Açaí

Na segunda quinzena deste mês de outubro ocorrerá mais uma vindima no vinhedo de Montmartre, em Paris, o único que sobreviveu. Como em Paris tudo é festa - e atração turística - essa vindima é o pretexto para a Fête des Vendages de Montmartre. O vinho produzido - Clos Montmartre (40 euros a garrafa) -  tem renda destinada às obras sociais do bairro.
Aqui em casa, em setembro e outubro, também tem colheita e vinho. Só que de açaí. São mais de quarenta árvores - este ano plantei mais outro tanto, de boa cepa - que estão produzindo cada vez mais e melhor. Todos os anos, na segunda quinzena de setembro e primeira de outubro, fazemos duas colheitas. Este ano serão três, descontadas as cotas das pipiras e dos sabiás. O peconheiro oficial é um jovem comprido como um açaizeiro, o A-ha, que usa peconha feita com folhas de açaí, como manda a tradição. Os caroços são batidos na batedora de açaí do bairro. O vinho é dividido com a vizinhança (pelo menos uma vizinha ajuda na colheita), ritual de comunhão que também ocorre com a fruta-pão (do nosso quintal) e a carambola (da vizinha), como nos velhos e bons tempos. As safras estão cada vez melhores, o gosto está apurando a medida que o açaizal atinge a maturidade. A batedora diz que este ano foi o melhor açaí que ela bateu. Vale dizer, estamos concorrendo como açaí das ilhas. Entre a colheita e a degustação não se passam mais de duas horas. O gosto é autêntico, puro e fresco açaí. Ainda tem açaí para mais uma colheita, que vai coincidir coma de Montmartre.
Quintais com açaizais eram comuns aqui na Guanabara, Município de Ananindeua, Pará, Amazônia, Brasil. Mas a expansão urbana e a especulação imobiliária - como ocorreu em Montmartre - estão acabando com os quintais e açaizais urbanos de Ananindeua. Logo logo sobrará o nosso - meu, da Araceli e de nossos descendentes - e o da Célia Maracajá e Luiz Arnaldo, nossos vizinhos do outro lado da rua.
Quem sabe quando isso acontecer faremos uma Festa do Açaí da Guanabara para financiar as obras sociais do bairro. Até lá talvez consigamos obter Indicação Geográfica (IG) para o açaí da Guanabara. Será um vinho de açaí Guanabara DOC (denominação de origem controlada).
Na vera, é bom que saia logo a prometida Indicação Geográfica do açaí, antes que algum aventureiro lance a mão, pois a idéia de um açaí DOC já foi apropriada por um sítio norteamericano com o mimoso nome de Açaí Berry. Veja aqui: http://www.acaiberrydoc.com/acai-berry/history/.

Comentários

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Prezado Alencar,

Trabalho na Secretaria de Estado de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia - SEDECT/Pa e faço parte da equipe que trabalha, em conjunto com instituições parceiras, como o MAPA e Prefeitura de Igarapé Mirí, na Indicação Geográfica do Produto Açaí do referido município. Espero que tão logo, possamos ter a primeira Indicação geográfica do Estado do Pará, do açaí, um produto que todo paraense gosta. Espero que esse trabalho renda "frutos" e possamos obter o Registro da Indicação Geográfica para outros produtos, como a Indicação Geográfica para o artesanato de Miriti em Abaetetuba, trabalho este desenvolvido em parceria SBRAE/PA e MPEG, com colaboração da SEDECT.
JOSÉ DE ALENCAR disse…
Prezado Alexandre,


Muito obrigado pelo prestígio de sua leitura e pelo seu comentário.
Acompanho os trabalhos da Indicação Geográfica do açaí através da Martha Parry e torço para que ele saia rapidamente. Para meu gosto, está demorando muito.
Entre o momento que o trabalho foi iniciado e o dia de hoje, dezenas ou até centenas de produtos obtiveram a Indicação Geográfica na Europa, que é muito mais avançada - e, presumo, rigorosa - que nós. Eu estive na Espanha em 2007 quando os produtores da região El Bierzo estavam lutando pela Indicação Geográfica de quatro de seus produtos (uma comida, el botillo: http://vimeo.com/9378553; uma pera, um vinho e outro que não me lembro agora). Voltei lá em abril de 2010 e já encontrei muitos com a Indicação Geográfica. Mas lá os produtores contribuem, mantendo inclusive a instituição que faz as pesquisas e certificações, com laboratórios e tudo mais.
Aqui, pelo que sei, não temos essa cultura e ainda é preciso das muletas governamentais.
Espero que seu trabalho e de seus colegas servidores públicos acelere esse processo de Indicação Geográfica.

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