O Fim da Europa

Boaventura de Sousa Santos, de seu privilegiado observatório em Coimbra, a meio caminho entre a Europa e o Atlântico que nos une e separa, faz um prognóstico sombrio.
Depois de afirmar que um terremoto está a assolar a Europa, referindo-se a esse diferente pedaço do mundo assentado na combinação virtuosa entre elevados níveis de produtividade e elevados níveis de proteção social, entre uma burguesia comedidamente rica e uma classe média comedidamente média ou remediada; na eficácia de serviços públicos universais; na consagração de um direito de trabalho que, por reconhecer a vulnerabilidade do trabalhador individual frente ao patrão, confere níveis de proteção de direitos superiores aos que são típicos no direito civil; no acolhimento de emigrantes baseado no reconhecimento da sua contribuição para o desenvolvimento europeu, e das suas aspirações à plena cidadania com respeito pelas diferenças culturais, anuncia a destruição desse modelo.
Acusa - o termo é esse - as instituições da própria União Européia e da OCDE como autores dessa destruição que está no seu início. E dá como exemplos a
directiva européia que permite o alargamento da semana de trabalho até às 65 horas - chamada Diretiva de Retorno, aprovada pelo Parlamento Europeu, que permite a detenção de imigrantes sem documentados até dezoito meses, incluindo crianças, o que virtualmente cria o delito de imigração - e as alterações ao Código do Trabalho de Portugal cujos principais objectivos são: baixar os níveis de proteção ao trabalhador consagrados no direito do trabalho, já de si baixos pelos níveis de violação consentida; transformar o tempo de trabalho num banco de horas gerido segundo as conveniências da produção por maiores que sejam as inconveniências causadas ao trabalhador e à sua família e com o objetivo de eliminar o pagamento das horas extraordinárias; desarticular o movimento sindical através da possibilidade da adesão individual às convenções coletivas por parte de trabalhadores não sindicalizados, o que objetivamente abre as portas a todo o sindicalismo dependente e de conveniência.
E, para arrematar, sustenta que a Europa copia dos Estados Unidos as iniciativas que são a raiz e causas do declínio da hegemonia norte-americana, fortemente acentuado nas duas últimas décadas, acusando também que o fim de um sindicalismo independente e o agravamento caótico do protesto social interessa exclusivamente ao Clube dos Bilionários, os 1125 indivíduos cuja riqueza é igual ao produto interno bruto dos países onde vive 59% da população mundial.

Comentários

Alan Lemos disse…
Que triste. Já não bastasse o provincianismo financeiro que os países mais ricos do continente impõem a Portugal, isso.

Esse é mais um exemplo do que o interesse da construção do "micro" realmente pode desarticular o "macro".

Quando fui à Europa, vi apenas dois mendigos, as casas mais humildes poderiam ser comparadas com as da "classe média-média" brasileira; esse ano minha família foi a Nova York e viu ao vivo as favelas de lá: 20% da população de NY vive na miséria. Esse é um exemplo de que na Europa o respeito ao ser humano (ainda) é mais valorizado que nos E.U.A.

Gostei da descrição sobre a Europa, bem lúcida.

Abraços
JOSÉ DE ALENCAR disse…
Obrigado, Alan.

Boaventura sabe do que fala.

Espero que os europeus ouçam-no e mudem a prosa enquanto é cedo.

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