Ja pensou um bar de tapas com as iguarias paraenses.
Para inspirar os apreciadores, esta e a vitrine de um bar de tapas daqui de Madrid.
Ágora virtual para debater democracia, trabalho, desenvolvimento humano e temas transversais, com foco e interesse preponderante na Pan-Amazônia, Brasil, Pará e Belém. Autorizada a transcrição, total ou parcial, com ou sem crédito, das matérias assinadas pelo titular (copyleft).
Segunda-feira, Maio 24, 2010
Mercado de Sao Bras
Desde que foi desativado como mercado, o Mercado de Sao Bras tornou-se uma alma penada, que nao encontra seu destino.
Acho que esta na hora dele voltar a ser o que sempre foi, mercado. E preciso que a alma reencontre seu corpo.
Nao um mercado qualquer.
Mas um mercado como o Mercado de San Miguel, aqui de Madrid.
Clique aqui para ver como e.
Interventor
O Banco Central decretou intervencao no banco da Igreja Catolica.
Calma.
Foi aqui na Espanha.
Calma.
Foi aqui na Espanha.
Sexta-feira, Maio 21, 2010
Lula en su tinta
Depois de trinta e tantos dias caminhando e pouco lendo jornais ou vendo televisao, fiquei descolado do mundo, pero no mucho, pois sempre que podia passava pelos blogs e me atualizava das coisas do Brasil e do Pará.
Agora estou em Zamora, em Castilla y León, pertinho de Bragança (a de Portugal, bem entendido).
E fui chegando dia 19 passado, quarta-feira, e pegando uma overdose de televisao. E advinha de quem: dele, Lula, o cara, en su tinta.
Dois canais - um deles a CNN - cobriram um evento promovido pelo El País e pelo Valor Econômico (isso mesmo), onde Lula deitou falaçao, de improviso, assim com jeitao de quem papeava com Felipe Gonzalez - que estava na platéia, depois de ter apresentado o cara ao distinto público - e pinta de estadista, quase dono de uma boa parte do mundo. O espaço que lhe foi concedido seria simplesmente impensável ma mídia - TV principalmente - brasileira, nem na TV estatal (pois iriam dizer que era chapabranquismo). Saiu ao vivo e praticamente na íntegra. E repetiu diversas vezes na CNN, ao longo do dia.
Depois vieram os comentários, no mesmo dia, e nos dias seguintes. Muitos.
A mídia brasileira, com aquele complexo de vira-latas rodrigueano, pelo que pude ver pelo blog do Noblat e outras fontes, nao achou grande coisa o acordo Brasil-Ira-Turquia.
Sinto muito decepcioná-los, mas a mídia espanhola derramou-se em mesuras para o feito, nao de Lula, mas da diplomacia brasileira. Mas era inevitável fazer referências ao cara. Um comentarista foi bem claro: o beicinho que fizeram chefes de estado, de governo e chanceleres - inclusive Hilary Clinton - é dor de cotovelo. Isso mesmo, dor de cotovelo. E a explicaçao desses analistas é simples: depois do fim do mundo bipolar da Guerra Fria, a bola da vez é o mundo unipolar da hegemonia norte-americana. A onda agora é um mundo multipolar, onde China, Índia, Rússia e Brasil - os BRICs - também cantam de galo. E nesse mundo multipolar lances como esse se tornam possíveis e o máximo que Hilary pode fazer é muxoxos, embora que acompanhados pela mídia brasileira com complexo de vira-latas.
O caso, portanto, nao é para cair de joelhos diante desse novo semideus diante do qual a Europa mais uma vez se curva, mas é para se render à evidência que neste mundao em crise quem vai escapando dela com algum crescimento - caso do Brasil, conforme previsao divulgada ontem - e com muito crescimento - caso da China e da Índia - começa a dar as cartas.
Só isso.
O que nao é pouco.
Quarta-feira, Maio 19, 2010
Notícias do Caminho - de Olveiroa a Finisterre
18 de maio de 2010, terça-feira. Mais uma vez saímos cedo do albergue para enfrentar os 35 km até Finisterre (mais três quilômetros até o farol, ida e volta, caminharemos 41 km hoje). A lanterna nos poe no rumo certo e o sol logo aparece. Os montes nao nos deixam contemplar o nascer do sol, que apenas advinhamos. Logo o céu está azul e a luz dourada banha a paisagem. Contra o fundo desse profundo céu azul da manha se recortam dezenas de moinhos de vento, que vistos assim pela manha parecem espalhados caprichosamente por crianças nos todos dos montes. É uma forma limpa e bonita de produzir energia elétrica, que aqui na Espanha convive com a feiura das termelétricas, inclusive a de Hospital, que logo alcançamos. No bar o aviso: este é o último nos próximos 15 km. Nao é aviso, é ameaça. Tomamos café e chocolate com biscocho (na verdade, um bolo forte de trigo). E caminhamos 15 km pelo sobe e desde dos montes passando apenas por ermidas (de Nossa Senhora das Neves e de San Pedro Mártir).
Logo aparece uma nesga de mar à nossa esquerda, escondido na névoa. E numa quebrada, conseguimos divisar o cabo de Finisterre na linha do horizonte, com Ceé e Corcubión no meio. A trilha sobre as pedras montanha abaixo nos leva a Ceé, uma linda cidade que ocupa os dois lados de uma enseada comprida. Corcubión é conurbada. A verdade é que as duas ocupam as encostas de um cabo, que vamos agora subir, apreciando a paisagem pelo lado oposto. Vencemos a encosta e logo baixamos para atravessar a estrada e chegar a praia de Estorde. Uma praia minúscula, mas praia. Tinha até onda. A paisagem do Caminho agora é outra, completamente difrente. Depois de trinta e tantos dias de montanhas, planuras e bosques, a vista do mar é estimulante.
Mais uma subida e uma baixada e estamos em Sardinheira de Abaixo. Aqui, exatamente aqui, em 2007 nos começamos a ser guiados por um cao, um perro, o Jorge (relatei isso aqui mesmo no blog). Esperei por Jorge, mas ele nao apareceu. Caminhamos pela praia e pelo parque costeiro. Desta vez fomos acompanhados por um peregrino alemao que falava no deu idioma - que nao compreendo - e indagava de onde eu vinha e se ia para o albergue. Disse que sim e caminhamos juntos até o albergue.
Andamos pela beira-mar até quase junto do porto, onde fica o albergue. Nos atendeu Ana (Begonia, que nos atendeu em 2007, estava lá, cuidando de outros afazeres). Ana nao aceitou o alemao, porque ele nao caminhara o percurso inteiro e indicou-lhe albergues privados. Quando ela nos atendeu, perguntei por Jorge e ela disse que agora seu dono o mantém preso, para que ele nao guie mais os peregrinos. Fiquei triste.
Nos acomodamos, tomamos banho e fomos para o porto almoçar. De uma sacada, um grito familiar nos chama: é Angela, que estava se preparando para voltar para Santiago de ônibus. Com muita alegria nos reencontramos. Ela agora segue para a Italia, para um casamento. Fizemos a última foto e nos despedimos.
Quando chegamos no restaurante no Porto outra surpresa: reencontramos Sérgio, que chegara a Santiago ontem e resolvera passar o dia em Finisterre, onde chegara de ônibus.
Pedi uma porçao de percebes, a iguaria desta regiao e uma garrafa de vinho branco jovem para acompanhar. Nao se impressionem. É um crustáceo delicioso. E este aqui é simplesmente o melhor do mundo. Nao perderia uma experiência dessa por nada. Já o polvo nao estava lá grande coisa. Depois do polvo do Ezequiel, todos os outros parecem quando muito mais ou menos. Foi o caso.
Decidimos ir ao farol caminhando o mais rápido possível para voltar a tempo de tomar o ônibus de volta para Santiago. Sérgio, um verdadeiro coelho, vai na frente e puxa o pelotao.
Chegar ao fim do mundo dos antigos é uma experiência rara e única. Sei que nem todos peregrinos vem aqui, mas para mim é como se o Caminho ficasse incompleto. Aqui é o lugar onde ainda hoje as pessoas queimam uma peça de roupa, em um ritual algo pagao, é certo, mas que representa o renascimento, o surgimento de um homem novo. Porque é isso mesmo. Queimando ou nao as vestes, quem faz o Caminho se renova. O Caminho é um imenso rio de Heráclito em que se banham milhares todos os anos, há séculos, sempre se renovando. Esta é a sensaçao que tenho aqui neste cabo que - sei bem disso - aponta para o Sul e nao é o extremo continental da Europa (que fica no cabo Roca, em Portugal). Mas só aqui tem essa magia milenar que nos renova.
Voltamos e Sérgio fica, para esperar o por do sol. Para nós nao vai dar.
Na volta reencontro Paul, o rumeno-alemao que caminhava mais ou menos junto conosco. Ficamos alegres pelo reencontro de despedida. Ainda o vejo mais uma vez quando já estava no ônibus.
O percurso de volta foi pelo litoral recortadíssimo da Galícia. Foram três horas de paisagens lindíssimas, com cidadezinhas encantadoras na beira do mar, até chegar em Santiago a tempo de voltar ao mesmo albergue Acuario, onde César mais uma vez nos acolheu, com muita alegria, inclusive porque ele havia lido o agradecimento que deixara no Livro de Peregrinos para ele e para Luzia.
Assim termino meu Caminho de 2010.
Mas este nao é um ponto final, mas sim um ponto em seguida.
Pois encerro estas notícias dizendo, com sincera alegria: voltarei.
Notícias do Caminho - de Negreira a Olveiroa
17 de maio de 2010, segunda-feira. Acordamos muito cedo e saímos ainda no escuro, usando a lanterna para encontrar as setas e os marcos (mojones). A alvorada fica nas nossas costas, mas sempre me volto um intante para ter a felicidade de ver o sol lentamente tingir de vermelho a linha do horizonte. É um momento mágico, pois ainda há estrelas no céu e uma delas aponta para o Ocidente, rumo a Finisterre. Logo as flores sao banhadas por um sol avermelhado e depois dourado mesmo. Os avioes deixam um risco avermelhado no ceu. Mas logo o risco é branco contra um imenso céu azul da primavera galega. Nossas sombras compridas agora estao à nossa esquerda, mas logo o rumo é corrigido e elas ficam a nossa frente, onde deveriam estar. Continuamos em um regiao leiteira, mas nas partes mais inclinadas dos montes existem bosques de eucalipto e pinho. A paisagem vai mudando e pressentimos a proximidade do mar. Os hórreos se sucedem, cada um mais caprichoso que o outro. Eles sao o grande marco da arquitetura rural da Galícia e até os abrigos das paradas de ônibus tem forma de hórreos (ou espigueira, como se diz em Portugal). As aldeias tem nomes sonoramente galegos: Zas, Rapote, Portocamino, Vilaserio, Cornado, Maronas, Bon Xesus, Gueima, Vilar de Castro, Lago, Portelinas, Abeleiroas e Ponteolveira (onde tem um modernoso restaurante de beira de estrada, logo depois da ponte).
Depois de uma da tarde chegamos ao albergue de Olveiroa, que ainda está fechado.
Colocamos nossas mochilas na fila e nos alongamos. Logo chega Puri, hospitalera, a mesma que nos atendeu em 2007, com um pouco mais de idade.
Ao ver minha credencial ela simplesmente me reconhece e pergunta por Araceli. Impressionante. Expliquei que Araceli nao pode vir e eu estou caminhando também por ela. Puri me dá um postal, como fez com todos os peregrinos, que peço para ela fazer uma dedicatória para Araceli, o que ela fez com suave alegria. Fomos os últimos e ela foi procurar camas baixas para nós. Disse que se nao tivesse, ela ia me colocar na cama para portadores de necessidades especiais porque eu estava doente do coraçao...
