Cotas

Foi posto nos trilhos e começou a andar mais um vagão de cotas raciais e sociais, que ontem partiu da Câmara, agora vai para o Senado e o destino final será as Universidades Públicas.
A medida é simpaticíssima e politicamente correta.
Mas, com todo o respeito, é um remendo aplicado por uma sociedade política - e civil também - que não quer - e não quer mesmo - resolver o problema de fundo, que é a brutal desigualdade social e regional, bem medida pelo índice de Gini.
Claro que qualquer crítica que se faça a essas cotas expõe o crítico ao risco de maldição imediata e perpétua. 
Prefiro correr o risco de receber de volta pedras - ou até  uma pedreira inteira  - do que deixar passar essa oportunidade de colocar o dedo na verdadeira ferida, que é a desigualdade social e regional.
As bolsas e cotas são remendos que não dão a solução completa e definitiva para esse problema de fundo, sem a qual continuaremos onde estamos, embora possamos progredir economicamente e posar de BRIC ou membro do G-20.
E como muitos já disseram antes - e por isso mesmo estão ou foram para o ostracismo - nenhuma dessas duas ações afirmativas apontam a porta de saída.
Assim, corremos o risco de perpetuar a desigualdade e seus remendos, as bolsas e as cotas.

Comentários

Excelente post, Alencar.
Vou repercuti-lo no Quinta Emenda, na próxima semana.
Estudamos, neste bimestre do Mestrado, as questões do reconhecimento e da redistribuição, dilemas do pós socialismo, sob as perspectivas liberais e comunitaristas. Um terço dos textos são da área jurídica. Uma interseção entre eles: as políticas afirmativas e redistributivas, como forma de erradicar o mito da democracia racial brasileira.
Grande abs e ótimo final de semaana.
Lafayette disse…
Exatamente, excelente!

Onde assino?
JOSÉ DE ALENCAR disse…
Meus caros Juvêncio e Lafayette.

Obrigado pela leitura, repercussão e, suponho, concordância.
Lafayette, já está assinado.
No local de costume: embaixo.
Bia disse…
Querido Alencar,

cabe-me ser a voz discordante...rsrsrs...mas, em se tratando de você, eu o faço com tranquilidade e carinho.

As cotas raciais foram o fator que maior "comoção" causou na sociedade "anti-racista" brasileira. Não, não é seu caso, em absoluto.

Sua posição vai encontrar a de outros intelectuais ´sérios e respeitáveis, mas que neste caso, cometem um desvio democrático.

´Do meu lado - ou da minha janelinha - não posso entrender a prevalência dos pretos e pardos em todas as cotas negativas da sociedade: a maioria entre os pobres, entre os indigentes ou entre os analfabetos.

Se isso não se deve à forma cruel como abolimos legalmente a escravidão, jogando os negros porta afora da Casa Grande - quando os escravotadas norteamericanos garantiram aos seus libertos 40 acres de terra e uma mula - e por isso devemos as aç~´oes afirmativas como reparação, aí não sei como vamos tratar a desigualdade social escamoteando a intensa desigualdade racial.

Porque ela - a racial - revela-se sempre mesmo quando queremos apenas enxergar o combate à pobreza como a melhor saída. Ela revela-se no atendimento de quinta classe às mulheres negras no número reduzido de consultas pré-natal em relação às mulheres brancas. e aqui, todas são pobgres.

Revela-se na proporção maior de mortes entre bebês menores de um ano, se negros, comparados aos filhos de mulheres brancas.

E, está presente no ínfimpo número de alunos negros na USP (1,5%), onde ainda que não sejam maioria, os estudantes pobres são bem mais do que esta proporção.

Vamos em frente, querido amigo, que a discussão precisa ser aberta, democrática, e você, mais do que a maioria, é o melhor patrono para isso.

Um abraço fraterno.

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