”. Havia um representante do sindicato para cada 315 empregados da reclamada. É inconcebível sequer cogitar que uma pessoa tivesse condições físicas de “obrigar” 315 pessoas a pararem de trabalhar contra sua vontade.

Está comprovado à saciedade por imagens de clareza insofismável que o réu única e exclusivamente cumpriu sua função legal na defesa dos interesses dos trabalhadores e do próprio movimento sindical mediante prestação de informações no local de trabalho e exortação a que os trabalhadores que assim desejassem aderissem ao protesto.
A queda na produção da autora no dia do movimento proposto pelo réu apontada no laudo pericial não se deveu aos excessos noticiados na petição inicial, mas a adesão espontânea e livre dos trabalhadores. Não houve abuso do direito e, portanto, ilicitude, a respaldar a obrigação de indenizar por danos materiais e morais, postulados na petição inicial.

As fotografias de fls. 10/25 comprovam única e exclusivamente que houve paralisação, o que de resto é incontroverso e está admitido na defesa. Os trabalhadores parados registrados nas fotografias, em nenhuma das imagens, estão sob pressão física ou psicológica de qualquer das pessoas que iniciaram o movimento. Simplesmente estão sem trabalhar dada a adesão livre e espontânea à paralisação proposta pelo réu em protesto a dispensa de dirigente sindical reconhecidamente estável.
A prova testemunhal produzida pela autora está em contradição com a apresentada pelo réu e em franca contradição com as imagens que acompanham a petição inicial produzidas pela própria autora e com a prova documental. As duas testemunhas ouvidas a convite da autora prestam serviços em área administrativa e estão muito distantes do chão da fábrica. Prestam depoimento nitidamente comprometidas com a versão da autora. Relatam exageros que excedem até mesmo a versão do próprio empregador de modo a comprometer integralmente a credibilidade dos depoimentos.

A primeira testemunha trazida pela autora afirma taxativamente “que o turno da depoente, das 6h às 15h15min não trabalhou” e reinquirida reitera “que ninguém trabalhou neste turno das 6h às 15h15min no dia 28/01/2008” (fl. 334). A segunda confirma que “todas as unidades produtivas da autora permaneceram paradas até às 18h” (fl. 335). O documento de fl. 234 apresentado pela própria autora por ocasião da realização da perícia comprova que houve produção no dia 28/01/2008 de 220.631 peças (laudo – fl. 115), com o que expressamente concorda a autora (fl. 264). Além disso, comprova que alguns setores isolados tiveram produção praticamente idêntica e até mesmo superior a média como por exemplo “caminhão” (média 5037, produção 28/01, 4708) e “sapata” (média 5875, dia 28/01, 8286) de modo que houve trabalho normal nos três turnos.
É impossível explicar a produção de 220.631 peças no dia 28/01/2008 e em alguns setores até mesmo superior a média dos demais dias sem que tenha havia trabalho. Às escâncaras, por constatação objetiva e matemática, as testemunhas trazidas pela autora mentem em Juízo.

Forçoso registrar que o Juízo constata durante a realização da audiência de instrução que a primeira testemunha ouvida a convite da autora não se sente à vontade para prestar depoimento chegando a ponto de questionar “eu tenho que responder esta?”, deixando absolutamente claro que não poderia relatar fatos desfavoráveis a autora.

A segunda testemunha ao ser inquirida dentre tantas manifestações do sindicato qual teria chamado mais sua atenção responde “foi a que ocorreu em janeiro/2008” e perguntado o que ocorreu responde com transcrição literal (ipsis literis): “nessa manifestação o pessoal do sindicato entrou na empresa com um caminhão e pelo que notaram foi uma invasão pois arrebentaram uma das cancelas de acesso e pararam em frente a uma das fábricas da empresa, no pátio interno, que nesse dia daí a gente não teve produção, inclusive eles passaram nos setores para ver se tinha alguém trabalhando e aquelas que eles encontravam desligavam as máquinas e faziam sair dos postos de trabalho” (fl. 335).
Ora, o ímpeto da testemunha em relatar exatamente o que está na petição inicial é clarividente chegando a ponto de utilizar a mesma expressão (invasão) contida na petição inicial e ignorar a advertência do Juízo para que respondesse o que fosse perguntado e o que tivesse visto (conhecimento pessoal). Ao ser inquirida se havia presenciado o caminhão quebrar a cancela reconhece que “não presenciou o caminhão do sindicato arrebentar a cancela” constando em ata que “o Juízo reitera o quanto dito na advertência, de que a testemunha responda os fatos que presenciou ou ‘que tenha visto’ e não o que ouviu de terceiros’” (fl. 335).
3.2 – litigância de má-fé
O artigo 17, II, do CPC estabelece que deve ser reputado litigante de má-fé a parte que alterar a verdade dos fatos. Não cabe ao Juiz deliberar discricionariamente por aplicar ou não a lei. Todos os poderes conferidos pela lei ao Juiz revestem-se em igual proporção do dever de utilizá-los sempre que implementada a hipótese prevista na norma. A aplicação da litigância de má-fé não foge a esta regra configurando-se em típico poder-dever.