Coisas do Caminho. Que fazem-no simplesmente inesquecível e uma vivência única.
Vamos ao restaurante As Pias, onde estivemos em 2007. Reencontro Paco, o jovem proprietário. Pergunto pelo seu filhinho, Mateo. Ele diz que Mateo cresceu muito. O restaurante agora tem bar, terraço e uma pensao rural. Que bom! É o Caminho fazendo milagres econômicos, pois Olveiroa nao deve ter mais que cinquenta habitantes e este restaurante faria bonito em Belém ou qualquer das nossas capitais. Perguntei se ele tinha carrilheira (bochecha da vaca). Nao tinha. Saiu do cardápio. Mas o menu era caldo galego e cocido galego, com um vinho jovem. A sobremesa é uma torta caseira de abacaxi. De brinde, um chupìto de Orujo seco (licor). Imperdíveis. Voltarei ao Caminho também por isso.
Meu companheiro de Caminho gostou da salada. Voltei no jantar para experimentar. Além do atum, Paco incrementou com um cinco boqueirones. Estav imperdível e me deu certeza de que assim alimentado do corpo e da alma chegarei amanha a Finisterre, 35 km mais adiante.
Volto para o albergue e fico frustrado por nao reencontrar a hospitalera Puri.
Mas soube que reapareceu Aranya, uma escritora coreana que vive na Índia. E o casal de peregrinos de Florianópolis também chegara. Dividimos outra vez o álcool de romero e indicamos o restaurante do Paco.
E dormi na paz do albergue que, picaresca a parte, é outra vivência importantíssima do Caminho.
A verdade é que a cada quilômetro que me aproximo de Finisterre vou ficando com saudade e vontade de voltar.
Hoje tive a certeza que voltarei. Muitas vezes.
Notícias do Caminho - de Santiago a Negreira
16 de maio de 2010, domingo. Acordei cedo como sempre, mas saí do albergue um pouco mais tarde que de costume, umas sete horas da manha fria, mas sem chuva e com cara de que ia fazer bom tempo. Fomos para o Obradoiro e nao havia ainda muito movimento. O lixo se acumulava por todas as partes, pois a greve dos garis continua. Encontramos o padre que rege o coral da Catedral e ele nos deu as boas-vindas, que aceitamos. Nunca é demais ser bem-vindo e aqui a idéia é essa mesmo: acolher bem o peregrino. A praça estava cheia de cavaleiros e alguns poucos peregrinos. A festa aqui é das letras galegas e por isso as coisas vao ser animadas. Estao animadas desde ontem. Mas temos que seguir e depois de passarmos pela frente do Hostal de Los Reyes Católicos nos encaminhamos para a saída da cidade. Sei que tenho de passar pela Carballera de San Lorenzo, mas a rua está em obras e me atrapalho. Uma senhora grita da sacada que esto no rumo certo. É sempre assim no Caminho: na hora da dúvida sempre tem quem aponte a direçao correta, seja uma pessoa, seja uma seta garatujada por maos anônimas, seja um milladoiro iniciado por outro peregrino que também teve dúvida antes.
Na Carballera encontramos mais cavaleiros, que já haviam feito o caminho de volta de Finisterre. Mais adiante encontramos alguns que ainda iam para Finisterre.
Logo estamos enfiados no bosque de eucalipto que foi incendiado em 2006 e em abril de 2007 quando eu e Araceli passamos aqui ainda dava para sentir na manha fria o cheiro da essência de eucalipto queimada. Agora a natureza fez sua parte e o bosque já rebrotou. As árvores tem as marcas do incêndio, mas a vida venceu e o cheiro bom continua.
Pode parecer estranho que se queira prosseguir para Finisterre, depois de chegar a Santiago. Mas a mim agrada muito esse caminho adicional, que sei ser um caminho pagao, associado a ritos de fertilidade muito antigos. Por isso mesmo este pedaço do Caminho nao é, digamos assim, oficial. Nao pertence ao Itinerário Cultural Europeu e a Igreja nao o prestigia. Mas a Xunta de Galicia sim. Por isso mesmo emite uma credencial e fornece uma Finisterrana para quem caminha até Finisterre.
Voltamos à Galícia rural, das vacas e estábulos. Aqui nessa parte o feno está sendo colhido. Tudo mecanizado. Um implemento corta e depois de murchado uns dias é recolhido e enfardado em rolo por outro implemento. Um outro plastifica e ficam asqueles imensos rolos pretos ou brancos para alimentar as vaquinhas o ano inteiro. Galpao com silo aqui nao tem frango, como no nosso Pará, tem vaca. Vacas silenciosas que se deixan ordenhar pacientemente. Todos produtores de leite tem seu tanque de resfriamento e o caminhao leiteiro é companhia certa pela manha.
A greve dos garis afetou também a coleta ao longo destas cidadezinhas. Encontramos pelo menos um conteiner de lixo incendiado. A Xunta acusa os grevistas pelo vandalismo. O líder sindicalista nao assume o delito e diz que nao está de acordo com isso. Sabe como é.
O sol forte nos faz retirar camadas de roupa e passar protetor solar. Para minha surpresa, tem muitos peregrinos no Caminho.
Nesta etapa aparecem muitos hórreos, alguns verdadeiras obras de engenharia, pois as pedras sao equilibradas uma sobre as outras sem uso de cimento. É pura física e bom uso da lei da gravidade. A primavera encheu o Caminho e as casas de flores, silvestres cultivadas. Antes da uma da tarde passamos em Ponte Maceira, depois de passar por aldeias tipicamente galegas como Carballal, Sarela de Abaixo, Quintans, Lombao, Susavila, Augapesada (ou Aguapesada) e por aí afora. Logo passamos por Burgueiros e Barca e chegamos ao nosso destino, Negreira.
Passamos a cidade toda, que neste domingo já está na hora da siesta. A feira dominical já está sendo desmontada, na pracinha com a comovente escultura do imigrante que parte e é seguro pelo filhinho pelas calças, enquanto a mae fica chorando com outra criança no colo. Lembrança dos tempos ruins que fizeram os galegos se espalharem pelo mundo inteiro, em uma impressionante diáspora. Em Ushuaia, cidade mais austral da Argentina, uma outra escultura celebra esses galegos imigrantes. E em Finisterre também há outra com esse mesmo mote.
A hospitalera que nos atendeu em 2007 aposentou e agora somos atendido pela simpática Rosário (Xaro).
Reencontramos Angela, a californiana que vive em Chicago e trablha na Universidade de Notre Dame e ficamos alegres por isso, pois fazia alguns dias que nao nos encontrávamos. A alegria desses reencontros respondem por boa parte da felicidade que é fazer o Caminho. Almoçamos juntos e para isso tivemos que retornar à cidade. O supermercado fechara. Voltamos ao albergue de maos abanando. Por sorte, logo passou o padeiro de quem compramos o jantar e o café da manha.
Encontramos um casal de peregrinos brasileiros, de Florianópolis, com quem compartilhamos o álcool de romero e uma pomada relaxante da Compeed que herdamos da nossa amiga peregrina de Belém, que a esta altura já estava em Genebra.
O albergue lotou e muitos tiverm que buscar alternativas nos albergues da cidade ou seguir mais adiante, de taxi.
Descansamos desde cedo porque amanha caminharemos um longo trecho de 33 km até Olveiroa.
O albergue fica na saída da cidade
Sábado, Maio 15, 2010
Notícias do Caminho - de Pedrouzo a Santiago de Compostela
15 de maio de 2010, sábado. Acordo mais cedo neste sábado. A ansiedade me desperta antes do IPhone. Santiago, peregrino de Cáceres que vive em Barcelona me devolve na penunbra o guia que emprestara ontem à noite para ele. Ele sabe que vou sair cedo para dar tempo de assistir a Missa dos Peregrinos. Nos despedimos e vou cuidar das coisas. Já dormi com os pés preparados com Compeed - outro bom amigo do peregrino - e com as meias, para nao perder tempo. Está escuro e faz frio. Faço o alongamento ainda dentro do albergue e saímos juntos eu, o peregrino de Belém - sua irma deve ter chegado ontem a Santiago - e um casal jovem.
Na entrada do bosque de eucaliptos que vencemos três anos atrás com a luz dos celulares, duas jovens esperam quem tenha lanterna para guiá-las. Entramos errado na trilha, mas a lanterna ajuda a encontrar o rumo. Caminhamos todo o bosque e quando saímos dele bem lá adiante, já avistamos as luzes do Aeroporto de Labacolla, que atende Santiago de Compostela (seu movimento este ano cresceu mais do que o de Ibiza). Faz frio - algo como 11 a 12 graus - mas nao chove e essa é a novidade boa. Logo estamos costeando o alambrado do aeroporto, passando junto às torres das luzes de aproximaçao. Oito horas da manha estamos em Labacolla. Já vencemos nove dos vinte quilômetros que caminharemos hoje.
Mais uma hora de caminhada e chegamos a San Marcos. Passávamos em frente à televisao da Galícia quando nossa amiga peregrina ligou para dizer que chegara ontem por volta de dez da noite e marcamos encontro no Obradoiro. Logo aparece a escultura que marca a visita do Papa Joao Paulo II no Monte do Gozo, entrevista à distância. Antes das nove já estamos exatamente aí, onde paramos para fotografar este monumento horroroso, pelo menos para meu gosto. Antigamente os peregrinos entravam em êxtase quando chegavam aqui e avistavam as torres da catedral. Compreendo. A quantidade de endorfinas acumuladas deveria produzir esse efeito. Mas agora, diante desse horrendo cometimento artístico, nao há extase que resista. E, além disso, nao dá mais para ver as torres, escondidas por um bosque de reflorestamento.
Mas este monumento marca também um megacomplexo turístico religioso, com centro de convençoes, hotel, bungalows, albergue, supermercado, cafeteria, restaurante, self-service e sabe-se lá mais o que. Turismo religioso é isso aí. Só para dar uma idéia para a Diretoria da Festa de Nossa Senhora de Nazaré e para o Governo do Estado do Pará: aqui a Xunta da Galícia criou uma sociedade anônima só para administrar o Plan Xacobeo. É exatamente essa sociedade anônima que cuida de tudo para que os Anos Santos aconteçam como planejado. Mais ou menos como planejado, pois este ano a crise econômica espanhola arrefeceu o fluxo de peregrinos.
Antes de dez da manha já estamos em um bar de Santiago tomando café do peregrino (café com leite grande e tarta de Santiago).
Os grupos de peregrinos começam a passar. Um bem nutrido grupo de jovens desde do Monte do Gozo. Estao alegres, cantam e tocam violoes. Sinceramente, prefiro vê-los alegres assim do que alegres pelo barato das drogas que, convenhamos, sao uma droga.
Nosso destino imediato é o albergue Acuario, o mesmo onde eu e Araceli ficamos em 2007. É um barato esse albergue, que atende peregrinos de todas as idades e tem um jeitao assim meio new age, exotérico. A boa novidade é que a hospitalera é Luzia, uma cearense de Mosenhor Tabosa, que nos atende com a calorosa amabilidade sertaneja. Carimba nossa credencial e guarda nossas mochilas, pois precisamos ir para a Catedral, onde as filas iniciam sete da manha neste Ano Xacobeo.
