Notícias do Caminho - de Melide a Pedrouso

14 de maio de 2010, sexta-feira. A combinaçao do melhor pulpo do Caminho - talvez do mundo, a pulperia Ezequiel deveria ser considerada patrimônio cultural da Humanidade - com um vinho branco jovem daqui mesmo da Galícia - aqui nao tem D.O.C, ainda - me deixou com sono peregrino e acordei praticamente já na hora de partir ainda escurinho. Mas os arredores de Melide sao bem iluminados e as setas amarelas sao encontradas com facilidade. Por enquanto, nao chove. É um orvalho fino. Mas molha. E logo engrossa. Tenho que colocar o poncho antes de chegar a Boente. Hoje vai ser um dia daqueles que só a Galícia garante: chuva fina o dia todo.
Nestes últimos dias vai ser um sobe-e-desce que as pernas curtidas já nao reclamam mais. É que aqui todos os rios correm para o Sul e o Caminho vai para o Oeste. Passo por Boente já empacotado e pronto para o chuvasqueiro. Depois de oito horas da manha passo por Castañeda, onde no passado ficavam os fornos que queimavam as pedras de cal que os peregrinos traziam para ajudar na construçao da catedral.
Antes das nove horas estou em Ribadiso da Baixo. O topônimo tem a ver com o Rio Iso (Riba do Iso). O albergue público da Xunta tem boa pinta. Dá vontade de ficar. Nossa amiga peregrina de Belém que se adiantou uns dias passou noite aqui e gostou.
Depois das nove horas passo por Arzúa e paro para o chocolate espesso com tarta de Santiago, a inesquecível torta de amêndoas com a cruz do Santo bordada com açucar de confeiteiro. Meu companheiro de caminhada está atrasado e eu com frio. Tenho que seguir caminho antes de entrevar.
Um instantinho que fiquei na cafeteria deu para notar que o Caminho está ficando cada vez mais populoso. Gente limpinha que começou em Sarria, para conseguir a Compostela. Leio no Voz da Galícia que o Príncipe e a Princesa das Astúrias peregrinaram ontem os onze últimos quilômetros do Caminho até Santiago e incentivaram os espanhóis a fazerem pelo menos um trecho do Caminho. Um reforço e tanto para a promoçao. Anos atrás o Príncipe fez percurso maior. Mas agora deixou muita autoridade com língua para fora.
A chuva nao passa, o frio é suportável mas tenho que trocar o cajado constantemente de mao, que fica insensível com o tempo.
Os grupos de peregrinos vao se formando, cada um no seu ritmo. Passo alguns e sou passado por outros. Um deles é Daniel, mexicano de Los Mochis, que passa por mim sem reconhecer. Vou passando pelas intimidades da Galícia rural, com suas hortas - de couves imensos - estábulos com cheiro característico. De alguns deles vem o ruído da ordenha mecânica. Galícia e Astúrias fornecem leite para a Espanha inteira. Cruzo com três caminhoes de coleta de lixo neste mundo aparentemente perdido. O furgao das padarias vao buzinando e vendendo o produto quentinho. Peregrinas nao resistem e compram um. Agora cruzo com o caminhao-tanque que recolhe o leite. Assim vou surpreendendo a intimidade desta Galícia rural única e indescritível.
Um estirao de onze quilômetros me leva a Salceda, onde chego ao meio-dia. Nao parece, pois a chuva nao deixa. Aqui sim há névoa e nao bruma. Névoa baixa, parecida com a nossa.
Por volta de uma hora da tarde estou em Santa Irene e agora tenho um alto - mais um - para vencer. A certeza de que amanha estarei em Santiago anima meus passos, agora automatizados e cadenciados pelo chapinhar das botas e o ruído do cajado e do poncho. Mais um albergue público da Xunta muito bem instalado este de Santa Irene. Aqui alguns peregrinos já vao se arrumando. Mas meu destino é outro e minha etapa hoje será de 33 quilômetros.
Meia hora depois passo por Rúa e sei que estou perto de meu destino.
Mais meia hora - com uma nesga de sol se esgueirando - e chego ao albergue de Pedrouso, um dos melhores da Xunta.
Reencontro Obdulia, que me acolhe com a alegria de sempre. Um jovem hospitalero me dá boas vindas em bom espanhol. É Alberto, voluntário italiano. Cumprimento-os e Obdulia diz que minha mao está fria e se diverte com isso. Sabe que eu estou bem.
Vencidos os trâmites, ela guarda uma cama para meu amigo que está chegando.
Agora cumpro uma das minhas missoes deste Caminho: agradecer a Obdulia. Explico. Três anos atrás chegamos aqui eu e Araceli bastante cansados. Obdulia deu um jeito de nos deixar sozinhos em um quarto, pois percebeu que Araceli tinha dificuldades, embora já estivesse bem melhor. Fiquei - ficamos - gratos e prometi que voltaria para agradecer. Voltei e agradeci. Ela lembrou do fato e pediu notícias de Araceli, mandando-lhe um abraço. Coisas do Caminho.
Sao coisas assim que nos fazem voltar e alimentam essa torrente humana que é o Caminho.
Caminho cada um tem e faz o seu. O meu é esse.
No Caminho todo dia é dia de confraternizaçao universal. Aqui nao é preciso esperar o Primeiro de Janeiro para confraternizar. Aqui confraternizamos todos os dias, todas as horas, todos os minutos, todos os instantes.
Amanha vencerei os vinte quilômetros que me separam de Santiago. Quando der o último passo transpondo o portal da catedral, terei caminhado 850 quilômetros e terei feito uma imensa jornada interior. E mais uma vez mergulhado no tempo de meus antepassados que um dia do final do Século XIX deixaram o porto de Vigo e foram colonizar Bragança.
A calma ansiedade do peregrino me leva de volta ao albergue, para descansar e me preparar para amanha vencer esta última etapa.
Nao bem última, porque depois vou a Finisterre, como manda a melhor tradiçao do Caminho.

Comentários

JOSÉ DE ALENCAR disse…
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Foi o caso.

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