A Rota da Estrada de Ferro: de Benevides a Belém

No décimo e último dia de caminhada na Rota da Estrada de Ferro de Bragança saio cedinho da antiga estação de Benevides, onde agora - e por enquanto - é o Banco do Cidadão, do Governo do Estado.
Aqui também a avenida manteve a suave curva da ferrovia, até encontrar a rodovia BR-316, na pracinha onde tem o monumento que homenageia a libertação dos escravos de Benevides, que aqui ocorreu muito antes da Lei Áurea.
Benevides foi uma colônia agrícola que antecede à ferrovia, formada por colonos franceses, alguns egressos da Comuna de Paris. Um cônsul da França em Callao, no Peru, desceu o Amazonas até Belém e daqui seguiu para Paris. Visitou os patrícios e registrou no seu livro, publicado anos atrás pela missão salesiana de Iquitos. Assinalou, com fina ironia, que alguns dos egressos eram proprietários de vastas áreas de terra. Jean Hebette, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, pesquisou a criação da colônia e encontrou registros com detalhes da inauguração, na qual não faltou champanhe para o brinde de autoridades e colonos. Lembro disso quando passo na frente da Escola François Begot. A família Begot até hoje é referência obrigatória em Benevides, na política, na iniciativa privada e na administração pública.
Passo por uma casa antiga, com janelas e portas em arco, possivelmente de taipa. Está bem conservada e firme, felizmente.
O igarapé na saída da cidade é mais um que está morrendo e logo vai se tornar uma vala. Mesmo em pleno inverno e com as chuvas que caíram nos últimos dias, o volume de água é pequeno.
Logo chego à pracinha e aprecio o monumento que homenageia a libertação dos escravos em 30 de março de 1884, uma lâmina de concreto vazado onde se distingue um braço elevado ao alto e uma corrente quebrada. Dentro do vão passa uma lâmina ascendente, simbolizando - penso - a liberdade. Benevides foi o segundo lugar do Brasil onde os escravos foram libertados, antes da Lei Áurea, e esse fato é um dos mitos fundantes da cidade, infelizmente pouco valorizado fora dela.
Despeço-me assim dos últimos vestígios do leito da ferrovia, que só vou recuperar - mais ou menos - três quilômetros mais adiante, em Marituba.
Passo pela Polícia Rodoviária Federal e pela Nova Amafrutas, que vive sua segunda morte, depois de ressuscitada com maciças injeções de recursos públicos (Fundo Constitucional do Norte e Governo do Pará). O que dela restou está alugado para a Natura - que pagou adiantado para a cooperativa que a administrava - e está penhorado pela Quarta Vara do Trabalho de Ananindeua. E o terreno está invadido, até onde soube pelos cooperativados, que assim dão um tiro no próprio pé, pois depreciam o valor do imóvel e dificultam sua alienação judicial. A Nova Amafrutas produziu mais verbas publicitárias do que polpa de frutas. E tem potencial para produzir um escândalo de razoável monta.
Logo chego no entroncamento de onde saía o ramal ferroviário para a colônia de Benfica (a composição era tracionada por burros, como lembra Aline Serra, da SETRAN). Além do ramal da Benjamin Constant, de onde parti, também existiram ramais para a Colônia do Prata (o leprosário onde morreu meu avô), esse de Benfica e o de Pinheiro, atual Icoaracy (usado pela família Klautau que ali passava as férias, como relata Afonso Klautau).
O rugido dos carros é a trilha sonora deste último dia de caminhada.
Mais uma pernada e chego ao oásis que é a CEPLAC, onde aproveito para caminhar pelo gramado e aliviar os pés da dureza do asfalto.
Começa a chuviscar e surge no caminho um imenso arco-íris, inteiro, uma boniteza, coisa que não via desde que deixei a Colônia Benjamin Constant, há mais de cinqüenta anos. Na cidade não se vê arco-íris inteiro. E um inteiro assim não cabe no pára-brisas de um carro. Essas bonitezas, me desculpem os motorizados, só se mostram para quem caminha. Aperto o passo, não para buscar o pote de ouro, que em Bragança não se acredita nessas coisas não. É para tentar ver onde nascia esse arco-íris. Era, acreditem, no Cemitério Max Domini. A outra ponta estava escondida em algum lugar por trás da antiga sede campestre do Círculo Militar. Logo desaparece.