Chego finalmente ao Obradoiro, com muita alegria, que só nao é maior porque agora Araceli nao está aqui. Alegria em estado puro é o que se consegue aqui, neste exato lugar. Nossa amiga nos encontra em frente ao Hostal de Los Reyes Católicos e nos abraçamos com alegria. Alegria de chegar e de reencontrar. Alegria de saber que voltei e voltarei outras vezes, com Araceli, com Maria Eliane, com Stella e, quem sabe, com Clarisse, que ainda nao completou um ano de vida.
A fila para entrar é grande, mas vale a pena. É um ritual cristao, mas que pessoas de todas as crenças ou agnósticos se submetem de bom grado. Na fila se misturam peregrinos que chegaram a pé, de perto ou de longe, com senhores e senhoras bem agasalhadas, jovens de todas as idades. Minha amiga foi barrada porque estava com uma sacola. As normas de segurança da catedral este ano estao rigidas, demais até.
Assistimos a Missa dos Peregrinos, com a tradicional lista dos que chegaram e de onde vieram. O bispo de Astorga concelebra a Missa. Nao teve freirinha cantando desta vez. Era um padre. E um organista muito bom. A homilia nao foi nada de excepcional. Mas o bisto de Astorga fez a defesa da Igreja e do Papa, tema recorrente nestes tempos.
Ao final, o grande final. O botafumeiro. O imenso turíbulo é herança franquista - doaçao de franquistas para a Catedral - mas nesta Espanha que ainda nao cicatrizou as feridas do franquismo (Baltasar Garzón que o diga), esse ritual transcende. O efeito do imenso turíbulo oscilando no transepto, movido por oito homens - o líder dele é a cara do Ministro Gilmar - produz um efeito hipnótico sobre a multidao de crentes. A verticalidade do templo gótico reforça essse efeito. E os aplausos sao inevitáveis.
Viva Santiago.
Amanha sigo para Finisterre, o fim da terra plana dos antigos.
Voltarei ao Caminho outras vezes, com certeza.
Sexta-feira, Maio 14, 2010
Notícias do Caminho - de Melide a Pedrouso
14 de maio de 2010, sexta-feira. A combinaçao do melhor pulpo do Caminho - talvez do mundo, a pulperia Ezequiel deveria ser considerada patrimônio cultural da Humanidade - com um vinho branco jovem daqui mesmo da Galícia - aqui nao tem D.O.C, ainda - me deixou com sono peregrino e acordei praticamente já na hora de partir ainda escurinho. Mas os arredores de Melide sao bem iluminados e as setas amarelas sao encontradas com facilidade. Por enquanto, nao chove. É um orvalho fino. Mas molha. E logo engrossa. Tenho que colocar o poncho antes de chegar a Boente. Hoje vai ser um dia daqueles que só a Galícia garante: chuva fina o dia todo.
Nestes últimos dias vai ser um sobe-e-desce que as pernas curtidas já nao reclamam mais. É que aqui todos os rios correm para o Sul e o Caminho vai para o Oeste. Passo por Boente já empacotado e pronto para o chuvasqueiro. Depois de oito horas da manha passo por Castañeda, onde no passado ficavam os fornos que queimavam as pedras de cal que os peregrinos traziam para ajudar na construçao da catedral.
Antes das nove horas estou em Ribadiso da Baixo. O topônimo tem a ver com o Rio Iso (Riba do Iso). O albergue público da Xunta tem boa pinta. Dá vontade de ficar. Nossa amiga peregrina de Belém que se adiantou uns dias passou noite aqui e gostou.
Depois das nove horas passo por Arzúa e paro para o chocolate espesso com tarta de Santiago, a inesquecível torta de amêndoas com a cruz do Santo bordada com açucar de confeiteiro. Meu companheiro de caminhada está atrasado e eu com frio. Tenho que seguir caminho antes de entrevar.
Um instantinho que fiquei na cafeteria deu para notar que o Caminho está ficando cada vez mais populoso. Gente limpinha que começou em Sarria, para conseguir a Compostela. Leio no Voz da Galícia que o Príncipe e a Princesa das Astúrias peregrinaram ontem os onze últimos quilômetros do Caminho até Santiago e incentivaram os espanhóis a fazerem pelo menos um trecho do Caminho. Um reforço e tanto para a promoçao. Anos atrás o Príncipe fez percurso maior. Mas agora deixou muita autoridade com língua para fora.
A chuva nao passa, o frio é suportável mas tenho que trocar o cajado constantemente de mao, que fica insensível com o tempo.
Os grupos de peregrinos vao se formando, cada um no seu ritmo. Passo alguns e sou passado por outros. Um deles é Daniel, mexicano de Los Mochis, que passa por mim sem reconhecer. Vou passando pelas intimidades da Galícia rural, com suas hortas - de couves imensos - estábulos com cheiro característico. De alguns deles vem o ruído da ordenha mecânica. Galícia e Astúrias fornecem leite para a Espanha inteira. Cruzo com três caminhoes de coleta de lixo neste mundo aparentemente perdido. O furgao das padarias vao buzinando e vendendo o produto quentinho. Peregrinas nao resistem e compram um. Agora cruzo com o caminhao-tanque que recolhe o leite. Assim vou surpreendendo a intimidade desta Galícia rural única e indescritível.
Um estirao de onze quilômetros me leva a Salceda, onde chego ao meio-dia. Nao parece, pois a chuva nao deixa. Aqui sim há névoa e nao bruma. Névoa baixa, parecida com a nossa.
Por volta de uma hora da tarde estou em Santa Irene e agora tenho um alto - mais um - para vencer. A certeza de que amanha estarei em Santiago anima meus passos, agora automatizados e cadenciados pelo chapinhar das botas e o ruído do cajado e do poncho. Mais um albergue público da Xunta muito bem instalado este de Santa Irene. Aqui alguns peregrinos já vao se arrumando. Mas meu destino é outro e minha etapa hoje será de 33 quilômetros.
Meia hora depois passo por Rúa e sei que estou perto de meu destino.
Mais meia hora - com uma nesga de sol se esgueirando - e chego ao albergue de Pedrouso, um dos melhores da Xunta.
Reencontro Obdulia, que me acolhe com a alegria de sempre. Um jovem hospitalero me dá boas vindas em bom espanhol. É Alberto, voluntário italiano. Cumprimento-os e Obdulia diz que minha mao está fria e se diverte com isso. Sabe que eu estou bem.
Vencidos os trâmites, ela guarda uma cama para meu amigo que está chegando.
Agora cumpro uma das minhas missoes deste Caminho: agradecer a Obdulia. Explico. Três anos atrás chegamos aqui eu e Araceli bastante cansados. Obdulia deu um jeito de nos deixar sozinhos em um quarto, pois percebeu que Araceli tinha dificuldades, embora já estivesse bem melhor. Fiquei - ficamos - gratos e prometi que voltaria para agradecer. Voltei e agradeci. Ela lembrou do fato e pediu notícias de Araceli, mandando-lhe um abraço. Coisas do Caminho.
Sao coisas assim que nos fazem voltar e alimentam essa torrente humana que é o Caminho.
Caminho cada um tem e faz o seu. O meu é esse.
No Caminho todo dia é dia de confraternizaçao universal. Aqui nao é preciso esperar o Primeiro de Janeiro para confraternizar. Aqui confraternizamos todos os dias, todas as horas, todos os minutos, todos os instantes.
Amanha vencerei os vinte quilômetros que me separam de Santiago. Quando der o último passo transpondo o portal da catedral, terei caminhado 850 quilômetros e terei feito uma imensa jornada interior. E mais uma vez mergulhado no tempo de meus antepassados que um dia do final do Século XIX deixaram o porto de Vigo e foram colonizar Bragança.
A calma ansiedade do peregrino me leva de volta ao albergue, para descansar e me preparar para amanha vencer esta última etapa.
Nao bem última, porque depois vou a Finisterre, como manda a melhor tradiçao do Caminho.
Quinta-feira, Maio 13, 2010
Noticias do Caminho - de Gonzar a Melide
13 de maio de 2010, quinta-feira. Saio cedo, muito cedo do albergue de Gonzar. Tenho que usar a lanterna para encontrar as setas e me orientar. Logo encontro tudo o que precido e estou no Caminho outra vez. Hoje é dia de Nossa Senhora de Fátima. Tres anos atrás estávavamos em Lisboa, depois de termos passado em Fátima. Hoje caminho como se estivesse nas nuvens. Estou perto, muito perto de Santiago.
Sou o primeiro a sair do albergue.
Daqui por diante os lugares ficam próximos uns dos outros. Nao chove e isso me alegra.
Nao uso poncho, mas só o anorak com duas camadas de roupa.
Castromayor, Ligonde e Airexe estao a poucos passos, pelo menos é o que me pareceu. Acho que é a ansiedade pela chegada que já se avizinha.
Em Airexe paro no Conde de Waldemar, para tomar chocolate com torta de Santiago. O dono do bar é pescador. O mais importante troféu está bem a vista. E o nome é uma homenagem ao seu tio, que foi mágico da Corte no início do Século XX. Foi o primeiro mágico a usar hipnose nos espetáculos e isso lhe garantiu a simpatia do rei e o título de Conde. Este ano sai um livro e um filme sobre ele, que morreu há uns 26 anos perto daqui. Coisas do Caminho.
Vou caminhando com vontade de chegar, a Melide e a Santiago.
O sol aparece, a chuva nao da as caras. Caras diferentes desde Sarria. Cem quilômetros fazem toda a diferença. Gente limpinha. Alemaes que estao caminhando desde Sarria. Italianos idem. Gente limpa, sem lama nas botas ou nos tenis. Outra turma. Mas tem a minha turma que vem de Saint-Jean, que vai passando. O catalao barulhento, o mexicano simpatico e o coreano que faz o Caminho porque leu Paulo Coelho.
Os hórreos vao se sucedendo. A ordenha mecanica das vacas dizem que estou na Galícia, que é uma delícia. Logo passo por Avenostre. Em Palas de Rei um conjunto impressiona. Um superalbergue - minha amiga de Belém deve ter ficado aqui - e um complexo para jovens diz que estao preparados para este Ano Xacobeo. Uma beleza. Dça vontade de parar aqui mesmo.
Casanova, Leboreiro e Furelos sao ritos de passagem. Em Leboreiro um horreo a moda antiga, com ramos de salgueiro. No Norte de Portugal sao chamados de espigueiras. Lá e cá servem para guardar cereais. Serviam. Agora sao mais para decoracao e para guardar utensílios. Mas ainda há quem os use para guardar espigas mesmo.
Andei bem e pouco antes da uma da tarde já estou no polígono industrial de Melide, que fica em Furelos.
E pouco depois da um a da tarde estou no Ezequiel, a melhor pulperia do Caminho. Me alongo e espero por meia hora por meu amigo peregrino de Belém. Ele demora e vou ao Hotel Xaneiro reservar lugar para nós. Volto ao Ezequiel e divido uma mesa com os peregrinos catalao, mexicano e coreano. O polvo com vinho branco é o que tem de melhor neste Caminho. Ezequiel começou na calçada, em um xiringuito. Agora e um imenso restaurante onde se encontram todas as tribos. Os polvos sao cozidos em água tépida na entrada, pelo filho da dona, que herdou o negócio. Nao sao lindos - elas e eles - mas o polvo é o melhor do mundo. Voltarei tantas vezes quantas puder aqui, só para comer este polvo excepcional, com sal e pimenta vermelha.
Quando meus amigos peregrinos saiam do Ezequiel, por estes sortilégios do Caminho, apareceu meu amigo peregrino de Belém, que se atrasara muito e estava mais ou menos perdido.
Chamo-o e ele pede um bacalhau fresco, a segunda melhor pedida da casa. A mesma que Araceli fez em 2007. Valeu, conforme relatos dela e dele.
