Rio Espanhol

Depois de três dias no Rio relembrando a gastronomia brasileira (a picanha da Majórica), luso-brasileira (a sopa Leão Veloso do Rio Minho) e alemã (o eisbein e o kassler do Bar Luiz), resolvi reencontrar esse pedaço espanhol encravado no Leme que é o Shirley. Nome improvável para um restaurante espanhol, mas é pura Espanha.
Sempre que venho ao Rio de Janeiro arrumo um pretexto para voltar ao Majórica, que um espanhol de Palma Mallorca resolveu plantar em plena Senador Vergueiro faz tempo. É uma picanha imperdível. Quem chega vestido de regata ganha uma camiseta de manga para entrar. E depois é ingressar nesse mundo de carne que é a picanha com farofa brasileira.
Depois invento uma maneira de derivar para a Rua do Ouvidor - desta vez foi um retorno de Niterói, onde fui ver o disco voador de Niemeyer que é mesmo tudo o que dizem e muito mais - e chegar ao Rio Minho. Ali foi inventada a sopa Leão Veloso, pelo embaixador homônimo. Embaixador gosta de comer bem (o que explica o boom gastronômico de Brasília). Quando o Itamaraty ficava aqui no Centro Velho do Rio de Janeiro, Leão Veloso resolveu fazer uma adaptação da bouillabaisse francesa com os ingredientes brasileiras. Com o devido respeito ao original, o derivativo é melhor que o prime. Uma vez pedi para ver os apetrechos que usam para fazer a sopa. Um imenso coador de aço inoxidável para cozinhar e coar a cabeça do peixe, que produz o caldo básico. O resto é coisa nossa e o jeito manso de fazer comida devagar, slow, muito slow food. Tem cherne, ova, polvo, lagosta e camarão. E a cor é, nesta Semana Santa, um pecado abençoado por Deus. O garçon que nos atendeu tem seus quase trinta anos de casa. E vende o peixe com tamanha competência que me atrevo a dizer que a sopa Leão Veloso servida por ele é mais gostosa ainda.
Ontem, no Bar Luiz - que já foi Adolf e quase vai a breca porque uma malta estudantil resolveu depredá-lo durante a Segunda Guerra (foi salvo por Ary Barroso, que subiu em uma mesa e explicou que o buraco era mais embaixo) - encaramos (eu e Araceli) um eisbein, um kassler e duas salsichas (branca e vermelha), com a famosa salada de batatas com maionese caseira, chucrute, mostarda preta e um chope que até chegar à caldeireta passou por setenta e tantos metros de serpentina (agora é Sol, que desbancou o Brahma na guerra dos chopes que foi travada aqui, sem mortos ou feridos). Sei que é pecado comer carne na Sexta-Feira Santa, mas o eisbein estava imperdível. E nossos esforços para comer sardinha no beco delas (na Miguel Couto) deu em nada, porque não havia nada aberto no feriado. E perdemos a missa das sete no Mosteiro de São Bento, que é imperdível (aos domingos e feriados, de manhã e de tarde, com canto gregoriano e órgão tocado por um jovem monge organista). Seremos perdoados, com certeza, porque fizemos o esforço possível. Ainda tentamos o Penafiel e o Flor de Coimbra e nada. Tudo fechado. Sobrou para o Bar Luiz, esse templo da baixa gastronomia carioca.
Mas hoje nos redimimos e viemos a este território espanhol encravado no Leme, que é o Shirley. Sei, sei. Não é muito másculo e não parece nome de restaurante espanhol. Mas é. Aqui ninguém vem por acaso. O Leme não é lugar de perambulação de turistas desavisados, diferente de Copacabana, cada vez mais tomada de assalto por bufês e fast-foods. Resolvemos matar as saudades das tortillas de patatas que era nosso mais comum desjejum no Caminho de Santiago. Coisa simples. Batata, cebola, ovos e azeite (espanhol, por supuesto). Não é a mesma coisa, claro, mas não decepcionou. E a entrada valeu pelo almoço quase todo. Mas sobrou espaço para uma paella valenciana generosa e perfeita, que dava para nós dois. E deu. Mas tinha ainda escalado uma lula recheada en su tinta. Fiquei tão bem impressionado que resolvi fotografar o prato. Para acompanhar, uma sangria que é única. A sangria daqui é única mesmo. Feita com um bom vinho tinto e com as frutas certas, nas quantidades certas. Ah, tem ainda o creme de papaya com cassis que não deve ser perdido, qualquer que tenha sido o desatino antes cometido.
Depois disso tudo, me arrastei alguns metros até chegar a este cyber café, digitar esse post e...

Comentários

Ah...mas que delícia!!...rs
A Majórica é um dos meus resturantes preferidos no Rio. Foi a primeira vez que vi uma coleção de picanhas à escolha do fregues.
E servem uma farofa carioca, granuladíssima, mas gostosa.
Descobri o Bar Luiz mais tarde, sempre no fim da tarde antes de pegar o bonde e subir para Sta. Teresa, onde morava.
Fico me devendo o Shirley, quem sabe um dia na sua companhia?
Abs gastronômicos.
indiazinhalea disse…
primo,
a marmita com a picanha da majorica se transformou em deliciosos sanduíches com pão francês na cozinha de uma república de quatro estudantes de pós rrsrsrsrsrsrsrsrsr fez muito sucesso e, agora, já sabemos onde comemorar nossas conclusões de curso!!!
JOSÉ DE ALENCAR disse…
Prima.

Fiquei muito feliz em reencontrá-la bem encaminhada na sua pós com seus amigos e amigas de república. Aproveite e, se der, finque raízes aí.
A Majórica é ótima também para esses momentos.
Mas se você quiser comer o melhor sanduíche da Zona Sul vá no Cervantes, na R. Prado Jr., 335 ou R. Barata Ribeiro, 7 - Copacabana. A qualquer hora do dia ou da noite. É logo depois que o ônibus fizer a curva vindo da Av. Princesa Izabel. O de filé é imperdível. O de leitão também. Todos são acompanhados de finas fatias de um suculento abacaxi. Tentamos fazer em casa mas não é a mesma coisa. É um dos templos da baixa gastronomia do Rio.
Música Paraense disse…
Alencar, gostei muito do seu blog e favoritei em minha lista, passa no meu que resgata a música paraense. www.musicaparaense.blogspot.com abraços do Blue.

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