Ushuaia é o Melhor Fim do Mundo do Mundo

Dizem que Ushuaia é o fim do mundo. Mas não é, porque o mundo continua mais ao Sul, até a Antártida Argentina, ultrapassando parte do Chile insular. É como Finisterre, na Galícia, que não era o fim da Terra.
Mas, se o fosse, Ushuaia seria um ótimo fim do mundo.
Por isso mesmo passam por lá todos os anos 400 cruzeiros com gente dos quatro cantos do mundo. Sábado estava no porto o Marco Polo. Alguns desses cruzeiros estão de passagem para a Antártida (que fica a 4.000 dólares de distância daqui, cerca de mil quilômetros). Mais dia menos dia vou lá.
Do Aeroporto - que fica em uma península em pleno Canal de Beagle - vamos para um dos apartamentos das Cabañas Bosques del Sur. Encantador. Toda de madeira, com lareira e tudo mais. Cama king size no mezanino. Da sala ou da cama tem-se uma bela vista do Canal. Do outro lado, o Chile. O sol se põe quase onze horas da noite. E nasce antes das seis da manhã.
Esta é uma cidade com muita história. Não só de fantásticos navegadores, famosos e numerosos naufrágios e faróis do fim do mundo. A mais impressionante é a da prisão, hoje Museu. Um dos Presidentes convenceu o Congresso que uma colônia penal era uma ótima forma de afirmar a soberania argentina neste fim do mundo. Alegou que os franceses haviam feito o mesmo com sucesso na Nova Caledônia e na Argélia e os britânicos na Austrália. Os prisioneiros - o que havia de pior em todos os cantos da Argentina (Gardel inclusive, conforme a lenda) - construíram a prisão e, depois, a própria cidade, que lhes deve os primeiros prédios públicos, ruas, esgotos, rede elétrica, casas e tudo mais. Aqui todos sabem - e quem não sabe aprende no Museu - que a cidade deve muito à prisão que lhe fornecia energia elétrica e serviços os mais variados, de utilidades domésticas à roupas sob medida, de pão a jornal. Isso mesmo, até o primeiro jornal que circulou em Ushuaia era impresso no presídio. E para fazer funcionar isso tudo, precisava de energia, que veio da lenha, extraída dos bosques milenares de lengas, ñires e coihues pelos presos de bom comportamento. E para transportar os presos e a lenha foi construído uma ferrovia. Um trecho restaurado é uma das atrações daqui, o Tren del Fim del Mundo (andei nele, como faz todo mundo que vem aqui). O guia do Museu é uma atração a parte. Sabe tudo sobre a prisão e os presos. E contextualiza na história argentina. Me lembrou os museólogos cubanos. Com guias assim, mesmo a partir de um acervo pequeno conhece-se toda a história de um país e até de um continente. Este de Ushuaia explicou até como a deriva continental havia entortado a Cordilheira dos Andes, que exatamente aqui toma a direção Oeste-Leste.
Navegar no Canal é imperdível, e não só pelo fascínio que é passar por onde antes passaram de Drake a Darwin (aos 23 anos) e Fitz Roy (aos 27 anos), mas também pelos lobos marinhos, cormorões, albatrozes, petréis e pingüins de Magalhães das ilhas do Arquipélago Bridges.
Tirei um dia para visitar os lagos daqui (Escondido e Fagnano) e conhecer as estações de inverno, que além de esqui oferecem passeios de trenó tracionados por huskies e alaskanos que vieram da Antártida quando seu uso foi proibido. Um dos pioneiros era um oficial do Exército Argentino, um visionário que apostou nessa modalidade de turismo. Hoje sua viúva e filhos tocam o negócio. Foi lá que comemos um excelente cordeiro fueguino, assado naqueles asadores criollos que só aqui funcionam (com todo respeito, aquele asador que vejo na vitrine da esquina da Bernal do Couto com Wandenkolk não tem nada a ver).
A propósito, a gastronomia de Ushuaia vale a viagem. Para começar, aqui está um dos seis melhores restaurantes da Argentina, conforme classificação da Academia Argentina de Gastronomia. É o Kaupé(http://www.kaupe.com.ar/home.htm). Que infelizmente não experimentei. Mas fui no Tía Elvira (classificado pela Academia como cozinha de grande qualidade e variedade suficiente) e no Tante Nina (recomendado pela Academia). Neles encontrei o que procurava: centolla e merluza negra. Uns e outras da melhor qualidade e muito bem apresentados. Queria comer uma centolla inteira (aqui ela chega a pesar quase dois quilos), no toc-toc. O garçon - que acabara de atender uma avassaladora onda de turistas de mais um cruzeiro que estava no porto bem à vista - explicou-me gentilmente que não servem mais assim porque emporcalhava os clientes e o ambiente. Perdeu em charme mas ganhou em praticidade. Para compensar, capricharam na apresentação (confiram nas fotos do sítio do Tía Elvira). A carne da centolla - suave, firme, adocicada e com uma bela cor branco-avermelhada - ocupa o centro do prato, vem coberta pela carapaça vermelha e espinhada, com uma pata inteira. Experimentei nos dois restaurantes e gostei. Tanto que repeti a do Tante Nina, a segunda vez sob a forma de ceviche.
Sinceramente, a centolla de Ushuaia vale a viagem. Como acho que vale uma viagem a Belém para tomar um açaí fresquinho, batido na hora, com camarão do Araí e farinha d'água de Bragança. Um dia a gastronomia vai descobrir essa iguaria (como este post não é escrito em inglês, a chance de Anthony Bourdain tomar conhecimento dela é zero).
E por falar em Bragança, depois de dar uma passada no Glaciar Martial aqui em Ushuaia - um filhote de glaciar, comparado com Perito Moreno - voltei para o Aeroporto e 9.000 km depois estava de volta a Belém. Mais 200 km e estou em Bragança. Volto para Belém em seguida. Caminhando. Se tudo correr bem, chego antes do final do mês.
Mas esse é tema para outro post.

