Notícias da Ilha Taquile

Depois de umas duas horas de navegaçao pelo Titicaca levemente encrespado, chegamos a um dos portos da Ilha Taquiles, propriedade comunal dos seus moradores (que compraram a propriedade pedacinho por pedacinho de um latifundiário amigo do rei). Cada pessoa que ingressa na Ilha paga cinco soles, algo como R$3,50. Cada barco que ancora paga dois soles. Com esse dinheiro a comunidade melhora a infra-estrutura da ilha.
Subo lentamente pela trilha, calçada de pedras pelos próprios moradores (o alcaide daqui è mais nominal que real, pois vive em Puno embora tenha casa aqui). Já nao cansei tanto para chegar na comunidade encarapitada no topo da ilha, mais de 4.000 m sobre o nìvel do mar. No caminho encontrei um dos líderes da Ilha com seus símbolos de poder: a roupa, o gorro, a faixa e a bolsa onde leva folhas de coca. Aqui os homens nao se cumprimentam apertando as maos, mas sim oferecendo folha de coca tiradas dessa bolsa, um ritual ancestral que ajuda a manter a coesao social. Por essas e por outras é que acho uma estupidez criminalizar o porte e uso da folha de coca. Para mim é algo tao absurdo quanto, por exemplo, criminalizar o porte e uso do... açaí.
Os moradores de Taquile vivem do turismo, da agricultura e da pecuária tradicional (principalmente ovelhas). O turismo deixou marcas, positivas e negativas, mais aquelas que estas. Positivas: o resgate das tradiçoes e a melhoria das condiçoes de vida dos taquilenhos. Negativas: um certo artificialismo que torna algo fake muito do que agora existe aqui. O saldo é positivo, pelo que percebi, pois até a Unesco reconheceu isso e incentiva o turismo como fonte de preservaçao da cultura dos ilhéus, principalmente a tecelagem (reconhecido como patrimônio imaterial pela Unesco), que aqui é trabalho dos homens (eles usam cinco agulhas com uma habilidade impressionante). Sentado na pracinha em frente da alcaidia, distribuí escovas e creme dental para algumas crianças. O sorriso escancarado no rostinho rechonchudo de uma delas já pagou a viagem inteira. Mas gentilmente recusei comprar o artesanato de outra mais grandinha, que levou também o seu kit.
A paisagem é lindíssima, indescritível. O azul do lago emenda com o azul do céu. O sol a pino torna óbvio porque ele era - e continua sendo - adorado por estes povos daqui: sem o sol simplesmente a vida seria impossìvel aqui, mais de 4.000 m sobre o nìvel do mar. Mas também nao seria possìvel em lugar nenhum, o que nos esquecemos na nossa civilizaçao, pelo estilo de vida que levamos. Para os povos tradicionais o sol (Inti) tem mesmo que ser adorado, pois dele tudo depende. Os painéis solares dos ilhéus nao deixam dúvidas disso, porque sao o perfeito enlace entre esse passado mítico e o presente. Afinal, de acordo com a cosmogonia inca o Inca (o imperador) era o filho de Inti feito homem. Essa ligaçao cosmogônica nao vai acabar nunca, enquanto existir gente nesta ilha, que para um observador marxista bem que poderia ser vista como praticante de uma espécie de socialismo andino. O poder é compartilhado e os líderes sao escolhidos pelos moradores fora do esquema eleitoral institucional. Os dois sistemas convivem e dialogam bem, mas a verdade é que a Ilha tornou-se independente do poder polìtico institucional, graças aos ingressos do turismo. E os ilhéus tomam decisoes que podem satisfazer socialistas e capitalistas. Por exemplo, os quarenta e oito restaurante da ilha oferecem o mesmo cardápio (a base de quinua, batatas, trutas e chá de ervas locais, inclusive coca) a preço igual, para que a competiçao nao afete o equilíbrio social dos ilhéus.
Aqui valem os mesmos preceitos que valem na Ilha Amantaní: nao roubar, nao ser indolente, nao mentir. O resultado é o mesmo: criminalidade zero.
Depois do almoço descemos para um porto do outro lado da ilha. O lago agora estava tranquilo e refletia um céu azul decorado com nuvens de formas caprichosas. Foi quase uma epifania.
Menos de três horas de navegaçao e estamos de volta a Puno, onde chego com a certeza de ter aprendido em dois dias com uros e ilhéus de Amantaní e Taquiles mais do que muitos anos de estudo e leitura. Estou agora convencido que os requerimentos de nossa civilizaçao e do nosso estilo de vida, que consome muito mais do que a Terra pode nos oferecer a todos, vai nos obrigar, mais dia, menos dia, a repensar essa nossa civilizaçao e esse nosso estilo de vida. Nao sei bem qual vai ser o caminho para o encontro desse ponto intermediário entre nós e os ilhéus do Titicaca, mas sei que teremos que encontrá-lo, enquanto podemos.

Comentários

Excelente, amigo. Sugiro que tuas crônicas de viagem integrem o volume de um futuro livro.
Abs.
Anônimo disse…
Assino embaixo e em cima , Itajaí , não à toa o cara se chama Jose Alencar.
Abs aos dois
Tadeu.
JOSÉ DE ALENCAR disse…
Muito obrigado, amigos, pela leitura e pelo entusiasmo.
Fiquei ruborizado.

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