Notícias da Trilha Inca (2)

Sábado, 28 de novembro de 2009.
Desperto antes das seis, com o alarme do celular e o canto do galo da vizinhança.
Meço a pressao. Está alta, como previa. Mesmo descontada a precaridade do aparelho portátil, sei que a altitude aumentou a pressao arterial. Trouxe os remédios contados para a hipertensao e para o mal de altitude, o soroche. A pílula contra o soroche pode até ser um placebo, mas funciona. Pelo menos comigo.
Nao dormi bem, mas estou descansado.
No desjejum o cozinheiro nos ofereceu mingau de quínua com aveia e leite, pao, margarina, geléia de morango, omelete, chocolate, café solúvel e chás (inclusive de coca, claro). A partir desse dia resolvi usar uma mistura de chocolate com folhas de coca. Preciso de calorias e da coca para melhorar a respiraçao.
Ao partir vejo que o nome do lugar é Los Nogales.
Começamos a caminhada montanha acima. Agora a trilha fica dura. As pedras sao resvaladiças. Os efeitos da altitude se fazem sentir. Ofego. Resfolego. Um pequeno descanso já permite recuperar. Significa dizer que um ano de musculaçao e de exercícios cardiorrespiratórios valeram a pena. E tem mais é que valer mesmo, pois nao tenho como voltar agora. Os porteadores passam correndo com seus passos miúdos e suas cargas imensas. Sao uns hércules encurvados. Eles correm porque isso ajuda manter o equilíbrio, pela força da inércia.
Eu subo devagar, respirando com dificuldades e sabendo que nao posso parar, pois tenho que manter alta a produçao de enforfinas. Nao sinto dores nem mal estar (soroche). Valeram as sessoes de RPG e Pilates, além das pílulas contra soroche (aspirina e cafeína, basicamente).
Por volta de oito e meia da manha estamos em Ayapata (3.360 m sobre o nível do mar), onde mulheres e crianças quéchuas vendem água, bebidas isotônicas e bolachas. Compro Powerade, um clone de Gatorade com mais potássio.
Pouco depois das 10 h estamos em Llullucha, para mais um descanso de meia hora antes do ataque final ao paso, a passagem entre os dois vales, o ponto culminante da Trilha.
A trilha fica mais difícil, subindo sempre e mais. Faço meu próprio ritmo, sem parada para descanso, para manter sempre alta a produçao de endorfinas. Esta é uma prova de resistência que decidi vencer. Nao contra ninguém, mas experimentando meus próprios limites.
Ao meio-dia, com alegria próxima da euforia, chego ao paso, a 4.215 m sobre o nível do mar. Todos que chegam aqui chegam assim, quase eufóricos. Uns grupos mais alegres que outros. Duas jovens conseguem energia para saltar juntas em busca de uma boa foto. Cada um que chega é aplaudido por todos. A vista dos vales é deslumbrante, estonteante, vertiginosa. Nem palavras, nem fotos, podem descrever esta visao. Para ver e sentir tem que chegar aqui. O vento cortante e frio poe a prova minhas roupas, que resistem bem. Pelos companheiros do grupo que chegaram antes - o adolescente australiano e seu tio peruano - soube que minutos antes chegaram duas senhoras, uma de 64 e outra de 70 anos, que já haviam seguido caminho com seu guia. Fiquei impressionado e decidi fazer o mesmo daqui a catorze anos. É um bom motivo para cuidar bem da saúde até lá. A vista dos vales abaixo e dos picos acima, a verticalidade, mostram a superioridade da natureza e a capacidade dos homens. E a necessidade deste respeitar aquela e viver em harmonia. O nome deste lugar é Warmiwanuska, um páramo muy húmedo subalpine subtropical, conforme a placa.
Descansamos por uma hora e iniciamos a baixada, quando a gravidade ajuda e bastao tem que ser usado em sua extensao máxima. Cada passo é calculado, escolhendo a melhor posiçao para os pés e para bastao, que funciona como uma terceira perna.
Cerca de vinte minutos antes das 14 h chegamos a Pacaymayo, a 3.600 m sobre o nível do mar, onde somos recebidos com laranjada. O acampamento já está armado. Estamos acima das nuvens, que cobrem os vales. O criativo cozinheiro preparou um almoço excelente: sopa de semola com legumes, salada, causa rellena de presunto (um prato típico feito de purê de batata recheado), frango à milanesa, arroz com aletria, mazamora de pêssego e chás (de coca inclusive).
Descanso o resto da tarde na barraca. Perdi a hora e simplesmente dormi.
Sou acordado depois das sete horas da noite por um porteador que convida para jantar. A lua continua crescendo e está quase cheia. O jantar foi simples: sopa de espaguete cabelo de anjo, couve flor no vapor, cubos de carne com legumes e chás. A chaleira passa de mao em mao. Eu passo batido, para nao prejudicar o sono.
A precauçao e o cansaço ajudaram a dormir melhor, apesar do calor amazônico dentro do saco de dormir.
Durmo com a sensaçao de que cumprimos a promessa: sim, nós podemos.

Comentários

Carlos Barretto disse…
Sensacional relato, que acompanho com lealdade.
Depois precisamos conversar sobre onde vc adquiriu estes produtos da The North Face. Eles são antológicos pela extrema qualidade.

Abs
Anônimo disse…
Mira el cielo mañana, hombre valiente. La luna llena te dirá algo.Fica listo para interpretar el mensaje de los antiguos.
Buena suerte en la nueva etapa hermano, y si puedes, también consagra la Ayahuasca.
Estamos junto con su mente y rezando para que usted tiene la fuerza para seguir sus pasos con tueda seguridade.
Andalhe !
R.Sao Payo
Anônimo disse…
Show de imagens e poesias.
Abs
Tadeu
JOSÉ DE ALENCAR disse…
Gracias, amigos, por la lectura.

Barretto, comprei produtos da The North Face em Lima e em Cuzco, onde existem franquias.
Antes havia localizado pela Internet algumas lojas no Brasil que vendem esses produtos, mas sai muito caro, por isso preferi comprar em Lima e Cuzco, seguindo orientacoes da agencia de viagens Pisa Trekking.
Aqui em Macchu Picchu os produtos da The North Face dominam. Os demais sao Marmot, Mamut e Quechua.
Saludos.

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