Comentários

Romolo Sao Payo disse…
Estou fascinado com seu passeio.

Um "aventuroso" abraco.

Romulo Sampaio
www.eco-logic-systems.com
San Diego ,Ca. - USA
JOSÉ DE ALENCAR disse…
Obrigado, Romolo.

Começo hoje outra viagem, material e espiritual. Leia o próximo blog.
Lafayette disse…
Li no 5ª...

Boa caminhada...

Bom encontro...

Boa caminhada... ao encontro.
Anônimo disse…
Cara, tudo bem? Meu nome é Rodrigo e vou para ushuaia semana que vem. Como vi que vc ficou hospedado exatamente na mesma cabana que eu e meu amado vamos ficar, queria que vc detalhasse um poquinho dela para a gente...pode? Abração.
JOSÉ DE ALENCAR disse…
Meu caro Rodrigo,

Muito obrigado pela leitura e comentário.
Como uma imagem vale por mil palavras, aqui neste link você vai ver uma foto do Cabañas e uma visão do alto pelo Google Earth: http://www.panoramio.com/photo/24582808.
Neste outro link uma foto em detalhe:http://www.google.com/imgres?imgurl=http://www.panoramio.com/photos/original/19020158.jpg&imgrefurl=http://www.panoramio.com/photo/19020158&usg=__LD7Lzia2_KuuK1rvVggornuHkZs=&h=1536&w=2048&sz=920&hl=pt-BR&start=2&sig2=VD3z2ZKeQsEwhoLjbMvAHw&um=1&itbs=1&tbnid=78dhlqpr8_bW3M:&tbnh=113&tbnw=150&prev=/images%3Fq%3DCaba%25C3%25B1as%2BBosques%2Bdel%2BSur%26um%3D1%26hl%3Dpt-BR%26client%3Dgmail%26sa%3DG%26rls%3Dgm%26tbs%3Disch:1&ei=FBsqTNPhKaqJnAezuPXVDg
JOSÉ DE ALENCAR disse…
Rodrigo,

E aqui você vai ver um vídeo com todos os detalhes: http://www.latinguide.tv/esp/ushuaia/hoteles/cabanasdelujo/bosquedelsur.html

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