Chego a Marituba, onde recupero o leito da antiga ferrovia, que passava ao lado da caixa-d'água, que por ser a mais antiga não é de concreto armado. Mas é muito mais bonita, justiça se lhe faça. O reservatório, que me parece de cobre - a julgar pela durabilidade e pela cor azinhavrada - está intacto. Do outro lado ficavam as oficinas da estrada de ferro, onde hoje é a EMATER. As oficinas eram enormes e nelas trabalhavam muitos operários. Marituba era, na verdade, uma vila operária da ferrovia. Perto da igreja havia casas antigas, sólidas, cobertas de telhas francesas - como as que ainda hoje existem na EMBRAPA, antigo IPEAN - destinadas aos que trabalhavam na ferrovia e nessas oficinas. Nunca entrei nas oficinas, mas já vi fotos dos seus equipamentos (aliás, no Blog do França tem fotos e vídeos muito bons). Os tornos mecânicos eram imensos. Imagine o que era tornear uma roda motriz de uma locomotiva. Essa oficina era o que de mais avançado havia em transporte terrestre e por ela se pode medir o grau de inserção da economia paraense na economia mundial. Muitos dos avanços tecnológicos aqui chegavam rapidamente. Era, bem comparando, como se hoje tivéssemos aqui um TGV francês ou um trem-bala japonês.
Perto do Rio Uriboca, perto de se tornar mais uma vala - daqui por diante os igarapés correm para as bandas do Maguari - há um outro fragmento das oficinas.
Sigo caminhando e mergulho, definitivamente, no caos metropolitano, que dissolve qualquer boa lembrança.
Passo pelo igarapé Pato Macho, canalizado e transformado em reles vala. Relembro, não sem tristeza - e quase raiva a estas alturas - que poucos anos atrás ainda era possível tomar banho (e dar banho em carro) nesse igarapé, que parece ser o limite entre Marituba e Ananindeua.
Continuo e me convenço, definitivamente, que o melhor dístico para um pórtico da Região Metropolitana de Belém é o que Dante pespegou na entrada do Inferno: Deixai toda esperança, ó vós que entrais.
Na rodovia trafega uma modernidade movida a muitos cavalos-força que nos confina em habitáculos refrigerados e peliculados, que nos protegem e defendem do mundo exterior. Mas no acostamento ou ao lado dele trafega nossa Idade Média, com a desvantagem que o lixo medieval era totalmente biodegradável. No caminho vou encontrando plásticos, carniça, dejetos (sólidos, líquidos e gasosos), porcarias metropolitanas, inclusive out doors, muitos, dezenas, centenas deles, que anunciam de aniversários - de futuros candidatos a vereador - a promoção pessoal disfarçada de institucional. Locais destinados socialmente - e legalmente - para o sagrado exercício do direito de ir e vir, a pé ou de ônibus (peruas, vans e quetais) são apropriados na mão grande por vendedores de tudo que possa ser vendido, inclusive passagens de ônibus interestaduais. Não me lembro direito, mas tenho quase certeza que no tempo da estrada de ferro não era esse caos que agora inferniza a vida dos caminhantes que, massacrados, vão se acostumando com essa desgraceira metropolitana. Nessa nossa Idade Média causa mais espanto um caminhante de cajado e boné legionário do que um morador de rua que, desgraçado entre os desgraçados, armou sua precária barraca sobre duas ou três tábuas atravessadas em uma vala. No centenário da estrada de ferro lamento constatar que fracassamos na tarefa de construir uma civilização que mereça o nome e nem mesmo conseguimos construir um projeto de futuro claro como os que tinham os republicanos positivistas, para o bem e para o mal. Mais para este que para aquele, dirão alguns. A julgar pelo resultado, com razão.
Depois da entrada para o Coqueiro a rodovia faz uma grande e suave curva, exatamente como fazia o trem. Chego na esquina de casa, na penúltima - ou segunda, conforme a direção que se caminhe - rua de Ananindeua. Aqui ficava uma granja da família Nassar, que foi comprada por Ruy Meira e transformada em loteamento. Minha casa fica em alguns desses lotes e na escritura ainda consta como referência a ferrovia e a Estrada da Moça Bonita, que hoje serve de limite entre Belém e Ananindeua (e por isso mesmo está se transformando em terra de ninguém). Assim cheguei a Belém, perto do meio-dia de um domingo chuvoso e nublado, como me convinha.
Daí por diante ganhei a companhia de Araceli, medianeira e protetora, que encara os últimos oito quilômetros. No inicio da Avenida Almirante Barroso, antiga Tito Franco, fica o quilômetro zero da rodovia, perto do Conjunto Costa e Silva, onde passamos a caminhar pela direita. Na Bandeira Branca paramos para conferir o Marco da Légua (agora em março a primeira légua patrimonial vai fazer 380 anos).
Antes de uma hora estou em frente ao local onde ficava a velha estação, atual terminal rodoviário.
O estoque de endorfina acumulado em mais de duzentos quilômetros de caminhada e a alegria de chegar ao destino, alcançando a meta no prazo previsto, produzem uma saudável sensação de bem-estar, de felicidade mesmo, que pode estar ao alcance das mãos (e dos pés).
Volto para casa onde me espera a família e uma favada asturiana, com sotaque bragantino, e um tinto espanhol, de Alicante (DOC, por supuesto, como um dia vai ser o vinho de buriti de Bragança).
Termino com a certeza de que mais dia menos dia vou fazer essa caminhada de novo. E não vai demorar.