Este é, com certeza, um dos pontos altos do Caminho e um dia voltarei aqui para comer este mesmo pulpo a la feria.
No hotel Xaneiro somos bem atendidos e estamos prontos agora para a penúltima etapa.
Amanha vamos para Pedrouso e de aí estamos a apenas 20 km de Santiago.
Estamos felizes por chegar e tristes por terminar este Caminho.
Sábado estaremos no Obradoiro e amanha será apenas um trâmite.
Voltarei.
Noticias do Caminho - de Sarria a Gonzar
12 de maio de 2010, quarta-feira - Saio cedo do albergue e na recepçao encontro Nicholas que me dá água mineral e iogurte. Meu amigo já está passando na porte e seguimos juntos rua acima. Vencemos a esrada de ferro e uma das últimas florestas autóctones do Caminho. Carvalhos nao deixam dúvidas. Dois hectares de carvalhais deixam claro a liçao que temos de aprender com os europeus. Nao podemos destruir nossas florestas. Uma hora de caminhada e estou em Barbadelo. Mais alguns minutos e estou em Brea. Nove horas da manha estou no km 100, um ponto mágico. Peco para Nichholas, peregrino canadense, me fotografar ao lado do marco. Retribuimos a gentileza. Poucos sabem deste marco escondido. Mais adiante há um outro marco, todo rabiscado. Agora estou cada vez mais perto de Santiago. Cem quilômetros.
Ferreiros, As Rozas, Mercadoiro.
Onze horas estou em Vilachá. Os topônimos em galego me deixam com uma sensaçao diferente. É como se estivesse em casa.
Meio-dia estou em Portomarin, na represa do Minho, antes dele seguir para Portugal. Paro aqui como fia em 2007 e reponho as forñas com um bocadillo de jamon, com a represa vista ao largo. Reconfortado, sigo mais duas horas, oito quilômetros mais adiante, rumo a Gonzar, como em 2007. Foram 30 km como em 2007, com Araceli.
O albergue da Xunta continua o mesmo. Elisa atende com a delicadesa e fidalguia de sempre.
Encaro um menu do peregrino no bar ao lado e me deito para acordar só amanha.
As peregrinas que passaram por mim hoje cedo estao com os tornozelos e os joelhos precisando de cuidados. Justo elas que gostam de coisas rapidas. Ajudo com alcool de romero e fico o resto da tarde acompanhando a algaravia multicultural que é este albergue de Gonzar.
Amanha Melide é meu destino.
Terça-feira, Maio 11, 2010
Notícias do Caminho - de O Cebreiro a Sarria
11 de maio de 2010, terça-feira. Saio mais cedo ainda, pronto para a chuva fina. Uso lanterna para encontrar o Caminho. As brumas tornam a visibilidade escassa. Liñares é uma fantasmagoria borrada que se torna um casario vista de perto. Hospital era o lugar onde pensamos em passar a noite. Por volta das sete e meia estamos no Alto de San Roque, com seu maciço monumento em homenagem aos peregrinos borrado no meio das brumas. Subo com força e esforço o Alto do Poio, com chuva fina e um confortável frio de uns onze graus. Oito horas estou no albergue As Reboleiras, em Fonfría, que nos abrigou em 2007. A mesma senhora me atende e serve chocolate com torta de Santiago. Sou muito grato também a este lugar que nos acolheu em uma tarde chuvosa como esta manha.
Inicio a descida para Triacastela, passando por Viduedo. Pouco antes do meio-dia já estou em Triacastela. Avalio o desempenho e as forças. Concluimos que dá para ir mesmo até Sarria. Principalmente depois de uma raçao de calamares e um suco de laranja, que dividimos com os italianos e a catala Isabel (hoje eles vao pernoitar en Pintin, antes de Sarria).
A paisagem é belíssima e a medida em que vamos baixando as brumas vao ficando para trás e para o alto. As cores das montanhas mudam conforme o sol aparece ou deixa de aparecer. Pouco apareceu. Vilarejos aparecem ao longe. E a Galícia rural, com cheiro de esterco e rumen, vai penetrando nossas narinas e nossas vistas. O Caminho agora é por corredoiras, por onde só passam peregrinos, vacas e vaqueiros. Chegamos aos lugares pelas suas intimidades, pelas suas hortas e estábulos. Esta encantadora Galícia rural nao é vendida como produto turístico e só peregrinos e trilheiros sabem dela. Esta é uma ótima razao para voltar ao Caminho. Cada passo vai deixando saudade imediata e voltade de voltar, sempre. Acho que, de minha parte, tel algo de ancestral. Acho que caminho pelos meus antepassados que saíram daqui um dia para ir colonizar Bragança. Parece que tenho uma ligaçao telúrica com o Caminho, com a Estrada de Ferro de Bragança e com o Caminho Inca. Por razoes distintas, mas sinto que tenho.
E assim vou passando por San Xil - nao vou por Samos - Alto do Riocabo, Furela e logo Calvor. Como tivemos forças para chegar até aqui, vamos adiante.
E logo entramos em Sarria, com saúde e força bastante para ir até mais adiante.
Mas nosso destino é aqui mesmo. Meu amigo fica com a última vaga no albergue da Xunta e eu vou para o Internacional. Quatro e meia da tarde estamos acomodados e pronto para atualizar o correio eletrônico e este blog.
O que faço no mesmo cybercafé de três anos atrás.
Agora vou atrás de um bom lugar para comer e descansar, pois amanha queremos chegar até Gonzar, como fizemos eu e Araceli em 2007.
Vamos conseguir.
Notícias do Caminho - de Pereje a O Cebreiro
10 de maio de 2010, segunda-feira. Acordo cedo preparado para o frio e a chuva fina mais uma vez, com três camadas de roupa, anorak e poncho. No espelho, depois de vinte e tantos dias tive essa curiosidade, me acho com jeitao de peregrino. Cortei o cabelo e a barba com máquina dois quando saí de Belém e agora estou com uma aparência que me deixa a meio caminho entre Steve Jobs e Dalai Lama, parecendo também um guerreiro jedi.
Antes das sete e meia da manha já estou em Trabadelo tomando café. A caminhada continua pelo acostamento adaptado para andadero de peregrinos e assim vou passando por La Portela e Ambasmestas. A estrada corta o Rio Valcarce várias vezes e aqui ele se junta com outro rio. Nove horas passo por Vega de Valcarce e procuro o Albergue do Brasil, onde quero agradecer pessoalmente ao Itabyra a boa atençao que ele teve conosco - eu e Araceli - em 2007. Infelizmente, está fechado. Fico devendo dois agradecimentos pessoais agora (a ele e ao Jato) e tenho mais motivos para voltar a fazer o Caminho. Neste ponto noto que começo a sentir emoçoes contraditórias: alegria de estar cada vez mais perto de Santiago e a tristeza pelo fim do Caminho que já se avizinha; a saudade de casa e a vontade de voltar (para casa e para o Caminho). De certo é que vou chegar a Santiago, vou voltar para casa e voltarei ao Caminho.
Sempre sob chuva fina vou subindo rumo ao misterioso O Cebreiro: Ruitelán, Las Herrerias, La Faba e tudo envolto em brumas, brumas que aqui fazem sentido porque sao brumas mesmo, nao se trata de uma figura literária. É um fenônemo físico mesmo. É diferente. Se escrevesse aqui que era névoa, nao descreveria o que é. É bruma.
Depois de onze horas passo pela mesma Laguna de Castilla que passei três anos atrás, sob chuva também. Logo estou bem na divisa com a Galícia, que nos recebe com um potente marco de pedra. A verdade é que o Bierzo tem mais cara de Galícia do que de León e por isso mesmo as pretensoes de anexaçao fazem sentido. Agora sei que a Galícia chegou e eu estou mais perto de O Cebreiro e de Santiago.
O Cebreiro é cheio de mistérios e esta bruma permanente acho que é parte dele. Vou subindo e espero a qualquer hora ouvir uma gaita de foles me chamando no rumo certo. A paisagem é linda sob as brumas, mas gostaria de voltar um dia aqui no verao, para ver outra paisagem. Quando finalmente chego a O Cebreiro a bruma nos envolve a todos. O frio me faz tomar o rumo do mesmo bar do hotel onde paramos em 2007. O mistério continua e voltarei tantas vezes quantas forem necessárias para descobrir este mistério de O Cebreiro. Nao sei o que é, pois é mistério. Nas tem algo aqui que é diferente. Tomo um chocolate espesso que esquenta os ossos e a alma. Agora sei que vou ter que pernoitar aqui, pois estou encharcado e posso pegar uma hipotermia se insistir em passar, como fizemos eu e Araceli em 2007 (fomos para Fonfría).
Volto para a entrada para esperar meu amigo peregrino de Belém. Das brumas brotam fantasmagorias que ao passar por mim se tornam peregrinos de corpo e alma. Assim vao chegando todas as patotas. Logo mais, no albergue, por um sortilégio do Caminho, todas as fantasmagorias já haviam se tornado peregrinos completos, com botas, mochilas, capas e cajados. O albergue da Xunta é ótimo e nele vamos dormir, lavar e secar nossas roupas para o dia seguinte.
Resolvo almoçar na Venta Celta. O menu do peregrino me levou a um caldo galego bem quente e um guiso del dia (costela de porco salgada guisada). A sobremesa foi queijo de O Cebreiro (parecido com ricota) com mel.
Depois simplesmente nao consegui mais sair do albergue pois a chuva nao parou.
O Cebreiro ficou mais misterioso ainda para mim e voltarei aqui também por isso.
Notícias do Caminho - de Ponferrada a Pereje
9 de maio de 2010, domingo. Sei que é Dia das Mães e vou caminhar por elas: a minha, a da Araceli, a das nossas netas, e Josefina, que é minha mãe também. Mas vou caminhar por todas.
Deixo cedinho o excelente albergue de Ponferrada pronto para o frio e a chuva fina. Passo pelo castelo dos Templários, todo restaurado, que neste amanhecer parece ter saído diretamente de um conto medieval. A labiríntica saída me faz ziguezaguear por ruelas com suas luzes todas acesas e bairros modernos de classe média. Há até uma incrível passagem por dentro de um prédio. Columbrianos é conurbada com Ponferrada, mal dá para notar que saí dela. E já são oito da manhã. Um pouco mais adiante passo por Fuentes Nuevas, onde paro para tomar o café da manhã. Rapidinho passo por Camponaraya e me encaminho para Cacabelos. As nuvens cobrem o vale e assim consigo finalmente perceber o Bierzo em toda dua extensão.
Cacabelos é a sede do Conselho Regulador da Denominação de Origem Controlada Bierzo. Uma bela e moderna sede. A aposta é, como registrei três anos atrás, no botillo, no vinho, na maçã e na pera. Eu também faço a mesma aposta. Mas gostaria mesmo que os produtores do Pará apostassem em coisas assim. Nossos produtos com Indicação Geográfica Protegida, Denominação de Origem Controlada (D.O.C.) ou pelo menos qualificada. Quem quiser saber como basta vir dar uma voltinha aqui em Cacabelos.
