Notícias do Caminho - de Burgos a Hontanas

29 de abril de 2010, quinta-feira. Lá se vao quinze dias caminhando dos Pirineus ao Atlântico, primeiro em direçao ao Sul e logo em direçao ao Oeste, mais ou menos o caminho da Via Láctea.
Cedinho abandonamos o excelente albergue de Burgos, que ano passado recebeu 27 mil peregrinos e este ano deverá receber mais de 30 mil. A silhueta da catedral com suas ponteagudas torres góticas se destaca contra um céu nublado. Nao teremos uma alvorada como a de ontem. Saimos devagarinho, passamos pela porta do Hospital del Rey e pela Universidade. No caminho uma escultura de bronze é homenagem aos peregrinos. Logo atravessamos o rio Alarzon e vamos encontrando peregrinos e caminhantes. Um casal de peregrinos italianos passa correndo. Suponho que terminam etapa aqui, como fizeram muitos europeus, que percorrem o Caminho em muitas etapas. A portuguesa Olinda e seus amigos franceses terminaram etapa aqui também.
Agora, depois de passar pela rotatória de Villalbilla, estamos imersos nas planuras sem fim da meseta burgalesa, percorrendo caminhos de terra entre trigais e desviando de rodovias e ferrovias. Um desses desvio nos leva para baixo de uma ponte que é na verdade um viaduto sobre o Alarzon. Logo tem um túnel. No pilar um pedido de desculpas aos peregrinos pelo desvio que agora fazem para transpor outra vez o rio. É a segunda vez que vejo este pedido de desculpas, que agora consta de alguns guias.
Antes das nove da manha estou em Tardajos. Na entrada da cidadezinha, uma cruz de pedra. Aperto os passos e logo venço um pequeno alto. Agora estou em Rabé de Las Calzadas, onde se uniam duas antigas vias (calzadas) romanas. Paro no bar La Pena, do José Maria. O bar é novo, nao existia em 2007. Meu xará distribuiu ano passao 4.500 medalhinhas de Nossa Senhora das Graças, a Santa protetora de minha mae e de meu pai. Agora é mais conhecida como a Virgem da Medalha Milagrosa. Ganho uma medalinha que amarro na concha que me deu Pablito de Las Varas, em Ázqueta. Conversamos e recebo informaçoes que agora Hontanas está bem servida com um albergue municipal e mais dois privados. Neste trecho do Caminho tem uma prova da sua vitalidade cultural, um museu privado. Agora vou baixando suavemente entre trigais perto das dez da manha estou em Hornillos del Camino, onde já estao outros peregrinos. Descanso um pouco e estiro os músculos. Por telefone aviso meus amigos que vou partir para Hontanas onde chegarei em duas horas mais ou menos.
O Caminho continua pela meseta e seus trigais. De uma visada parece que também foram plantados moinhos de vento, estranhamente parados. Estas turbinas eólicas - a fábrica delas é em Ponferrada - nos acompanham sempre e a cada vez que vejo uma delas fico sem entender como o Brasil ainda nao incluiu a energia eólica na sua matriz energética. Em 2007 caminhamos - eu e Araceli - horas por aqui, esperando por San Bol, que nao chegava nunca. Agora o albergue está mais notório e, dizem, melhor. Logo depois de uma quebrada vejo o alberque. Parece que melhorou mesmo. Mas para quem passa na estrada ele continua escondido na beira do arroio. Agora é mais uma esticada entre trigais e chegarei em Hontanas, que aparece bruscamente, em um pequeno alto onde o Caminho faz uma curva.
É mesmo impressionante como o Caminho revitalizou esta cidadezinha. O albergue municipal fica no antigo hospital de peregrinos de San Juan. Quando cheguei - fui o segundo a chegar - a hospitalera nao estava e havia deixado um aviso para alojar-se e aguardá-la, como é a regra em alguns albergues. Já estava bem alojado quando ela chegou e me atendeu com a reconfortante calma das hospitaleras e hospitaleros do Caminho.
Vou almoçar no El Puntido, mistura de bar, restaurante, albergue e hostal onde fiquei em 2007. O menu do peregrino é lentilha, carne guisada, pao, vinho, água e arroz com leite (arroz doce). O vinho nao vem em uma garrafa qualquer, mas em uma que parece uma galheta, daquelas que se usa nas missas. Faz sentido, pois com o apetite de peregrino é o caso de se comer rezando.
Os peregrinos vao chegando, o albergue e a cidadezinha vai ficando alvoroçada.
A Internet é disputada e um tanto quanto precária.
Agora vou aproveitar o que resta de sol para aguardar meus amigos que caminham em um ritmo próprio.

Comentários

Anônimo disse…
Caro Alencar
Acompanho diariamente sua "magnifica" peregrinação por santiago de compostella
saúde e paz
Abraços
Erick Pedreira
JOSÉ DE ALENCAR disse…
Meu caro amigo Erick,

Obrigado por acompanhar-me aqui.
Desejo muita felicidade e paz para você e sua família e muito êxito para nossa UFPA.

Abraços do

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