Nouriel Roubini

Sou freguês do economista Nouriel Roubini, cuja página na Internet tem um link aí do lado direito deste blog (foi indicação do economista paraense Mário Ribeiro).
Ele previu a crise de dentro do ventre em que estava sendo gerada e, talvez por isso, não foi ouvido.
Agora ele é muito ouvido. Não é tarde demais, mas melhor teria sido se os donos do mundo - pais e mães da crise econômica - tivessem prestado atenção no que ele dizia antes . Mas em tempos de pensamento único e Consenso de Washington, pensamento dissonante era sinônimo de heresia. 
Segue uma esclarecedora entrevista concedida por Roubini à Época.

Nouriel Roubini - O homem que previu o caos 


O economista que antecipou a crise em 2006
diz como ela vai afetar o Brasil e o mundo 



Nouriel: ocupou vários cargos na Secretaria do Tesouro dos EUA. Foi economista-sênior do Conselho de Assessores Econômicos do governo americano no segundo mandato de Bill Clinton (1998-1999) 

José Fucs 

O economista Nouriel Roubini, consultor de empresas e professor da Universidade de Nova York, é um dos poucos profissionais da área que têm um índice de acerto impressionante em suas previsões. Em 2006, quando ninguém falava em quebradeira de bancos, ele provocou risadas na platéia ao prever a atual crise financeira durante uma palestra realizada na sede do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington. Em fevereiro, previu também a quebra do Bear Stearns, banco de investimento americano, e de outras instituições financeiras. O New York Times dedicou, em agosto, diversas páginas de sua revista dominical a uma reportagem sobre Roubini, chamado pelo jornal de "o visionário que viu a crise chegando". 

Nascido em Istambul numa família de judeus iranianos, Roubini, de 51 anos, está hoje radicado nos Estados Unidos. Ele se transformou numa figura indispensável ao debate econômico. De repente, todos querem ouvir o que Roubini tem a dizer. Mas poucos conseguem chegar até ele. Na semana passada, ÉPOCA aproveitou uma brecha na agenda de Roubini, antes de um encontro que tinha marcado com a senadora americana Hillary Clinton, em Nova York, onde ele vive. Roubini falou sobre o impacto da crise atual na economia global e previu que ela vai durar, no mínimo, até meados de 2009. 

QUEM É 
Professor de Economia da Universidade de Nova York e sócio da consultoria RGE Monitor. Obteve o ph.D. na Universidade Harvard, sob orientação do economista Jeffrey Sachs

O QUE FEZ 
Ocupou vários cargos na Secretaria do Tesouro dos EUA. Foi economista-sênior do Conselho de Assessores Econômicos do governo americano no segundo mandato de Bill Clinton (1998-1999)

O QUE PUBLICOU 
É autor de diversos livros, entre eles Bailouts or Bail-ins?Responding to Financial Crises in Emerging Economies e International Financial Crises and the New International Financial Architecture , ambos sem tradução em português 

ÉPOCA – O senhor antecipou a atual crise e tem sido muito preciso em suas previsões econômicas. O que o senhor viu no passado recente que os outros não viram? 
Nouriel Roubini
 – Minha experiência e meu conhecimento da história econômica e das crises financeiras em países emergentes, além de meu contato com o mercado financeiro, me permitiram montar o quebra-cabeça e perceber que haveria uma severa crise financeira. Em geral, no mercado financeiro há muita ilusão. As pessoas são excessivamente otimistas. As autoridades também tendem a ser sempre cautelosas no que dizem. E os economistas que trabalham para instituições financeiras não costumam reconhecer os riscos que existem à frente. Quando há uma bolha, as pessoas dizem: "Bom, esse é um novo mundo e as coisas serão diferentes". Acreditam que as coisas são sustentáveis, mesmo quando não são. É preciso ser um economista independente para reconhecer que o rei está nu. 

ÉPOCA – Com base em que indicadores o senhor se deu conta de que havia uma crise em gestação? 
Roubini
 – Há dois anos, quando comecei a falar sobre o risco de haver uma crise no mercado imobiliário, vi excessos, como a multiplicação dos preços dos imóveis por dois em apenas dez anos. Isso não me parecia justificável. Eu me dei conta de que havia uma bolha no mercado de crédito de forma geral, pouco rigor para a concessão de empréstimos e percebi que o consumidor americano estava excessivamente endividado. Aí, cheguei à conclusão de que uma crise no mercado imobiliário levaria a outra nas empresas de crédito imobiliário e que isso, somado a uma alta nos preços do petróleo e de outras fontes de energia, jogaria a economia numa recessão e poria o mercado financeiro numa crise séria. Já vimos isso acontecer várias vezes antes, tanto nos EUA como em outros países. Então, era só uma questão de unir os pontos e perceber que isso era insustentável e levaria a uma crise financeira. 