Sigo para Villafranca del Bierzo, onde chego depois do meio-dia. Vou direto para o albergue Ave Fenix, de Jesus Jato, o bruxo boa praça que cuidou de Araceli em 2007. Quero agradecer pessoalmente. Não deu. Ele saíra para levar as mochilas ao Cebreiro e eu tive que iniciar a subida até Pereje, onde vou pernoitar. Chego depois das duas da tarde e me instalo, juntamente com outros peregrinos. O albergue é ótimo e é da Junta Vecinal de Pereje. O hospitalero chega depois. É o mais rabugento dos hospitaleros do Caminho. Jovem ainda, mas conta horrores que aconteceram neste albergue. A Internet não mais existe porque turistas disfarçados de peregrinos destruiram cinco computadores. A TV idem. Um dia ele chegou e tinham colocado o aparelho na rua para assistirem alguma coisa. O vidro da lareira foi quebrado. E ontem mesmo furtaram dois lençóis. Um horror, segundo ele. É a tal picaresca do Caminho. Ele deitou falação tarde e noite adentro, para qualquer um que se dispusesse a alugar-lhe os ouvidos. Os temas eram variados, de filosofia a política. Uma figura. Mas a verdade é que mesmo assim é um excelente albergue, muito bem instalado.
E nele passei uma boa noite. Noite do Dia das Mães.
Sábado, Maio 08, 2010
Notícias do Caminho - Tapioca Royal
Disse de passagem no post anterior que a Royal vende tapioca em caixinhas aqui na Espanha.
É um produto gourmet.
Parece uma ameaça, mas é uma oportunidade.
Oportunidade de comércio justo para nossos produtores familiares e sua agricultura naturalmente orgânica. Oportunidade para esses mesmos produtores aprenderem com os daqui do Bierzo e começarem a pensar em tapioca D.O.C.
Notícias do Caminho - de Foncebadón a Ponferrada
8 de maio de 2010, sábado. Acordo cedo, como de rotina, ao som do IPhone, o melhor amigo do peregrino pós-moderno. Ajuda como despertador, agenda, bússola, relógio e funciona até como telefone. Encontro Sérgio e agora é minha vez de ajudá-lo com antidiarréicos. Tomamos café no albergue e saímos mais ou menos as sete da manha, sob frio e chuva fina, bem guardados sob três camadas de roupas, anorak e capa de chuva. Tem neblina e isso aumenta o jeitao fantasmagórico das ruínas de Foncebadón. Subo pela trilha encharcada e logo reaparecem as dores amigas e benignas, menos incômodas que antes. Umas fisgadas no ombro esquerdo que nao chegam a comprometer a paisagem e a caminhada. Coisa pouca. A verdade é que estou ansioso para vencer os poucos metros montanha acima que me separam da Cruz de Fierro, onde chego meia hora depois. A rodovia que passa junto nao compoe bem o cenário secular deste cruzeiro, mas hoje o mastro com a cruz de ferro perdida na ponta está diferente. Parece uma fantasmagoria milenarista. O milladoiro - monte de pedras que os peregrinos vao fazendo ao longo dos séculos - já tem lá seus quatro cinco metros. Estamos a mais ou menos 1500 m sobre o nível do mar. Nicholas, peregrino americano vai na minha frente e deposita sua pedra. Faço a foto dele. A minha faz meu amigo peregrino de Belém. Retiro as três pedras que trouxe de casa - uma para Araceli, outra para Stela e outra para Clarisse, que receberao parte das energias positivas desta obrigaçao e deste Ano Xacobeo - e deposito primeiro em uma mao e depois, com muito cuidado, sobre uma pedra maior, rente ao mastro. Este ritual acalentado nos últimos três anos gera energias que atravessaram o Atlântico e chegarao às destinatárias, que ainda dormem agora. Chove e faz frio. O mastro tem de tudo em matéria de ex-votos. Este ano até uma bota foi pregada nele. Os peregrinos estao abrigados na área coberta de apoio ao secular monumento. Desço pelo lado oposto e sigo meu Caminho, agora rumo a Manjarin, um pouco mais abaixo.
Pouco depois das oito da manha chego ao reduto de Tomás de Manjarin, que antes eram ruínas e agora é um albergue para 14 pessoas. Sou recebido por Paco e logo aparece Tomás de Manjarin, que hoje está tocando o sino porque tem névoa e os peregrinos podem se perder. Tomás recuperou Manjarin para o Caminho e e espírito templário preside este lugar. Música celta enche o ambiente. Bandeiras de todos os países - Brasil inclusive - deixam claro a natureza universal deste alberque único (e controvertido). Tomo um café com bolacha maria e noto que a garrafa térmica e a vasilha das bolachas aumentou pelo menos o triplo em três anos, do que deduzo o crescimento dos visitantes. Deixo o donativo que ajuda a manter este lugar mágico. Faço uma foto com Tomás e dele recebo a sugestao para sair pela rodovia a direita de Molinaseca, para encurtar caminho até Ponferrada. Vou seguir esse conselho, pois a volta é grande e nao se trata da rota original. Despeço-me com gratidao. As dores desapareceram por encanto. E o sol ameaça dar as caras. A chuva, as brumas, a neblina dao um colorido diferente aos montes de León. Vejo ao longe que tem neve fresca nos cumes das montanhas. E estamos em plena primavera.
Antes das dez da manha estou em El Acebo, uma dessas fantásticas cidades medievais que renasceram com o Caminho. As casas sao cobertas de ardósia negra, o que nao chega a ser um luxo por aqui, onde ela é abundante. No caminho há um milladoiro de uns dois metros de altura, piramidal, feito de pedaços de ardósia cuidadosamente empilhados. É a arte do Caminho. E o Caminho está cheio de manifestaçoes artísticas assim. As flores estao por toda parte. As nuvens estao um pouco abaixo de nós e seguimos baixando. A rodovia serpenteia e por elas passam os ciclistas (hoje e amanha é dia deles) e alguns peregrinos. Um vilarejo medieval perdido nos montes aparece ao longe. Nao dá para ver por onde se chega nele.
Antes de onze da manha estou em Riego de Abrós, com suas casas cobertas de ardósia negra. O sol reaparece e agora na ponta de cada tufo de grama destes campos de altitude tem um diamante com todas as cores do arco-íris. É um dos espetáculos mais belos do Caminho, que observo pela primeira vez. O Caminho é um Rio de Heráclito a cada momento. Nunca se faz o Caminho mais de uma vez. Ele muda sempre. Esta beleza eu nunca tinha visto na vida, gotículas de orvalho que refratam a luz solar e constróem milhoes desses diamantes irisados de todas as cores do espectro. Um espetáculo, pura e simplesmente. Máquinas fotográficas comuns nao captam essa beleza. A minha pelo menos nao captou. O que é irrelevante, porque minha retina captou e meu cerébro gravou para sempre. Com o sol agora chegam os pássaros, milhares deles, cada um com seu canto e sua sagraçao da primavera.
A chuva vai e vem caprichosamente, me obrigando a manejar o anorak e a capa. Antes das dez avisto Ponferrada ao longe e sei que no meio ainda tem Molinaseca e Campo. A trilha é um sobe e desce sem fim, e está resvaladiça. Caí pela primeira vez. A mochila amorteceu a queda. Meu amigo me ajuda a levantar e seguimos em frente. Encontramos peregrinos que voltam de Santiago. Topamos com um bem nutrido rebanho de ovelhas com muitos chocalhos e um só cao pastor dominando tudo com um simples olhar. Autoridade é isso aí. Ervas aromáticas estao em flor. Uma delas parece alfazema, outra lavanda. Nao encontrei romero (alecrim) ou tomilho por aqui. Pouco depois de meio dia estou na rodovia que vai me deixar exatamente na ponte de pedra de Molinaseca, sobre a qual transpomos o Rio Maruelo. Junto a ponte, um totem faz propaganda dos produtos do Bierzo: botillo, pera, uva, vinho (da varietal Mencia), pimentao. Três anos atrás esse cartaz só existia em Villafranca del Bierzo e a luta pela Denominaçao de Origem Controlada - D.O.C desses produtos estava chegando no final. Agora é realidade. Coisa para nossos produtores aprenderem logo, como sempre lembro aqui. Imagino uma farinha dágua de Bragança D.O.C. Por falar nisso, tapioca D.O.C. é uma outra boa idéia, pois a Royal já vende tapioca em caixinhas nos supermercados daqui da Espanha.
Molinaseca é uma dessas encantadoras cidades medievais que estao intactas. Aqui tem um ótimo restaurante, mas desta vez vou deixar para almoçar em Ponferrada. A cidadezinha está cheia de peregrinos e famílias que vieram pasar o sábado. Sigo o conselho de Tomás de Manjarín e sigo pela rodovia - detesto, a esta altura, caminhar por rodovias, mas a alternativa nao é melhor e é mais longa - e sigo para Campo, onde somos recebidos por uma alegre avó que mostra os peregrinos para seu netinho incentivando-o a dar adeus a eles. Um dia minhas netas passarao aqui. Um velho bem-humorado nos oferece ramos de romero e ao apertar-lhe as maos prende-a e diz que sou eu que nao a solto. O humor daqui para frente vai ser assim, agalegado.
A volta para chegar à Ponferrada me pareceu menor desta vez.
Pouco antes de chegar ao albergue tenho que colocar a capa porque voltou a chover. Antes das duas da tarde estou no albergue paroquial San Nicolás de Flüe, imenso - mais de duzentas camas - e construído sobre o antigo cemitério de Ponferrada. A hospitalidade é a mesma, embora tenham mudado os hospitaleros. Este é um dos melhores albergues do Caminho e com toda alma xacobea. No jardim o totem continua no mesmo lugar e um marco indica a quantidade de quilômetros para Santiago. Na verdade é um memorial a um peregrino finlandês. Até capela tem neste imenso albergue. Resolvemos lavar nossas roupas e nos atende o mesmo Evaristo de sempre, três anos mais velho, o que nao é pouco. Ele e a hospitalera nos indicam o restaurante Mencia e para lá seguimos muitos peregrinos. Parece um restaurante comum. Sentamos e pedimos vinho. O mesero negro nos trouxe um Mencia 2008, D.O.C. Bierzo. É de uma cooperativa vinícola daqui do Bierzo. A garrafa tem o selo numerado do Conselho Regulador, cuja sede fica perto de Villafranca del Bierzo, onde três anos atrás acabara de instalar seu laboratório. Prestem atençao nessa varietal Mencia, que só existe aqui no Bierzo. Ainda ouvirao falar dela. Este é um vinho popular e jovem, mas se preparem, porque logo ele vai ser um dos bons vinhos da Espanha.
O que vem depois é uma sequência de comidas típicas do Bierzo: queijo de oveja curado e cecina (algo com um presunto bovino, diferente da cecina mexicana) com azeite de oliva, ervilhas e verduras e cogumelos frescos com ovos mexidos; carnes grelhadas (lombo de porco, ternera e costela de porco defumada). A guarniçao é o ótimo pao da regiao, forte, casca bem grossa e sem traço algum de produto químico. Sorvetes. Dez euros por pessoa. Um banquete para nunca mais esquecer.
O botillo fica para outra vez.
Sexta-feira, Maio 07, 2010
Notícias do Caminho - de Astorga a Foncebadón
7 de maio de 2010, sexta-feira. Acordei bem. Consegui até fazer mais ou menos, espremido no beliche, meus exercícios diários de Yoga que Aracele me ensinou. Estou com fome, o que é bom sinal. Comi de tudo o que havíamos comprado na véspera e ainda encarei um chá de menta que encontrei na cozinha no albergue. Este albergue de Astorga e seu hospitaleiro eram tudo o que me faltavam para trazer-me a saúde de volta. As dores nos pés desapareceram. Alfredo Manuel aparece para dar bom dia e desejar bom Caminho. Aproveito para agradecer e me despedir. Nunca irei esquecer a cara alegre e simpática deste português de Viseu. A alvorada no albergue é ao som de canto coral da melhor qualidade. Na saída a Ave Maria se derramava para as ruas e invadia o frio.