Comentários

RAULVENTURA disse…
Alencar :
Parabens pela caminhada
E apenas para colaborar com as informacoes sobre o tracado original da ferrovia dentro da area urbana de Belem , os registros imformam que alem do ramal que iniciava em uma estacao localizada na Trav. 16 de novembro com a Almte Tamandare ( onde hoje localiza-se o Hotel de transito do Exercito ) e tinha como trajeto a 16 de novembro , Praça Amazonas , Rua dos Jurunas ( hoje Roberto Camelier ) , Mundurucus , Passagem do Horto , Gentil até a estacao de Sao Braz existia outro ramal que partia do entroncamento sobre o leito da atual Pedro Alvares Cabral chegando aos armazens do cais do Porto .
Inclusive ,em alguns mapas antigos de Belem a atual Pedro Alvares Cabral era chamada de Rua do Trilho.
Alencar,
Esse ultimo post foi uma provocação para os ambientalistas. A morte de igarapés foram inclusive responsável pela polêmica sobre a divisa dos municípios de Belém e Ananindeua. O caos urbano, o lixo não reciclável, os carros que tomam conta de tudo e nos dominam, tudo isso nos faz de fato refletir sobre o que chamamos de civilização.
Parabéns pela caminhada e pelos registros.
JOSÉ DE ALENCAR disse…
Muito obrigado, Raul, pelo comentário e pelas informações.
Cheguei a ver os trilhos da Pedro Álvares Cabral que ligavam a Estação de São Brás com o porto. Flávio Nassar vai me mostrar mapas antigos que registram esse traçado pelo Jurunas, que se ligava ao pátio de manobras por trás do Colégio Augusto Meira. Esse traçado deixou marcar na malha urbana de Belém e isso é objeto da tese de doutorado do Homobono.

Muito obrigado, caríssimo José Carlos.