ÉPOCA – Esta crise é tão grave assim quanto parece? O mundo está mesmo derretendo? 
Roubini
 – O mundo pode não estar derretendo, apesar de, nas últimas duas semanas, termos chegado perto de um derretimento do setor financeiro. Mas essa crise certamente é a pior que os EUA e os países desenvolvidos viveram desde a Grande Depressão, em 1929. A crise não deverá ser tão severa como a Grande Depressão, em que houve um encolhimento de 20% ou mais na economia. Mas, mesmo que haja uma recessão e uma crise bancária que durem dois anos, será muito mais séria e longa que qualquer outra crise nos últimos 40 ou 50 anos. 

ÉPOCA – Quanto tempo o senhor acha que vai durar a crise? 
Roubini
 – Se você imaginar que ela começou em janeiro deste ano, vai durar no mínimo até meados do ano que vem, talvez até o final de 2009. Isso significa duas vezes mais que a média das recessões americanas. Também não vamos encontrar uma solução para a crise bancária nos próximos meses. Isso vai se arrastar por dois anos. Muitos bancos ainda vão quebrar. Depois, vamos ter de "limpar" o sistema bancário, mudar algumas normas regulatórias, aumentar a supervisão dos bancos. Isso se as autoridades dos EUA não cometerem os mesmos erros que ocorreram no Japão, quando eles viveram uma bolha na Bolsa de Valores e no mercado imobiliário. Lá, acabaram jogando o país numa estagnação que durou vários anos. 

ÉPOCA – Qual será o efeito da crise americana na economia global? 
Roubini 
– É uma grande incógnita, porque seis meses atrás diziam que só os EUA entrariam em recessão. Só que agora os últimos dados sugerem que quase todos os países desenvolvidos estão entrando em recessão – a zona do euro, a Grã-Bretanha, o resto da Europa, o Canadá, a Nova Zelândia, o Japão. No momento, esses países, que representam cerca de 50% do Produto Interno Bruto ( PIB ) global, estão em retração econômica. 

ÉPOCA – Qual é o risco de a recessão chegar a países emergentes como o Brasil? 
Roubini
 – Não sabemos se essas economias farão uma aterrissagem brusca. Mas, considerando o que está acontecendo nos EUA e na Europa, o risco de que os mercados emergentes enfrentem uma aterrissagem brusca e de entrarmos numa recessão global está aumentando. 

ÉPOCA – De quem é a culpa pela crise? 
Roubini
 – Há muitos culpados. Houve muita ganância e, em Wall Street, houve uma tolerância exagerada com o risco, tanto entre bancos e operadores quanto entre investidores. Os investidores finais também têm sua parcela de culpa, porque não fizeram a lição de casa. Além disso, as autoridades reguladoras americanas ajudaram a girar a roda. Tinham a ideologia do laissez-faire, do mercado livre, da auto-regulação – ou seja, de não-regulação. Confiavam apenas nos controles internos dos bancos e esqueciam que, quando a música está tocando e todo mundo está dançando, ninguém presta atenção nisso. Deixaram o monstro da inovação financeira crescer sem supervisão adequada. Em cima disso, é preciso levar em conta que as agências de classificação de risco deram notas altas aos bancos envolvidos com operações arriscadas no mercado imobiliário, mas eram pagas pelos mesmos clientes que tinham de avaliar. 

"
Quando a música está tocando e todo mundo está dançando, ninguém presta atenção no controle do risco" 

ÉPOCA – O senhor acredita que esta crise possa representar o fim da hegemonia econômica americana no mundo? 
Roubini
 – Certamente há uma mudança em andamento, mesmo antes da crise, no poder econômico global. As economias grandes em tamanho e população estão crescendo muito rápido. Com a ascensão dos Brics (sigla que designa Brasil, Rússia, Índia e China, as quatro maiores economias emergentes) e de outros países em desenvolvimento, além do surgimento da Europa como uma união econômica e política, o poder americano já estava em declínio. Agora, a crise pode acelerá-lo. É, sim, o início do fim do império americano. 

ÉPOCA – Como o senhor analisa o plano do governo de injetar US$ 700 bilhões no sistema financeiro? 
Roubini
 – Ele não foi bem elaborado. Resolve apenas a questão financeira, que é só um aspecto do problema. Há outras coisas importantes que qualquer plano do gênero precisa ter – e esse não tem. Uma delas é distinguir os bancos insolventes, que devem ser fechados, daqueles que ainda têm chances de sobreviver e devem ser resgatados. É preciso separar as maçãs podres das maçãs boas, senão as podres acabam contaminando as boas. Outro aspecto importante é recapitalizar os bancos com dinheiro público e também privado, para que eles possam ter capital suficiente para recomeçar a conceder empréstimos. 

ÉPOCA – Qual deve ser o prejuízo total do sistema financeiro com esta crise? 
Roubini
 – Estimo que as perdas vão ser de, no mínimo, US$ 1 trilhão, mais provavelmente US$ 2 trilhões, porque esta crise não está só relacionada ao crédito imobiliário. Envolve também imóveis comerciais, cartões de crédito, financiamento de veículos, financiamentos com lastro imobiliário que nunca deveriam ter acontecido, títulos municipais – muitos governos municipais vão quebrar – e de empresas. Havia uma bolha de crédito generalizada que está estourando. Centenas de pequenos bancos americanos ainda podem quebrar. 

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