Passo de novo pelo Palácio Gaudi, o Palácio Episcopal que agora é o Museu dos Caminhos. Ofuscada pelas grandes obras desse genial filho de Astorga, nao se conhece muito esta obra. Mas aqui estao todos os elementos que mais tarde tornariam famoso Gaudi. É, bem comparando, a Pampulha de Gaudi. Ao lado a magnífica Catedral, com suas torres de cores diferentes. Um dia voltarei aqui para ver com muita calma, tempo e paz estas duas magníficas obras. E, claro, para comer o cocido maragato.
O frio de oito graus me fazem voltar as dores reflexas e tento me entender com meus bicos de papagaio. Logo passo pela Ermida Ecce Homo, onde em 2007 eu e Araceli lanchamos antes de seguir caminho (está relatado aqui mesmo no blog em um longo post). Atravesso a rodovia e decido seguir pela ponte sobre o Rio Jerga. Um galego corrigiu com spray: Riu Xerga. Daqui por diante vai ser assim: as placas vao ser corrigidas para que o galego seja reconhecido como língua oficial desta regiao. Na Espanha unificada tem disso. Sem contar que León quer se separar de Castilla.
Logo chego a Murias de Rechivaldo, quase cinco quilômetros adiante. As dores continuam mas vou controlando. Tenho que apertar o passo e contrair a musculatura do abdomen para aquecer e controlar a dor. Vejo que vem chuva na minha rota.
Agora acabou a planura castelhana e começo a subida dos montes de León, suavemente, rumo ao ponto culminante, a Cruz de Fierro, onde chegarei só amanha cedo.
Saio da trilha para o andadero rente à rodovia. Pouco depois das nove da manha estou em Santa Catalina de Somoza e começa a chuviscar. Sabendo que agora vai chover mesmo, ponho o anorak e o poncho e assim resolvo dois problemas: nao me molho e ainda me aqueço o bastante para controlar definitivamente as dores reflexas. Fica também a impressao que o ajuste da mochila estava me prejudicando. Às vezes uma tira mal apertada ou uma regulagem mal feita provoca dores nos lugares mais insuspeitos. Uma dobra de meia pode provocar uma dolorosa bolha ou uma dor no calcanhar. Coisas do Caminho.
A chuva é o suficiente para molhar a capa e a bota, nada mais. Menos mau. A paisagem agora é outra. Os montes ao longe desapareceram na minha frente, mas para os lados consigo ver moinhos de vento quase na linha do horizonte. E a pergunta que me martela desde Navarra: por que no Brasil nao há aproveitamento da energia eólica para gerar eletricidade? Para mim é estranho. Ou estes espanhóis - e alemaes - sao uns idiotas em usar energia eólica, ou os idiotas somos nós, brasileiros. Um dia a história irá escolher quem foi idiota.
Pouco depois das dez da manha chego ao El Ganso, um desses povoados que tinha praticamente desaparecido e agora vive do e para o Caminho. É hora de parar para um café e para alongar, pois já caminho deste sete da manha. Entro no mesón Cowboy e sou atendido por Ramiro, que maneja a cafereira e os copos com a rapidez de um pistoleiro do Velho Oeste. Enquanto atende vai distribuindo bom-humor a raudales como se diz por aqui. Para cada um tem uma frase bem-humorada e assim o mesón vai enchendo de peregrinos, a pé e de bicicleta. Logo a babel está recomposta e organizada, em todas as línguas, e Ramiro disparando rajadas de café e bom-humor. Agora sei que estou definitivamente curado. E Paco Nadal precisa descobrir Ramiro para colocar na próxima ediçao de seu guia. A alegria dos peregrinos quando saem do mesó é visível e indizível. Agora estou completamente curado, do corpo e da alma. E marcho sob a chuva fina para Rabanal del Camino, sete quilômetros mais adiante e mais de 1.100 m sobre o nível do mar. Subida suave sob a chuva fina e sem dor, é quase um barato. Pouco depois de meio-dia estou em Rabanal. É impressionante o que aconteceu aqui. Já foi muito importante nos tempos medievais, mas estava abandonada. Agora, Rabanal recebeu um sopro de vida graças a enxurrada de peregrinos modernos. Sao tantos os alberques que no guia é final de etapa. Em 2007 eu e Araceli conseguimos a façanha de caminhar de Puente e Hospital de Órbigo até aqui. Ficamos no albergue El Tesin. Agora vou passar mais adiante, rumo a Foncebadón, sempre subindo e com a chuva passando. Agora caminho por um distrito florestal. Sao pinhais e carvalhais. Os carvalhos perderam as folhas - que agora atapetam o chao - e ainda nao ganharam novas folhas. É uma paisagem diferente, um tanto inquietante. Os carvalhos sao jovens e parecem árvores da caatinga brasileira nesta época do ano. Aqui e acolá uma fonte para os animais e o aviso para os humanos: água nao potável.
Finalmente, pouco depois de uma da tarde chego à Foncebadón, já sem chuva alguma, mas com frio. Esta é outra cidadezinha medival ressuscitada pelos peregrinos modernos. Vou direto para o albergue Convento. Aqui Way is business. Em minutos o albergue lota. Tive que pagar antecipadamente pela cama de meu amigo peregrino de Belém.
Me instalo e logo ele chega, trazido por Sérgio, que o resgadou no meio do vilarejo.
Resolvemos almoçar em um restaurante especializado em cozinha medieval, La Taberna de Gaia (www.latabernadegaia.com). Está instalado em uma das muitas ruínas daqui. Agora é um perfeito restaurante medieval. Seu dono é um gigante vestido mais ou menos como se fosse o Obelix. As meseras se vestem como se estivessem mesmo na Idade Média. A comida é boa e o preço salgado, para o gosto de um peregrino. Comemos sopa de truta, legumes com ovos mexidos, um churrasco de ternera (me pareceu um corte de peito de boi, mas macio) e ciervo estofado.Foram 38 euros para duas pessoas. Mas a verdade é que cada prato serve duas pessoas muito bem e foi isso o que fizeram amigos peregrinos que chegaram depois de nós. O dono faz uma longa peroraçao sobre Gaia aos nossos amigos, que entram no clima. Valeu. Até porque serviu para provar que com a fome voltou definitivamente a saúde.
Amanha vou cedo depositar as pedras que trouxe de Belém no secular milladoiro da Cruz de Fierro, e pedir proteçao para Araceli, Stella e Clarisse, nossas netas, que terao também um bom caminho da vida.
Quinta-feira, Maio 06, 2010
Notícias do Caminho - de Villadangos del Páramo a Astorga
6 de maio de 2010, quinta-feira. Cedo nos preparamos e sete horas já enfrentávamos o frio. Felizmente, sem vento.
Logo passamos por uma montanha de algo que pareciam pedras mas eram beterrabas (para fazer açucar).
O céu está limpo e faz uma bela alvorada.
San Martin del Camino continua do mesmo jeito, com seu albergue à sombra de um disco voador que parece uma caixa-dágua ou vice versa. Em 2007 eu e Araceli entramos aqui no final da tarde e nao gostamos, preferindo caminhar até a próxima cidade, a fantástica Puente y Hospital de Órbigo, famosa porque o cavaleiro Don Suero de Quiñones desafiou durante dias todos os outros cavaleiros que passarem por aqui, daí o nome de Paso Honroso. Até hoje, no segundo final de semana de junho, é repetido aqui um torneio medieval (o dono do restaurante me diz que é seguro). A ponte está sendo restaurada e o operário se oferece para fazer uma foto minha. Reencontro Raul, sua cadela e sua patota. Dividimos o lanche e sigo adiante, passando bem em frente ao belo albergue em que fiquei com Araceli em 2007 quando os hospitaleros - um portugues e um espanhol - dele saiam. Cumprimento-os como se fossem velhos amigos a retribuiçao é calorosa tambem. Nos indicam a saída da direita, pelo campo, que aumenta um quilômetro mas nos livra do barulho da rodovia. Era exatamente esse nosso plano.
Agora a paisagem é outra, o vento diminuiu e o sol produziu ótimos efeitos sobre minhas dores. Com frio sofro dores reflexas dos meus bicos-de-papagaio. Até Villares de Órbigo e Santibañez de Valdeiglesias vou bem, entre pomares, trigais, plantaçoes de feno e estábulos. Em um deles dois bezerrinhos levavam vida mansa em uma casinha coberta só para eles. Em Santibañez um ônibus belga sugere que temos peregrinos diferentes mais adiante. Dito e feito.
Em uma curva dá para ver que ainda tem muita neve no cume das montanhas em nossa frente, mas nao no nosso caminho. Depois do meio dia passamos por um desses lugares que começam do nada, oferecendo frutas e bebidas a troco de donativo e logo se tornam referência. Este promete ser o mesmo. Até livro de visitas no charanguito já tem. Astorga já se vê ao longe, mas ainda vamos dar um bom volteio para chegar lá. Como já caminhamos mais de 20 km sem alongar, na área de descanso de San Justo de la Vega fazemos isso e iniciamos uma penosa descida encosta abaixo, por uma calçada muito bem feita. Mas o cansaço é maior que nos demais dias. A alimentaçao deficiente já faz seus efeitos.
Encontramos mais um cao peregrino, o spaniel Coco. Começou em León.
Mais torres, mais cegonhas.
E mais uma bela ponte.
Na rótula na entrada da cidade - depois de vencer uma aborrecida travessia que inclui uma nova passarela sobre a ferrovia - cuida-se de deixar claro que esta é a mais romana das cidades do Caminho, a Astvrica Avgvsta, escrita assim mesmo. Depois de uma penosa subida chegamos ao belo albergue público Siervas de Maria.
O hospitalero, enquanto atende um peregrino, me reconhece e me chama pelo nome. Fico impressionado, pois nao me lembro dele. Ele faz mistério e diz que é dado a bruxarias. Eu digo que nao acredito em bruxos, mas que los hay, hay. Ele simplesmente é Alfredo Manuel, nascido em Viseu, Portugal, vivendo há trinta anos na Espanha e agora é hospitalero voluntário aqui até cansar. Ele simplesmente é um dos membros da lista da Associaçao dos Amigos do Caminho de Santiago e vem seguindo este blog há dias, e por esses milagres do Caminho me reconheceu sem que eu desse uma só palavra. Impressionante.
Já fiquei melhor só com essa acolhida. Daí em diante o atendimento foi acelerado, recolhendo as credenciais e nos destinando camas. Me fez recomendaçoes sobre saúde, que segui a risca. Fui atrás de comidas leves, com algum carboidrato. Encontreio no Bar Cubasol.
O passeio por Astorga é simplesmente o melhor tônico para um peregrino cansado e já sem forças. É uma cidade com 2024 anos que parece mágica, como mágico é o Palácio Gaudí, filho ilustre. Aqui é a capital da maragateria, mas ainda nao vai ser desta vez que vou encarar o cocido maragato. Voltarei outras vezes ao Caminho e o cocido pode esperar.
Agora vou sair para passear e jantar, pois já garantimos o desjejum.
Já estou melhor e amanha espero estar melhor ainda para chegar quando nada seja a Rabanal del Camino.