Acho que nós todos - verdes mais que todos - devemos fazer um esforço grande para defender nossos igarapés, não só por se tratar de parte de um recurso natural importantíssimo neste milênio, a água, mas também pela vertente cultural que eles representam. Igarapés fazem parte da nossa mais profunda identidade cultural. Quando perdemos um igarapé, perdemos duplamente.
Estou convencido que o caminho passa pelos comitês hidrográficos, que simplesmente não vingaram na maior bacia hidrográfica do planeta. Vai ver que por isso mesmo.
Conte comigo para essa luta.
Anônimo disse…
Alencar
Lí , completamente emocionado com o lirismo do teu texto quase fotográfico e entristecido pois junto com os trilhos enterrou-se o tal do futuro que teimou em não vir pra esse país tão lindo e cheio de sapos que morrem inocentes nas estradas e dos outros não tão inocentes que insistem não morrer na política.
Abraços
Tadeu
Alencar,
Fui este final de semana para Araraquara e cruzei 300 km de canaviais e laranjais , cutrales e usinas de açucar ,me lembrei , claro ,do teu texto.Que inveja
JOSÉ DE ALENCAR disse…
Muito obrigado, Tadeu.

Emoção é ler comentário como esse seu, que traduzo assim: vale a pena viver para sentí-la.

Essa retribuição é adicional, para além da própria viagem, no tempo e no espaço.

Sinceramente, recompensa-me provocar esse tipo de comentário.

Por ele fico sabendo que sempre é possível sensibilizar pessoas em defesa da vida.

Muito obrigado, de todo o coração.
Anônimo disse…
Alencar ,
Quem agradece sou eu , já havia me encantado com as descrições precisas e poéticas do Perito Moreno , Ushuaia e Patagonia.
O teu texto honra o nome .
Agora essa caminhada é poesia pura , faça disso um livro , algo a gente possa ter do lado , reler de vez em quando e mesmo quem sabe mostrar logo , logo pros meus pequenos Antonio e Francisco "olha filho isso é o buritizal que o Alencar descreve , aqui passava a ferrovia , este é o igarapé ....", já que em breve quero mostrar a terra natal da vovó Elsa (ela que é amiga da Teresinha mãe do Torquato-uma vez te perguntei algo sobre o teu sobrenome sobre o Julio , não sei se vc lembra)pra eles e teu texto há de ser o guia na nossa aventura.
Um grande abraço
Tadeu
Anônimo disse…
Carissimo Alencar,enquanto tu andas eu leio, re leio, volto a ler.Nao canso.Nao sou tuas pernas.Nada me cansa nessa viagem magica das tuas linhas.
Nada me cansa ao ver a paisagem da EFB pelos vagoes dos teus olhos e da tua imaginacao e com isso me fazeres tambem, uma testemunha dessa historia.
Quando eu for ao Brasil, gostaria de te dar um abraco.
Aventurosamente ,

Romolo Sampaio
www.eco-logic-systems.com
San Diego, California USA
romolosampaio@yahoo.com
JOSÉ DE ALENCAR disse…
Recebam, Tadeu e Romolo, um emocionado e gratíssimo abraço pelas mensagens e pela companhia que me fizeram nestes dias.
Que venho o abraço real, Romolo, na tua vinda ao Brasil.
silvio rosa disse…
Caro alencar.Moro em benevides e assim como vc me fascino pela a historia da EFB , que nao tive o prazer de desfrutar mas hj se tornou nostaugia que infelizmente se perde em meio as matas espero um dia quando vc for fazer esse mesmo trajeto me convide pois assim como muitos sou fã incondicional desse pedaço de historia que se perdeu no tempo e nos ficamos sempre na expectativa que alguem de que tenha o valor de quanto a EFB foi importante para a historia do nosso estado possa ,quem sabe, recupera-la se nao toda pelo menos alguns trechos. Na proxima expediçao me convide por favor tambem quero ter o privilegio de setir essa emoçao
blogdoalencar disse…
Meu caro Sílvio.

Passeio domingo aí em Benevides, de motocicleta. Fotografei a antiga estação e postei no Facebook.
Quando programar uma nova expedição aviso aqui e no Facebook.
Obrigado pela leitura e pelo comentário.

Postagens mais visitadas