O processo não pode ser tratado como coisa das partes. O processo tem caráter nitidamente público. O Estado-Juiz ao estabelecer o monopólio da Jurisdição, sancionando a auto-tutela privada, assumiu o dever de dar a cada um o que é seu, para com isso atingir o objetivo de pacificação social. O processo é o único instrumento de que dispõe o Estado-Juiz para cumprir tais finalidades.

Por isso, não pode o Juiz permitir que o processo seja utilizado pelas partes não para exercer legítimo direito de ação ou defesa, mas para, em abuso e desvio de finalidade do direito, alegar-se fatos escancaradamente alheios a verdade com o propósito de vendeta ou revanchismo, em evidente desprestígio do Poder Judiciário como um todo.

A autora poderia com ampla liberdade desenvolver as mais variadas teses jurídicas e deduzir suas pretensões em Juízo, bem assim poderia interpretar e avaliar os fatos de acordo com seus interesses, mesmo que fosse outra a avaliação do Juízo.

Contudo, não se pode conceber como mero exercício do direito de ação a autora afirmar taxativamente: a) que “o Réu através de seus representantes, em seguida, abriu o portão principal de acesso ao parque fabril da autora” e posteriormente, em razão disso, afirmar que o réu “invadiu o interior da sede da Autora” ou “procedeu à invasão” (inicial – fl. 3) quando há imagem registrada em vídeo comprovando que quem abriu os portões foram os vigilantes da autora e que os representantes do sindicato sequer tocaram no portão de acesso principal da fábrica; b) o réu “impediu o acesso de trabalhadores às dependências da empresa” quando há prova por imagem incontestável de que os empregados ingressaram às centenas nas dependências da empresa, seguidos de inúmeros ônibus e carros de passeio; c) o réu “fez discursos inflamados e ameaçando ingressar nos locais de trabalho” para “obrigar os trabalhadores a saírem de seus postos de trabalho” quando há imagem clara e incontestável de que o discurso não conteve uma palavra sequer de ameaça e foi aplaudido pelos empregados da autora.
Admitir-se que os fatos narrados na petição inicial em contraposição com prova inconteste são mero exercício do direito de ação é rasgar e tornar letra morta o art. 17, II, do CPC. Incide na espécie a multa de 1% sobre o valor da causa prevista no caput do art. 18, da CPC cumulada com indenização desde logo arbitrada em 20% do valor fixado para a causa, nos precisos termos do art. 18, parágrafo 2º, do CPC.
3.3 - honorários de advogado e assistência judiciária gratuita
Nos precisos termos da Instrução Normativa 27 do C. TST em se tratando de processo que não envolve relação de emprego são devidos honorários de advogado nos termos da regra geral de sucumbência prevista no Código de Processo Civil. A autora é integralmente vencida na demanda.

3.4 - honorários periciais
A autora é vencida no objeto da perícia contábil (En. 236-TST) devendo arcar com os honorários periciais arbitrados em R$ 2500,00.
II – Dispositivo
ISTO POSTO, decide a MM. 4ª Vara do Trabalho de Caxias do Sul, no processo n. 00316-2008-404-04-00-3, proposto por Fras-LE S/A contra Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul, julgar IMPROCEDENTES os pedidos. Condena-se a autora a pagar ao réu: a) multa de 1% incidente sobre o valor fixado para a causa; b) indenização por litigância de má-fé de 20% do valor fixado para a causa; c) honorários de advogado de 20% do valor fixado para a causa; d) honorários periciais arbitrados em R$ 2.500,00. Custas pela autora no importe de R$ 20.617,41, sobre o valor fixado para a causa de R$ R$ 1.030.870,40. Juros e correção monetária na forma da lei. Determina-se a Secretaria que, independente do trânsito em julgado: a) faça duas cópias do DVD que acompanha a petição inicial mantendo uma das cópias permanentemente em Secretaria; b) contate a Secretaria de Informática para que disponibilize diretório seguro para manutenção de uma terceira cópia; c) proceda a juntada da portaria n. 6066 de 28/10/2009, da Corregedoria Regional; d) oficie ao Ministério Público Federal para as providências cabíveis diante da constatação de crime de falso testemunho, encaminhando cópias autenticadas da sentença, das atas de audiência, do laudo pericial contábil, do documento de fl. 234, da manifestação da autora de fl. 264 e do DVD que acompanha a petição inicial. Cumpra-se o demais com o trânsito em julgado. Intimem-se as partes. Não há retenção fiscal e previdenciária. Nada mais.


MAURÍCIO M. MARCA.
Juiz do Trabalho.

NB. A sentenca nos foi encaminhada para divulgacao pelo Dr. Pedro Maurício Pita Machado, advogado em Porto Alegre e em Florianopolis-SC, Email:
pedro@pita.adv.br

(*) Luiz Salvador é Presidente da ABRAT (www.abrat.adv.br), Presidente da ALAL (www.alal.la), Representante Brasileiro no Depto. de Saúde do Trabalhador da JUTRA (www.jutra.org), assessor jurídico da AEPETRO e da ATIVA, membro integrante do corpo técnico do Diap e Secretário Geral da CNDS do Conselho Federal da OAB, e-mail: luizsalv@terra.com.br, site: www.defesadotrabalhador.com.br