Notícias do Caminho - de Mansilla de Las Mulas a Villadangos del Páramo
5 de maio de 2010, quarta-feria - O albergue de Mansilla de Las Mulas me revigorou bastante e eu consegui acompanhar o ritmo de meus companheiros de quarto, um deles um francês gigantesco com uma barba e uma cabeleira cinematográficas. Mais que um peregrino, parecia um guerreiro com seu cantil militar. Meu desjejum foi basicamente frutas, para nao arriscar muito. O frio cortante me obrigou a usar três camadas de roupa e mais o anorak que funcionou como corta-vento. Nosso grupo está disperso, pois minha amiga e seu irmao estao mais para a frente. Logo passo a ponte sobre o Rio Eslo e me enfio no andadero paralelo à rodovia. Meus ouvidos agora muito sensíveis reclamam do ruído insuportável desta rodovia. Depois das sete a alvorada é reconfortante e ameniza esse cenário. Logo passo por Villamoros de Mansilla, nestas horas uma cidade que dorme. Mais adiante a ponte sobre o Rio Forma - uma travessia perigosíssima para os peregrinos - diz que estou chegando a Puente de Villarente. Minha sombra ainda está comprida e já passam de oito da manha. Passo o Rio Arcahueja me encaminho para a cidadezinha do mesmo nome, passando pela agradável e acolhedora área de descanso, uma das mais bonitas do Caminho, com duas fontes diferentes, bancos, fonte de água potável e uma área coberta. Deveria ter dormido aqui ontem. Nao deu. Tenho que respeitar meus limites. No Caminho - e na vida - querer nao é poder. Em abril 2007 foi exatamente aqui nesta fonte que eu e Araceli encontramos um casal de palmeiros - designaçao dos que peregrinam a Terra Santa - a caminho de Jerusalém, passando por Roma (está relatado aqui no blog). Faziam o caminho inverso e ficamos impressionados, pois eles pretendiam passar o Natal em Jerusalém. Logo passo por Valdelafuente (o nome diz tudo e uma das fontes de Arcahueja se abastece aqui). Na ermida, os ninhos de cegonha a que cada torre tem direito. Aliás, sao as cegonhas que tem direito às torres e ai de quem tocar nelas. Quando a Catedral de León foi restaurada as obras tiveram que esperar que os filhotes das cegonhas voassem, para atender as pressoes dos ambientalistas.
Agora vou iniciar a aborrecida travessia de oito quilômetros pela periferia e pelos polígonos industrais que cercam León. Já conheço e nao me preocupo porque sei bem a recompensa que me espera. Mais torres e cegonhas. Fotografo todas para mostrar para minha neta, que logo vai saber que cegonhas nao transportam nem seus próprios filhos...
O traçado do Caminho é paralelo à velha ponte. Meu destino é a Catedral. Mas tenho que fazer escala na farmácia para repor o estoque de alcool de romero (nao tinha minha marca preferida, Cuve) e aproveito para comprar medicamentos. Os termômetros medem sete graus, mas o vento deixa uma sensaçao térmica bem menor. León combina modernidade com passado. Ela tem história e futuro. Ela começou com um acampamento da Sétima Legiao romana, que submeteu esta regiao ao grande império. Junto às muralhas jovens estudantes estao em atividade extra-classe. Penso como isso faz diferença entre um garoto desse e os nossos, na mesma idade. Felizmente, a Internet pode reduzir esse gap, se for bem utilizada pelos educadores (para o meu gosto, ainda é incipiente esse uso).
Dez hoas chego à Catedral, quase toda restaurada. É quase uma epifania. Minha e dos peregrinos que me antecederam, inclusive Raul, o madilhenho que peregrina com sua - é uma cadela, retifico agora - golden retriever, a Jan (acho que é assim o nome dela). A patota dele cresceu e todos estao tao ou mais alegres que eu. O francês gigantesco saca uma câmera descartável e pede para um passante fazer uma foto dele. Relembrando que em 2007 eu e Araceli estivemos aqui, entro pela mesma porta com a delicadeza, o respeito e o cuidado que merecem este templo que transcende à religiao. A restauraçao foi magnífica, o que se advinhava já de fora, com a limpeza que restaurou também a tonalidade dourada neste horário. Uma tela mostra detalhes da catedral e, se tempo tivesse, passaria o resto do dia aqui mesmo. Mas espetáculo mesmo é olhar para todos os lados e ver a luz entrando por 1800 metros quadrados de vitrais. Isso mesmo: 1.800 metros quadrados de vitrais. Quem quiser saber o que é algo próximo de uma epifania, venha aqui, em dia de sol, neste horário, e saberá do que falo. Caminho lentamente, passo por trás do coro, volteio e vejo que a restauraçao foi primorosa. O coro está protegido por uma porta de vidro. Saio extasiado na porta oposta, que na verdade era a de entrada, onde ficam os audiofones. Saio daqui com a alegria e a saúde de volta. Parece milagre.
Reinicio o Caminho, mais ou menos ao mesmo tempo que a patota do Raul e sua cadela. Ali perto um marco indica que estou a 330 km de Santiago. Já passei da metade. Um cartaz do Primeiro de Maio mostra que a data ainda é comemorada pelos comunistas daqui. Logo estou em direçao a ponte sobre o Rio Bernesga, passando pelo magnífico Museu de León.
Rapidinho chego a Trobadajo del Camino, praticamente um bairro de León, sem muita graça, para meu gosto.
Em La Virgen del Camino reencontro a controvertida igreja de Josep Maria Subirachs. Nao é feia, mas apenas inquietante. Antes do meio dia paro no mesmo bar em que eu e Araceli estivemos em 2007 e para minha surpresa reencontro Francesco e sua patota de italianos, com a inseparável catala Isabel. Foi um reencontro de muita alegria, pois nao nos víamos desde Terradillos de Templarios. Vamos nos separar de novo porque eles vao por uma variante por Villar de Mazarife e meu destino é Villadangos del Páramo, seguindo o Caminho Francês tradicional que, desgraçadamente, coincide com o traçado da rodovia N-120.
O vento castiga e a temperatura segue baixa, mas nada comparado com os dias anteriores.
Perto de Valverde de La Virgem reencontro as mesmas casas construídas dentro da terra, como as antigas bodegas. Agora parecem habitadas algumas e outras abandonadas. Algumas desmoronaram. Esta nao é uma regiao produtora de vinho, mas sim de cereais. Duas da tarde estou em San Miguel del Camino e agora sei que vou conseguir chegar ao meu destino, Villadangos del Páramo, que alcanço três e meia da tarde, com sol alto e frio. O albergue é público e já tem uma boa quantidade de peregrinos. A hospitalera nao está. Escolho minha cama conforme as regras consuetudinárias. Antes de me instalar completamente reencontro com muita alegria e emoçao meu amigo peregrino de Belém. Estava sem notícias dele há dias. Depois chegam as coreanas Aranya (que vive na Índia) e Xan, mascote de todos os grupos de peregrinos que vao se formando e desfazendo. Duas figuras.
Saimos para fazer compras e verificar as opçoes de restaurante. Uso a internet até onde posso e depois vou jantar. Ainda nao tenho condiçoes de encarar uma ternera guisada e prefiro nao arriscar, na esperança de que amanha consiga encarar um cocido maragato em Astorga.
Vou dormir, mas o albergue fica junto mesmo da rodovia N-120 e o barulho nao ajuda um bom sono.
Quarta-feira, Maio 05, 2010
Noticias do Caminho - de Bercianos del Real Camino a Mansilla de Las Mulas
4 de maio de 2010, terca-feira. Acordo melhor, mas nao curado. Consigo comer uma maca que me deu minha amiga e tomar um cha de frutas do bosque reanimador. Mas parto mais tarde que nos outros dias, para enfrentar frio e vento, que promete. Ha previsao de nevada para um pouco mais ao Norte. Sinto que tenho forcas para caminhar, mas o Caminho nao tem o mesmo gosto, o mesmo sabor. Antes das dez da manha estou em El Burgo Ranero, onde deveria ter pernoitado. No bar me reidrato com Aquarius, essa milagrosa bebida isotonica que a Coca-Cola inventou para uma das Olimpiadas e voltou ate o posto de gasolina para recarregar o celular Movistar.
Estou melhor o bastante para resolver encarar treze quilometros ate Reliegos, com vento forte e frio vindo do Norte, o que obriga a um esforco adicional e as vezes nos tira da trilha. A planura leonesa esta tomada de trigais e imensos campos de cevada, a perder de vista. Meu rendimento fisico nao foi muito afetado, mas o gosto sim. Como nao consigo caminhar no meu proprio ritmo, parece que nao produzo endorfinas em quantidades suficientes para gerar aquela sensacao de bem-estar e alegria. A sensibilidade e alterada. Depois do meio/dia passo pelo acesso a Villarmarcos e assim fico sabendo que ja fiz metade do percurso. Animador. Pouco depois de uma da tarde chego a Reliegos e para no bar La Torre, uma especie de Bodeguita del Medio do Caminho, coberta de grafitis por fora e por dentro. Nao poderia ter acontecido coisa melhor. Alongo enquanto o vento derruba cadeiras, mesas e guardassois. Uma simpaticissima figura tenta repor as coisas no lugar e atender os clientes. Em todas as linguas e com largos gestos. Quando nao consegue se fazer entender, vai mostrando as comidas ate compreender e ser compreendido. A musica que toca e cubana, Buena Vista Social Club. Nosso bem humorado personagem e Eusiginio - que nome - que vai preparando as tortillas ao gosto de cada fregues. Por conta dessa imensa habilidade em fazer comidas e encantar pessoas mereceu uma foto na ultima edicao do guia de Paco Nadal. Merecida. Seu contagiante bom-humor produz efeitos curativos sobre mim, ao que parece, pois agora assim descansado e animado resolvo encarar a ultima etapa que pretendo fazer hoje, ate Mansilla de Las Mulas.
Na saida sou alcancado por outro telefonema de minha amiga, que so agora chegou a El Burgo Ranero e sangra pelo nariz. Combinamos que ela vai de taxi para Leon e descansa ai o resto do dia, para nos reencontrarmos no dia seguinte. Agora estamos os tres peregrinos de Belem separados pelo vento, pelo frio e pelos limites pessoais de cada um de nos. No Caminho, querer nao e poder.
Enfrento bem os seis quilometros de andadero a margem da rodovia ate Mansilla de Las Mulas, onde pernoitarei tambem por razoes sentimentais. Foi no albergue municipal que Araceli foi muito bem cuidado por Laura - tem um post de abril de 2010 sobre esse tema - que continua aqui, cuidando do albergue dos peregrinos com energia, dedicacao e bom-humor. Chego no albergue depois das tres da tarde e Laura nao esta. Volta as cinco da tarde. Me instala, conforme as regras da casa e saio para comprar uma sopa de calabaza pronta - no saco promete um terco das necessidades diarias da dieta mediterranea - que e tudo que preciso para jantar e frutas para o cafe da manha. Quando Laura chega e sua companheira carimbo a credencial e pago o donativo. Vou para Internet o tempo suficiente para atualilzar os correios eletronicos e sofrer o assedio de um peregrino italiano que monopolizou a maquina com um falatorio interminavel ate a hora de dormir. Paciencia, atualizo o blog depois. Desculpe, Vera Paoloni. Desculpem, amigas e amigos que acompanham estas noticias.
Amanha estarei melhor e comecarei a caminhada mais cedo.
Noticias do Caminho - de Terradillos de Templarios a Bercianos del Real Camino
3 de maio de 2010, segunda-feira. O albergue novo de Terradillos - Los Templarios - nao me caiu bem. E grande, bonito e algo ordinario, pude ver depois do ultimo post. Cobra 9 euros para dormir e 10 euros para lavar e secar quatro pecas de roupas. Duas horas depois me entregaram umidas. O barato saiu caro. A calefacao nao foi ligda e nao fornece mantas. O espagueti do jantar e dispensavel. Bom mesmo so o chupito de Orujo. Mas ruim mesmo foi o pescado que comi - panga engordurada -que me deixou mal o dia inteiro. E peregrinos baianos que ficaram no albergue Jacques de Molay reclamaram do barulho e do cheiro de maconha de alguns suecos.
Saimos depois das sete da manha para enfrentar os doze quilometros ate Sahagun, o Cluny espanhol. Preferi ir pela variante que passa por Moratinos e San Nicolas. Antes das nove da manha passo saio de Palencia e entro em Leon. Dez horas chego a Sahagun, onde faco um breve e forcado descanso.
Sentindo que tinha forca e saude, resolvo enfrentar os dez quilometros ate Bercianos del Real Camino, onde pernoitei em 2007. Quando passava em frente ao albergue onde fiquei com Araceli, sou alcancado por um telefonema de minha amiga dizendo que o joelho dela estava mal. Resolvemos ficar ai mesmo. Espero o albergue abrir e a amiga chegar. O albergue e paroquial e vive exclusivamente de donativos, com o qual financiam uma ceia e um desjejum. Todos ajudam na preparacao da ceia. Tem uma capela onde fazem uma oracao com os peregrinos. As hospitaleras sao espanholas. Em 2007 era um catalao e uma italiana. Quando perguntava se havia farmacia para a hospitalera um peregrino ciclista pergunta o que preciso e logo abre seu kit de primeiros socorros e divide sua racao de antidiarreicos comigo. Sao gestos como esses que correspondem a toda uma experiencia unica que so o Caminho com certeza proporciona. Agradeco e desejo-lhe bom Caminho. Ele quer ir para Leon, mas o vento foi terrivel para todos os peregrinos. Forte e frio. Resolvo tomar o remedio e seguir o manual, jejuando e descansando ate de manha. Minha amiga chega e se perde. Saio para encontra-la e leva-la ao albergue. Durmo bem, embora um pouco febril.
Nas circunstancias, foi um bom Caminho.
E ficar aqui me trouxe boas recordacoes, pois em 2007 Araceli foi bem cuidada aqui neste albergue, ao qual estaremos ligados para sempre.
Amanha estarei melhor e seguirei meu Caminho.
Domingo, Maio 02, 2010
Notícias do Caminho - de Carrión de Los Condes a Terradillos de Templários
2 de maio de 2010, domingo. É um domingo sem cara de domingo. Ontem, sábado, teve cara de domingo. As freirinhas do albergue, agostinianas, marcaram uma cantoria para sete da noite, antes da missa. Quando cheguei um coro de peregrinos do mundo inteiro cantava Guantanamera, acompanhando uma norteamericana que tocava violao. Muito diferente de três anos atrás, quando o rigor do cura - quase rabugice - nao permitia nada assim. De cançao em cançao, cada nacionalidade vai sendo homenageada. Os cânticos vao carregando a atmosfera de emoçao. Uma delas dá as boas-vindas, outra fala de um outro mundo onde todos sao irmaos. As freirinhas se apresentam e dizem de sua missao no acolhimento de peregrinos. Incentivam os peregrinos a compartilharem os motivos pelo quais estao no Caminho. Tem de tudo. Uma espanhola - um casal que caminha junto conosco há dias - relata que esteve muito doente e prometeu fazer o Caminho se ficasse boa. Ficou boa demais, pois o casal é sempre o primeiro a sair e o primeiro a chegar nos albergues. Um simpático italiano, Francesco, diz que caminha por um amigo de 66 anos, que está com um bruto tumor no estômago. Uma espanhola caminha pela mae da amiga argentina que morreu sem fazer o Caminho. A freirinha distribui estrelas de papel feitas pelas monjas e depois abençoa um por um dos peregrinos, sem perguntar-lhes a crença.
Assisto parte da missa dos peregrinos, com mais frequência do que a missa regular, ao meio-dia. Minha amiga e meu amigos de Belém recebem a bençao do cura e ela fica emocionada o resto do dia. Sérgio, peregrino de Curitiba, de quem vinha tendo notícias há dias, me reconhece sem nunca ter me visto. Coisas do Caminho. Caminhamos um pouco pela cidade enquanto a noite cai e o frio aumenta. Na beira do rio um parque lembra as Tulherias. No restaurante janto uma sopa castellana e meus amigos um lechazo (cordeiro de leite). Cumpro rigorosamente a disciplina do albergue e dez da noite já estou no beliche.
Os dezessete quilômetros que separam Carrión de Los Condes de Calzadilla de La Cueza coloca os peregrinos mais cedo na trilha. O antigo monastério de San Zoilo, na saída de Carrión, agora é um hotel de luxo. As setas atrapalham um pouco na saída. Logo passamos pela Abadia de Benevivere e começamos o enfrentamento dos monótonos dezessete quilômetros sem outra coisa que nao a estradinha que um dia foi uma via romana (a calzada Aquitania). Descontadas as árvores plantadas que amenizam as margens da estradinha, minhas referências sao uns galpoes e uma árvore diferente, uma encina. No cruzamento mais ou menos no meio do percurso agora tem um bar. O dono está espalhando as cadeiras e alguns peregrinos vao parando. O dia está bom para caminhar. Nao tem sol e a temperatura está boa, coisa de una doze graus. Nada do sufoto que passamos aqui três anos atrás, sob o sol. No verao agora as autoridades colocam carros distribuindo água. Uma patrulha da Guardia Civil passa lentamente. Logo vamos nos dispersando. Os mais rápidos se distanciam, os retardatários vao ficando. Sérgio passa por mim, tira um dedo de prosa e vai em frente. Marcamos encontro no albergue novo de Terradillos de Templários. Logo estou só. O silêncio é quebrado pelos meus próprios passos e pela hipnótica batida do cajado na gravilha. Um passarinho marca seu território subindo e cantando até un dez metros de altura. É assim e vai ser assim nestas planuras leonesas. Os caracóis estao ativos e cuido para nao pisar em um só deles. De repente, antes das dez da manha, a torre do cemitério brota no meio de um trigal. Estou chegando a Calzadilla e, comparando com a primeira vez, foi um chocolate. Passo pelo albergue onde Nenê nos atendeu três anos atrás e vou direto para o restaurante do hostal (do mesmo dono). Na porta um jovem arruma as cadeiras e conversa com um casal que está esperando a filha, que peregrina de Santiago para Roma (é uma romeira, no verdadeiro sentido da palavra). Pelo meu sotaque o jovem nota que sou brasileiro e se apresenta: Charles, de Guarulhos. Este é um reduto de brasileiros. O dono me reconhece e me recebe com alegria. Sua noiva é brasileira. Ele diz que vai passar o Carnaval de 2011 no Rio. Tomo um café e me marcho para Lédigos, agora um pulo seis quilômetros mais adiante. A paisagem é menos monótona. A trilha agora ziguezagueia com a rodovia. Hoje é dia de ciclistas. Passo rápido por Lédigos, que parece ainda nao ter acordado.
Mais três quilômetros e avisto o novo albergue Los Templários, onde chego ao meio-dia. Os cajados na porta dizem que já chegaram outros antes. Outros peregrinos vao passando. Outros tantos vao ficando. Estiro os músculos e reservo lugar para meus amigos.
Almoço com Sérgio, sempre muito simpático. Como hoje é domingo, peço um chupito (no caso, um licor de Orujo com ervas) e um café.
Espero meus amigos que chegam depois das quatro da tarde, quando o albergue já está alvoraçado de peregrinos.
Estes albergues novos parecem frios e um tanto distantes do espírito jacobeo, mas os peregrinos vao se encarregando de enquadrá-los. Minha aposta é que logo logo eles terao cara de albergues à moda antiga. Controvérsia a parte, penso que a vitalidade do Caminho passa por esses diferentes tipos de albergues (municipais, paroquiais e privados).
Agora, por exemplo, o bar está lotado de peregrinos que fazem a algaravia multinacional e multicultural de sempre. O espírito do Caminho prevalecerá, sempre.
O Caminho terá vida longa.
É o que espero e desejo.
Sábado, Maio 01, 2010
Notícias do Caminho - de Boadilla del Camino a Carrión de Los Condes
1º de maio de 2010, sábado. Dia bom para caminhar. Nublado e sem ameaça de chuva para valer. Cheguei a colocar a capa e o anorak, só para tirar em seguida.
Entre Boadilla e Frómista a marca desta etapa é o Canal de Castilla, uma obra de engenharia do Século XVIII que ainda hoje impressiona. A idéia era construir um canal para ligar Castilla ao porto de Santander. Foram construídos 207 km. Pelo canal deveriam trafegar barcaças com mercadorias, puxadas por mulas desde as margens, por onde agora caminham os peregrinos.
Em Frómista ficam as eclusas.
Estamos em Tierra de Campos. Planuras de trigais a perder de vista. Os nomes das cidades dizem tudo: Población de Campos, Revenga de Campos e Villarmentero de Campos. De diferente só Villalcázar de Sirga. Caminhamos por trilhas de terra ao lado da rodovia. Quem quer, usa uma variante por caminhos rurais.
Meio-dia chego a Carrión de Los Condes. O albergue paroquial está fechado. Passeio pela cidade, assisto um pedaço da missa - o padre pede pelos sindicalistas e pelos trabalhadores - e um tarol anuncia a marcha obrera do lugar. Um pavilhao operário passa de relance pela porta gótica da igreja. Pequena manifestaçao, para um Primeiro de Maio também pequeno, de uma cidade pequena e em marasmo que só é quebrado pelo alvoroço gradual dos peregrinos que vao chegando ou passando (de bicicletas alguns).
Quando a freirinha agostiniana começa a atender a fila já está grande. Hoje o albergue paroqual lotou cedo.
Almoço um bom menu do peregrino na Cerbeceria J.M. (alubias pintas, ternera guisada, pan, vino y flan; 11 euros com a gorjeta).
Meus amigos chegaram mais cedo. Vao ter que ficar em outro albergue.
Vou dar mais uma volta na cidade para comprar alcool de romero e me preparar para a pernada de amanha até Terradillos de Templários.
Entre Boadilla e Frómista a marca desta etapa é o Canal de Castilla, uma obra de engenharia do Século XVIII que ainda hoje impressiona. A idéia era construir um canal para ligar Castilla ao porto de Santander. Foram construídos 207 km. Pelo canal deveriam trafegar barcaças com mercadorias, puxadas por mulas desde as margens, por onde agora caminham os peregrinos.
Em Frómista ficam as eclusas.
Estamos em Tierra de Campos. Planuras de trigais a perder de vista. Os nomes das cidades dizem tudo: Población de Campos, Revenga de Campos e Villarmentero de Campos. De diferente só Villalcázar de Sirga. Caminhamos por trilhas de terra ao lado da rodovia. Quem quer, usa uma variante por caminhos rurais.
Meio-dia chego a Carrión de Los Condes. O albergue paroquial está fechado. Passeio pela cidade, assisto um pedaço da missa - o padre pede pelos sindicalistas e pelos trabalhadores - e um tarol anuncia a marcha obrera do lugar. Um pavilhao operário passa de relance pela porta gótica da igreja. Pequena manifestaçao, para um Primeiro de Maio também pequeno, de uma cidade pequena e em marasmo que só é quebrado pelo alvoroço gradual dos peregrinos que vao chegando ou passando (de bicicletas alguns).
Quando a freirinha agostiniana começa a atender a fila já está grande. Hoje o albergue paroqual lotou cedo.
Almoço um bom menu do peregrino na Cerbeceria J.M. (alubias pintas, ternera guisada, pan, vino y flan; 11 euros com a gorjeta).
Meus amigos chegaram mais cedo. Vao ter que ficar em outro albergue.
Vou dar mais uma volta na cidade para comprar alcool de romero e me preparar para a pernada de amanha até Terradillos de Templários.
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